5. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

5.2 As áreas, estruturas e atividades no Parque Ecológico

5.2.5 As áreas do parque como um todo

A existência de elementos naturais como os extensos gramados sem separação por canteiros, diferentes espécies de árvores e muitas aves é marcante neste parque, o que pode ser um convite para o usuário ao contato com a natureza. Este parece ser mesmo o principal diferencial do Parque Ecológico da Pampulha e que o norteou o seu projeto.

Carina Paiva, que é diretora de gestão do Parque Ecológico da Pampulha, destaca o mesmo quanto à questão da natureza e avalia-o como um espaço diferenciado na cidade, e segundo ela, nele “o visitante tem a oportunidade de desfrutar de um amplo espaço de lazer, além de ter acesso a atividades culturais e de entretenimento. Tudo aliado a essa natureza exuberante que compõe um cenário especial em plena região da Pampulha” (PBH, 2007).

Apesar da fala de Carina, não foram observadas as tais atividades culturais e de entretenimento focadas para os visitantes de finais de semana. Pode até ser que elas ocorram realmente no parque, mas provavelmente com mais frequência nos dias de semana, em que há visitas de grupos agendados.

Gustavo Penna (2012), um dos responsáveis pela concepção do parque, afirmou, em entrevista26 concedida à autora desta pesquisa, que a intenção do projeto do parque era “criar grandes espaços livres com árvores e gramados, privilegiar o verde e deixar livres as visadas e os caminhos para permitir usos variados”, ele ainda reforça que para a equipe responsável pelo projeto, “liberdade é a soma de todos os lugares: as áreas se interligam convidando às atividades conjuntas e os usuários ficam à vontade para escolher o que querem fazer”.

Logo, pela ótica do responsável pelo projeto, a principal qualidade do Parque Ecológico é a liberdade que ele fornece aos visitantes para que estes possam escolher quais atividades fazer, o autor ainda ressalta a possibilidade dos “usos variados”.

87 No entanto, o que se percebe na prática é que a própria divisão do parque em setores ou áreas de atividades, tende a limitar essa liberdade de escolha em relação ao que fazer e onde fazer, pois se uma pessoa decide que vai jogar bola, por exemplo, e chega pela portaria 1, ao entrar no parque ela será surpreendida pela restrição dessa atividade unicamente à Esplanada, que está bem distante dessa entrada.

Com relação à flexibilidade ou diversidade de usos também é possível notar que, mesmo tendo sido pretendida, ela não ocorre na totalidade do parque na medida em que cada área tem suas atividades específicas, assim como um próprio arranjo espacial que deixa bem definidas as áreas. Ou seja, apesar da integração visual das áreas do parque pela manutenção de visadas livres, não se percebe integração de diversas atividades numa mesma área, o que limita as opções dos usuários, principalmente para os que tiverem alguma dificuldade em acessar determinadas áreas.

Outro importante aspecto é que em todas as áreas do parque a insolação é muito intensa, um pouco menos no Bosque, situação que tende a melhorar com o passar dos anos e o desenvolvimento das árvores, mas este pode ser um fator que favorece a concentração de pessoas prioritariamente no bosque e limita a permanência delas em outras áreas.

Como dito anteriormente, é permitido andar sobre a grama no Parque Ecológico, mas a ligação entre todas as áreas se dá por trilhas ora de piso intertravado, ora de areia e pequenos seixos. Quanto à distribuição das trilhas, porém, elas aparecem em mais abundância na área do Bosque, como pode ser visto na figura 40.

Nos locais onde há pavimentação com piso intertravado, sinalizada para pessoas com dificuldades de mobilidade (e que também é sinalizada como a pista de cooper do parque), em grande parte não há o sombreamento e consequente conforto para o deslocamento. Em caso de dias de chuva a situação também é complexa devido à inexistência de áreas de proteção contra intempéries nessas rotas.

