Ação controlada se trata de técnica especial de investigação, a qual consiste no retar-damento da intervenção do Estado com o objetivo de que ocorra em momento mais oportuno sob o ponto de vista da investigação criminal, seja por possibilitar a identificação e prisão de mais agentes criminosos, seja por permitir a colheita de provas mais consistentes. Esse instituto está presente na Lei de Drogas, na Lei de Lavagem de Capitais e na Lei de Organizações Crimino-sas. Vamos estudar cada uma delas.
A Lei de Drogas (Lei 11.343/06) foi a que primeiro tratou sobre o assunto, nos seguin-tes termos:
Art. 53. Em qualquer fase da persecução criminal relativa aos crimes previstos nesta Lei, são permitidos, além dos previstos em lei, mediante autorização judicial e ouvido o Ministério Público, os seguintes procedi-mentos investigatórios:
II - a não-atuação policial sobre os portadores de drogas, seus precur-sores químicos ou outros produtos utilizados em sua produção, que se encontrem no território brasileiro, com a finalidade de identificar e res-ponsabilizar maior número de integrantes de operações de tráfico e dis-tribuição, sem prejuízo da ação penal cabível.
Parágrafo único. Na hipótese do inciso II deste artigo, a autorização será concedida desde que sejam conhecidos o itinerário provável e a identifi-cação dos agentes do delito ou de colaboradores.
Dessa forma, a ação controlada somente pode ocorrer com autorização judicial e oitiva do Ministério Público, condicionada ao conhecimento do itinerário provável e à identifi-cação dos demais agentes. Trata-se de exigência razoável, afinal autorizar o trânsito de pessoas com drogas sem ter conhecimento do destino e provável itinerário colocaria em risco a própria
eficácia do procedimento.
Nessa situação, ocorrerá o flagrante retardado, diferido ou postergado, autorizado expressamente em lei.
Posteriormente, a disposição sobre ação controlada foi acrescentada na Lei de Lava-gem de Capitais (Lei 9.613/98) pela Lei 12.683/12:
Art. 4º-B. A ordem de prisão de pessoas ou as medidas assecuratórias de bens, direitos ou valores poderão ser suspensas pelo juiz, ouvido o Mi-nistério Público, quando a sua execução imediata puder comprometer as investigações.
Nesse caso, trata-se de suspensão pelo juiz de ordem de prisão ou de outras medidas assecuratórias previamente concedida, após oitiva do Ministério Público. O comprometimento das investigações significa impedir a descoberta de outros agentes ou bens objetos do crime.
A vantagem nesse procedimento é que há um ganho de tempo pela autoridade poli-cial, uma vez que, percebendo o momento oportuno para agir, não necessitará aguardar deci-são judicial para cumprir, uma vez que já expedida.
Por outro lado, a Lei de Lavagens de Capitais trata de uma ordem de prisão previa-mente concedida, referindo-se quanto à prisão preventiva e silenciando quanto à prisão em flagrante, distinguindo-se nesse ponto da Lei de Drogas. Assim, ocorrendo uma situação de fla-grância envolvendo o branqueamento de capitais, os agentes policiais estão obrigados a agir, não havendo permissivo legal para o flagrante diferido.
Finalmente, foi editada a Lei de Organizações Criminosas (Lei 12.850/13), na qual é utilizada explicitamente a expressão “ação controlada”:
Seção II Da Ação Controlada
Art. 8º Consiste a ação controlada em retardar a intervenção policial ou administrativa relativa à ação praticada por organização criminosa ou a ela vinculada, desde que mantida sob observação e acompanhamento para que a medida legal se concretize no momento mais eficaz à forma-ção de provas e obtenforma-ção de informações.
§ 1º O retardamento da intervenção policial ou administrativa será pre-viamente comunicado ao juiz competente que, se for o caso, estabelece-rá os seus limites e comunicaestabelece-rá ao Ministério Público.
informações que possam indicar a operação a ser efetuada.
§ 3º Até o encerramento da diligência, o acesso aos autos será restrito ao juiz, ao Ministério Público e ao delegado de polícia, como forma de garantir o êxito das investigações.
§ 4º Ao término da diligência, elaborar-se-á auto circunstanciado acerca da ação controlada.
Art. 9º Se a ação controlada envolver transposição de fronteiras, o re-tardamento da intervenção policial ou administrativa somente poderá ocorrer com a cooperação das autoridades dos países que figurem como provável itinerário ou destino do investigado, de modo a reduzir os ris-cos de fuga e extravio do produto, objeto, instrumento ou proveito do crime.
Como se pode perceber pela leitura dos dispositivos acima, houve grandes mudan-ças nas disposições sobre ação controlada no combate às organizações criminosas.
Primeiramente, foi elastecida a possibilidade de utilização dessa técnica especial de investigação para as intervenção administrativa. Assim, há um número maior de agentes que podem dela se utilizar.
Outro ponto modificado foi a desnecessidade de autorização judicial e oitiva do Mi-nistério Público. No caso de organizações criminosas, basta a comunicação ao juiz competente, que decidirá sobre a comunicação ao órgão ministerial. Ademais, quando a Lei 12.850/13 quer se referir a autorização judicial, ela expressamente o faz.
Por outro lado, o juiz pode estabelecer limites à ação controlada. Tratam-se de limi-tes temporais, definindo um prazo máximo de duração da medida, que, quando findo, obriga a autoridade policial a agir; ou de limites funcionais, tendo em vista a possibilidade de danos a bens jurídicos de maior relevância.
Assim como na Lei de Drogas, a Lei 12.850/13 consiste numa mitigação ao flagran-tes obrigatório, autorizando a realização do flagrante retardado, diferido ou postergado, con-dicionado à observação e acompanhamento das ações da organização criminosa. Entretanto, a autoridade policial não dispõe de total discricionariedade, uma vez que, para ser legítima, é necessário que ainda haja a situação de flagrância quando da ação policial, de modo que os agentes não escapem da persecução penal.
A última novidade trazida pela Lei de Organizações Criminosas foi a limitação da ação controlada no caso de o delito ser transnacional, condicionando-a à cooperação das auto-ridades dos países de provável itinerário ou destino.