2. E DUCAÇÃO P REVENTIVA : DO PROIBICIONISMO À POLÍTICA DE REDUÇÃO DE DANOS E A
2.2 Ações redutoras de vulnerabilidade com crianças
Outra questão que se apresenta à discussão, há muitos anos, fora do Brasil, diz respeito à idade ideal, àquela em que as crianças teriam acesso aos programas preventivos. Adequados às possibilidades de desenvolvimento, às características das diferentes faixas etárias e suas necessidades particulares, os programas podem ser implementados já na infância, como os realizados na Austrália, com crianças de nove anos de idade (MUNRO, 2007). Pesquisas conduzidas na Southampton
University, e replicadas em muitos outros locais, demonstraram que até mesmo crianças pequenas pensam e conhecem informações sobre drogas, por mais surpreendente que isso possa parecer aos pais ou professores (COHEN,1996).
Entre os anos 1996 e 1998, trabalhamos, a psicóloga Fernanda Guilardi Sodelli e eu, num centro juvenil (depois, Núcleo Sócio Educativo), com crianças de cinco a sete anos. Ao longo do trabalho, fomos verificando que, precocemente para nós, elas se referiam a drogas e tráfico com certa familiaridade, trazendo até informações sobre ambos. Informações que lhes aumentavam, em verdade, o medo, o preconceito e as colocavam em situações de maior vulnerabilidade, no nosso entender, frente ao uso dessas substâncias e à própria violência decorrente dos ambientes facilitadores ligados ao tráfico, em que algumas viviam.
Certa vez, solicitamos que fizessem um desenho sobre o tema drogas e nossa preocupação aumentou, quando uma criança de apenas seis anos representou graficamente, a heroína. Então era possível que alguém, de tão pouca idade, tivesse conhecimento de uma substância tão pouco usada, no país, àquela época? O que isso representava para nós, para a sociedade?
A familiaridade com o tema era um fato. O medo e o preconceito estavam presentes. A dificuldade para se refletir sobre o tema, também. Era preciso, então, ir
considerando, desde cedo, a realidade dessa experiência infantil com as drogas e, sem intimidações ou preconceitos, mas com outras alternativas mais saudáveis, ir ajudando as crianças a entreverem possibilidades outras que não as drogas.
Por fim, assim penso, era preciso refletir sobre o pensar, o entender e sobre as “não verdades”. Ou se enfrenta, corajosamente, desde cedo, a verdade dessas crianças e se pode apresentá-la, na proporção do alcance e vivência delas, ou como sinalizaBION (1991b), se estará caminhando para a compulsão. Pois, segundo ele, o
entender e o não entender estão relacionados com a verdade e a compulsão futura. Ao fugir da verdade, a compulsão leva o sujeito a rejeitar o que teme e não entende (como quem rejeita as interpretações difíceis num processo psicanalítico), como forma de manter a salvo as próprias verdades. Estas funcionariam como defesas (contra o que se teme, o que não se entende), que devem ser mantidas a qualquer preço, mesmo porque, caso contrário, não se sabe como lidar com elas.
Assim, uma criança pequena pode estar mantendo as suas verdades e inibindo a própria capacidade de aprendizagem total de um fato, para manter-se dentro da segurança de uma defesa. A criança que sabia da existência da heroína, por exemplo, pode não ter tido condições emocionais para entender toda a complexidade da estória que envolvia o fato.
Nas palavras de BION (1991b, p.111):
“O compulsivo revela coragem e resolução ao se contrapor ao cientista que, com maligna doutrina, subtrai a quem acredita, cada resto de ilusão, deixando-o sem o suporte natural indispensável à preservação de seu equilíbrio mental contra o impacto da verdade.”
