• Nenhum resultado encontrado

3.6 REFLEXÕES PERTINENTES A BIOSSEGURANÇA INDIVIDUAL, COLETIVA E AMBIENTAL EM

3.6.3 Ética da responsabilidade individual, pública e do Estado

questões relacionadas com a ética da responsabilidade. Segundo sua linha de idéias, no que se refere ao campo da ciência, por exemplo, a liberdade de criação e de utilização de novos conhecimentos deve guardar relação com a responsabilidade individual e pública na aplicação das descobertas e em suas conseqüências. Trazendo essa reflexão para o campo das ações de saúde, especificamente na área oncológica, principalmente daquelas instituições hospitalares que estão sob a responsabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS), pouco se tem trabalhado sobre os deveres e obrigações dos diferentes gestores, nas variadas atividades que estão envolvidas direta ou indiretamente, e aos escalões que dizem respeito ao adequado funcionamento do serviço, principalmente aos profissionais de enfermagem que atuam com Qt-an, em serviços oncológicos.

Convém salientar que onde há tecnologia há risco, e normas de biossegurança; logo, havendo biotecnologia existirá risco e conseqüentemente necessidade de novas normas. Com base neste fato pode-se afirmar que acidente com droga Qt-an poderá ocorrer, e, como em toda análise prevencionista prudente, não poderemos prever quando e em que intensidade ocorrerá. Pelo menos no nosso país, normas de biossegurança têm sido adotadas, o que não implica afastamento total dos riscos. Dessa maneira, os riscos não podem ser avaliados sob critérios estritamente científicos. Isto deve se dito porque cresce a preocupação nos meios acadêmicos pelo fato de hoje existir um razoável contingente de pesquisadores de ponta em instituições privadas e públicas que têm os seus projetos de pesquisa aprovados pelos órgãos competentes. Assim sendo, defendemos que a biossegurança deve estar estreitamente articulada com a bioética, como estratégia fundamental para institucionalizar e reconhecero publicamente as possibilidades biotecnológicas para a sociedade.

Seguindo o exemplo de alguns países da Europa Ocidental, como a França e a Inglaterra, o Brasil deveria instituir uma Comissão Nacional de Bioética onde aspectos não só relativos a biossegurança, mas éticos, sociais, políticos e religiosos poderiam ser debatidos por diferentes representantes da sociedade, tornando público o que hoje ainda se encontra na esfera das empresas privadas ou em fóruns especializados. Tal mecanismo reforçaria nossas instituições democráticas e contribuiria para o esclarecimento da população sobre nossas potencialidades e vocações tecnológicas. (ALMEIDA; VALLE, 2003, p. 4).

Garrafa et al. (2003) enfatizam que nos dias atuais não é mais possível continuar considerando os preceitos e os valores como variáveis de derivação exclusivamente emotiva ou individual; ou como se usava dizer antigamente, de “índole supra-estrutural”. As questões éticas - em praticamente todos os campos de atividade humana assumam conotação pública, deixando de constituir uma questão de consciência individual a ser resolvida na esfera privada e de foro exclusivamente íntimo. Tal enfoque não pretende entrar em choque com o discurso da autonomia. Pelo contrário, procura apenas evitar a conotação maximalista que esse importante princípio bioético vem adquirindo nos Estados Unidos, onde, com alguma freqüência, é deliberadamente levado em direção à individualidade que, por sua vez, escorrega para o individualismo e termina desaguando em um inevitável egoísmo, muitas vezes incompatível com a implantação de políticas públicas moralmente justas e politicamente equilibradas que visem ao bem comum.

O mesmo autor reporta, sobre a ética da responsabilidade pública, que é um aspecto indispensável na reflexão sanitária é aquele que diz respeito à definição das prioridades nos investimentos do Estado, incluindo o estudo da destinação, alocação, distribuição e controle dos recursos financeiros dirigidos ao setor. Diferentemente dos países industrializados, convivemos no Brasil com situações paradoxais que vão desde a insistente presença de doenças comuns às nações mais pobres do planeta, como: dengue, malária, chagas, esquistossomose, febre amarela, aids, tuberculose, hanseníase e outras, até o registro significativo em nossas estatísticas de mortalidade dos problemas comuns aos países mais avançados, como câncer, problemas cardiovasculares, acidentes de trânsito etc. Com o encarecimento dos meios de diagnóstico e a natural sofisticação tecnológica decorrente do progresso científico, os recursos aplicados em saúde começam a tornar-se insuficientes mesmo nos países ricos do Hemisfério Norte. A discussão sobre “prioridades” começa a adquirir conotações éticas crescentemente dramáticas. É responsabilidade do Estado e das instituições públicas individualizar soluções morais com as quais se possa enfrentar a escassez de recursos.

Dentro do contexto brasileiro, “individualizar soluções morais” ou “priorizar recursos públicos” deve significar atenção preferencial à maioria populacional

necessitada. A questão da alocação e distribuição de recursos em saúde, portanto, adquire cada dia maior importância política e social. Guarda relação direta com a determinação das prioridades de investimento do Estado e quanto ele destinará do seu orçamento global para o setor, uma decisão que é inevitavelmente política. Além desse aspecto, deve ainda ser analisado o não cumprimento da legislação que sobre

percentuais destinados à saúde no país (GARRAFA et al., 2003, p. 3). Nesse mesmo escrito, os autores consideram a Bioética como sendo um assunto

absolutamente atual no contexto brasileiro, após a aprovação da Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. A referida resolução proporcionou a criação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) e, até o final de 1998, de mais de duzentos comitês de ética em pesquisa (CEP) distribuídos por universidades, hospitais e outras instituições, nos diferentes estados e regiões do país. Para reflexão dessa temática, houve uma especial seleção, tanto do assunto como do enfoque do referencial teórico-metodológico. Por isto, os enfoques da bioética e da biossegurança adotadas merecem atenção e destaque especial, por serem temas relevantes da atualidade e que envolvem o profissional de enfermagem no contexto da saúde ocupacional, especificamente aos riscos de exposição às drogas Qt-an em serviços oncológicos e ambiental. Achei pertinente a reflexão filosófica de Volnei Garrafa com a temática em estudo, e podemos ainda considerá-las como uma questão que abrange os dois níveis de situações atuais: das “situações persistentes”, e das “situações cotidianas” ou “emergentes”, incluí-las no contexto científico-prático-filosófico- ecológico, especificamente na área da enfermagem oncológica neste terceiro milênio.

Toda essa exposição deixa claro que hoje nos encaminhamos em direção à busca de uma bioética mais global, a qual, não prescindindo dos instrumentos teóricos e práticos que até aqui caracterizam os “princípios”, deverá avançar em direção a uma visão mais globalizada, e ao mesmo tempo mais específica, do mundo e do contexto atuais. É exatamente sob essa óptica que se insere a busca da construção de uma original “bioética brasileira”, se assim podemos dizer, capaz de enfrentar, mediar e, se possível, dar respostas aos conflitos morais emanados das diferentes questões bioéticas relacionadas com os costumes “mores” vigentes na nossa sociedade (GARRAFA, 2002, p. 2).

Dentro de toda esta conjectura, extremamente variada no que se refere aos temas abordados, privilegiados pelos diferentes pesquisadores e estudiosos da área, dois assuntos têm merecido destaque especial: bioética e ecologia, e certamente continuarão compondo o século XXI a pauta básica das preocupações dos governos dos diferentes países e das comissões científicas dos pensadores nacionais e internacionais, em todo o Planeta Terra.