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FIGURA 40 – Mapa de distribuição e tipos de trilhas do parque Fonte: Criado pela autora, 2012.

Percebe-se ainda, quanto à distribuição, uma concentração de trilhas pavimentadas do centro para a porção leste do parque, interligando as duas portarias e dando acesso aos sanitários, ao coreto, ao centro de apoio e ao memorial. Essa distribuição desigual também pode determinar o comportamento de muitos usuários, pois se a pessoa depender exclusivamente da área pavimentada para se locomover

89 ela não terá acesso a uma grande parte do parque e consequentemente não poderá usufruir de tudo que o espaço oferece.

Ainda referente às trilhas, a largura dos trechos pavimentados não comporta, por exemplo, pessoas utilizando cadeiras de rodas com um acompanhante ao lado de maneira confortável, ou duas pessoas em cadeiras de rodas lado a lado, ou ainda fluxos de duas pessoas ou mais em sentidos opostos, quiçá pessoas caminhando e correndo na mesma trilha.

O fato de a trilha ter sido feita com a largura mínima prevista pela NBR-9050/2004, nesse caso, não é o apropriado, pois a exigência da norma é para atender um fluxo reduzido e não um fluxo maior e simultâneo de pessoas. A figura 41 ilustra essa situação de ineficiência da trilha pavimentada em acomodar várias pessoas passando por ela.

FIGURA 41 – Trilha em piso intertravado é estreita Fonte: Arquivo da autora, 2012.

Sabe-se que essas trilhas pavimentadas não existiam quando da inauguração do parque, e só foram executadas junto às obras de construção do bicicletário, sanitários do bosque e portaria 1, que foram inaugurados em 2006, dois anos após a abertura do parque (FIGURA 42).

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FIGURA 42 – Placa de inauguração do Bicicletário e Sanitários Fonte: Arquivo da autora, 2012.

Estas informações se confirmam no totem próximo ao bicicletário e sanitários com a placa de inauguração datada de 2006, mostrada acima, e também podem ser confirmadas em Teixeira27 (2007, p. 69), que afirma que :

Um dos problemas percebidos é a falta de acessibilidade para portadores de necessidades especiais. [...] Não há muitos caminhos predefinidos nos parques. Pode-se – e até se incentiva – pisar na grama. As pistas existentes são utilizadas pelos ciclistas e por aqueles que desejam fazer caminhada. Todavia, as pistas são de seixos rolados. Assim a locomoção é dificultada, ora em pedras, ora em gramados. No projeto, há a previsão de uma pista para locomoção de portadores de necessidades especiais, com piso intertravado. Entretanto, ainda não foi executada.

O fato de as trilhas pavimentadas terem sido executadas posteriormente, talvez possa ser explicado porque, apesar de já haver os parâmetros de acessibilidade à época da conclusão do projeto, a aplicação dos critérios de acessibilidade só começa a ganhar força a partir da revisão de NBR 9050 em 2004, ano de inauguração do parque.

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A defesa do trabalho de Teixeira é datada de 2007, mas suas visitas ao Parque Ecológico da Pampulha ocorreram ao longo do ano de 2006. Por isso há incompatibilidade entre a data contida na placa e a data da citação.

91 Como Rosso (2011) afirma, “mesmo com parâmetros estipulados na forma de lei, seu cumprimento só se tornou obrigatório e passível de fiscalização quando, em 2005, o Ministério das Cidades lançou o Programa Brasil Acessível”, por isso as adequações executadas no ano de 2006, junto à construção dos novos sanitários, bicicletário, memorial e portaria 1.

As adaptações posteriores à inauguração do parque, focadas em atender itens da norma, se mostram dessa forma ineficientes em muitos pontos, pois não houve em sua elaboração um pensamento holístico a considerar todas as áreas, todas as atividades e todos os perfis de usuários.

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No documento Acessibilidade e interação social: comportamento social em face de problemas de mobilidade no parque ecológico da Pampulha (páginas 87-93)