O compulsivo seria aquele que necessita das “não-verdades” no seu dia-a-dia, que precisa acreditar em suas próprias estórias. O compulsivo está em oposição àquele que desmascara as ilusões, mostrando serem essas, apenas, defesas que visam à preservação psíquica, contra a dureza cortante das verdades. Pensando-se na dependência e no uso de risco de drogas, percebe-se que o grande problema
está nos seres humanos e em suas tendências compulsivas e não nas substâncias em si. A droga não é o problema; o desafio da prevenção é trabalhar com um tipo de ser-humano que necessita manter suas ilusões, suas “não-verdades”, a alto preço.
Sob esse prisma, todas as pessoas têm necessidades de acreditar em “meias verdades”, durante alguns momentos da vida, para se afastarem do sofrimento do saber completo. O risco dessa autodefesa está em não se conseguir vida afora, deixar de lado essa necessidade de construção de um campo fantasioso, mas acostumar-se a viver dentro de um mundo de mentiras, que interfere na capacidade de pensar.
No início desta pesquisa, dissemos que as crianças não possuem dificuldades em compreender quase nada em relação aos desafios que são propostos pela existência. A dificuldade maior é compreender o jogo de “vista-grossa”, das verdades escamoteadas do mundo adulto. A criança, portanto, poderia compreender o mecanismo do uso de drogas, da sexualidade, da busca de prazer, mas não poderia compreender a necessidade de manter sempre armado um mundo de mentiras, de manutenção, a qualquer preço, das verdades que dão segurança ilusória.
Ao participar de projetos de educação que visem à redução de vulnerabilidades e ao desenvolvimento do aspecto emocional, crianças de idades bastante precoces poderiam compreender bem a questão da busca pela satisfação, da evitação do sofrimento etc. Para essas crianças de idades bem precoces, o conhecimento das verdades sobre os fatos, o distanciamento do mundo cínico das mentiras dos adultos pode ser o próprio alimento para um psiquismo mais saudável.
Outra importante questão, a ser mais bem pensada no Brasil, diz respeito a quem deveria ensinar essas questões às crianças de pequena idade. Devemos lembrar que a educação preventiva, nessa ótica, está muito mais relacionada às pessoas e às características do ser-humano do que às drogas em si; logo não há necessidade de que os educadores sejam verdadeiras “enciclopédias ambulantes” sobre drogas psicotrópicas. Não se deve fazer uso de abordagens sensacionalistas ou desonestas, que trabalhem com meias verdades sobre as drogas. Logo, não há
porque não imaginar que professores possam desempenhar esse papel de educadores junto a alunos.
Refletindo sobre o papel do educador na prevenção, lembremos que oito países europeus (Bélgica, Espanha, França, Irlanda, Portugal, Finlândia, Suécia e Reino Unido) já publicaram as suas estratégias nacionais relacionada às drogas, nas quais é explicitamente abordada a prevenção no meio escolar. Em alguns desses países, as estratégias subdividem-se em ações específicas. Na Espanha, na Grécia e no Reino Unido, foram quantificadas metas concretas, tendo em vista a avaliação desses planos de ação (BURKHART,2007).
Elementos de reconhecida eficácia, baseados em fatos comprovados em programas de prevenção da droga no meio escolar, a serem desenvolvidos junto aos alunos, de acordo com BURKHART (2007), são:
• competências pessoais — capacidade de tomar decisões e de resolver problemas, definição de metas;
• competências sociais — firmeza, resistência à pressão dos grupos de pares;
• conhecimentos — sobre as drogas e as conseqüências do seu consumo; e • atitudes — especialmente combater idéias falsas acerca do consumo de
droga nos grupos de pares.
“Existe um consenso geral entre os peritos, de que as mensagens ameaçadoras podem ser vantajosas apenas em condições muito específicas. Qualquer ação de prevenção que omita influências sociais e dos grupos de pares, que não apresente uma interação nem uma estrutura e se apóie fortemente em afirmações arbitrárias está condenada ao fracasso. Os programas de grande intensidade que incidem em grupos pequenos apresentam os melhores resultados. Todos os programas realizados com êxito lidam com substâncias lícitas e ilícitas”... “As atividades preventivas podem ser contraproducentes se não forem corretamente implementadas. Medidas em curto prazo ou pontuais — tais como exposições orais esporadicamente feitas por especialistas ou elementos das forças de segurança, ou dias dedicados ao tema Diz Não à Droga — revelaram-se ineficazes, podendo mesmo contribuir para estimular a curiosidade dos mais novos quanto às drogas. Informações inadequadas — por exemplo, as que exageram os riscos e os perigos associados ao consumo de drogas ilícitas —
também não são eficazes. Se os jovens, através das suas próprias experiências ou contactos, sentirem que foram induzidos em erro, rejeitarão no futuro quaisquer informações sobre drogas veiculadas por canais oficiais” BURKHART (2007, p. 2-3).
A maior parte das medidas implementadas nos países europeus concentra-se nos estabelecimentos do “3º ciclo do ensino básico” e do secundário, lugar privilegiado para a iniciação na droga, segundo eles. Embora contenham elementos específicos relacionados com a droga, não constituem uma abordagem inclusiva especificamente dedicada à problemática da droga. A prevenção primária, não especificamente relacionada com a droga, deverá começar muito mais cedo. Na Europa, existem alguns programas, em escolas primárias ou de educação infantil, que pretendem atentar para o estudo do tipo de comportamento que, muitas vezes, conduz a problemas com drogas. É o caso de escolas da Áustria, da Espanha, da Alemanha e de Portugal (BURKHART,2007).
Tudo o que se tem dito está a indicar que as abordagens proibicionistas são ineficientes e que a alternativa de trabalhos baseados em princípios da redução de danos, possa ser uma alternativa de trabalho mais eficaz. Consideramos que as ações redutoras de vulnerabilidades sejam uma opção mais adequada, acerca de trabalhos preventivos, em escolas, com crianças, desde cedo, desde a educação infantil na pré-escola.
Trabalhar pela educação libertadora, através de preceitos da redução de danos, é fazer uso das idéias de Paulo Freire, na relação dialógica entre o educador e a criança (SODELLI, 2006). O educador não tomará as decisões no lugar do aluno,
mas possibilitará o desenvolvimento da capacidade reflexiva crítica, para que o próprio aluno, desde a infância, possa tomar suas decisões de maneira mais responsável e menos danosa.
Segundo SODELLI (2006), o objetivo da prevenção primária não seria acabar
com o uso de drogas, mas assumir a tarefa de intervenção frente aos níveis de vulnerabilidade ao uso de risco de drogas. O autor fala sobre dois níveis de postura preventiva, baseados na redução de danos: um que ele chama de mais tradicional e
outro, libertador. Não entraremos nessa discussão neste momento, mas vamos compô-la com a idéia de intervenção frente às vulnerabilidades do uso de risco, que a redução de danos na prevenção primária possibilita, ou seja, que se façam, por parte dos alunos, escolhas menos danosas (em amplo sentido) na vida futura.
As ações redutoras de vulnerabilidades, realizadas nas escolas desde cedo, poderiam ser mecanismos úteis para proporcionar às crianças saídas alternativas às repetições constantes de um mesmo modelo de enfrentamento das questões emocionais. A educação preventiva, portanto, ofereceria às crianças possibilidades psíquicas para que não venham a repetir, incessantemente, suas verdades seguras, inquestionáveis e inabaláveis. A idéia do trabalho, então, está pautada na admissão das virtudes existentes em temas polêmicos aos olhos leigos: virtudes existentes no medo, na tristeza, na dor, no luto. Não há como abandonar a postura de que o medo ensina bastante àqueles que podem aproveitar algo, simbolizar as experiências. Assim, os educadores não deveriam iludir os alunos, trabalhando com a idéia de que é possível uma vida sem sofrimento. A proposta é uma educação preventiva que possa desenvolver o arcabouço emocional dos alunos, desde a mais tenra idade.