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A analítica do poder, de Michael Foucault

2 REFLEXÕES ACERCA DO “PODER” NA CONFORMAÇÃO DO ESTADO

2.4 CONCEPÇÕES SOBRE O PODER EM MAX WEBER, PIERRE BOURDIEU E

2.4.3 A analítica do poder, de Michael Foucault

O francês Michel Foucault viveu entre 1926 e 1984. Em que pese a tradição familiar nos estudos da medicina, Foucault decidiu estudar história. Em 1946 iniciou seus estudos na École Normale da rue d’Ulm, tendo a oportunidade de conhecer alguns promissores estudantes, tais como: Pierre Bourdieu e Jean-Paul Sartre. Terminou a sua licenciatura em filosofia em 1948, quando tinha apenas 22 anos de idade. No ano seguinte, se graduou em psicologia. Tornou-se doutor em filosofia em 1959, com uma tese que deu origem a sua primeira grande obra: História da Loucura, publicada no meio editorial em 1961. Dentre suas referências teóricas, encontram-se Platão, Kant, Hegel, Marx, Nietzche, Heidegger, dentre outros pensadores, o que lhe assegurou um incontestável lastro acadê mico (MENDES, 2006).

Interessa ao escopo do presente trabalho discutir sobre a perspectiva de Foucault no que tange ao poder.

Embora não tenha construído uma teoria do poder propriamente dita15 – pois não

teve essa intenção (SOUZA, 2011), em diversas das suas obras existem apontamentos difusos de Foucault que permitem ao leitor compreender a sua visão quanto ao tema.

15 “[...] toda teoria é provisória, acidental, dependente de um estado de desenvolvimento da pesquisa que aceita seus limites, seu inacabado, sua parcialidade, formulando conceitos que clarificam os dados – organizando-os –, explicitando suas interrelações, desenvolvendo implicações – mas que, em seguida, são revistos, reformulados, substituídos a partir de novo material trabalhado” (MACHADO, 1979, XI).

Em oposição àqueles que visavam estabelecer uma teoria do poder, o sociólogo francês se propôs a apresentar uma “analítica do poder” (FOUCAULT, 1980, p.199), uma vez que a tentativa de construção de uma teoria do poder demandaria descrevê-lo como algo que surge em um lugar e tempo determinados, sendo necessário deduzir e reconstituir a sua gênese.

A proposta de Michel Foucault, diferente da grande maioria das concepções apresentadas no campo teórico, busca explicar o poder sem considerar a figura do monarca como sua fonte e natureza, ou seja, busca dissociar uma corriqueira relação de causa e efeito entre o poder e o soberano, o que, por si só, já revela algo de revolucionário (ALBUQUERQUE, 1995).

O poder não existe. Quero dizer o seguinte: a ideia de que existe, em um determinado lugar, ou emanado de um determinado ponto, algo que é um poder, me parece baseada em uma análise enganosa e que, em todo caso, não dá conta de um número considerável de fenômenos. Na realidade, o poder é um feixe de relações mais ou menos organizado, mais ou menos piramidalizado, mais ou menos coordenado. Portanto, o problema não é de construir uma teoria do coordenado. Portanto, o problema não é de construir uma teoria do poder [...] (FOUCAULT, 1979, p.248).

Em Foucault, o poder é associado a uma relação de poder, trazendo a ideia de força: “a correspondência entre força e poder é direta. Poder é força” (SANTOS, 2016, p.262). A questão, para ele, é muito mais de pensar o “como do poder” e possibilitar a identificação do “poder em ato” (SOUZA, 2011, p.103).

Há de se registrar que, para o autor francês, o poder não está na posse de coisas (como visto no Leviatã, de Thomas Hobbes). Para ele, o poder é representado como um conjunto de relações de poder, e não como uma instituição (como o Estado16, por exemplo) que represente a fonte de todo o poder17.

Em outras palavras, para Foucault, não há de se falar em “algo unitário e global chamado poder, mas unicamente formas díspares, heterogêneas, em constante

16 Cumpre observar que Foucault não teve a pretensão de negar a importância do Estado, mas sim de demonstrar

que “‘as relações de poder ultrapassam o nível estatal e se estendem por toda a sociedade’, ou seja, na modernidade, além do Estado, é possível pensar, enquanto centros de controle e formação de relações sociais (ou seja, eixos de relações de poder), na escola, ciência, fábrica, hospício, quartel, dentre outros” (DANNER, 2009, p.788). 17 A partir da perspectiva de poder desenvolvida por Michel Foucault, Gérard Lebrun (1984, p.21) – sem opor uma crítica direta à tese foucaultiana – lança a seguinte reflexão: será que podemos perguntar se “ao enfocar em seu microscópio os mil pequenos poderes que nos prendem sem o sabermos, ele não está se precipitando em depreciar a matriz ‘ordem/obediência’ (‘eu tenho poder, portanto você não o tem’)”.

transformação”, posto que “o poder não é um objeto natural, uma coisa; é uma prática social e, como tal, constituída historicamente” (MACHADO, 1979, p. X).

Conforme observa Deleuze (2008), em obra que reflete sobre as investigações de Foucault:

O poder é precisamente o elemento informal que passa entre as formas de saber, ou por baixo delas. Por isso ele é dito microfísico. Ele é força, e relação de força, não forma. E a concepção das relações de forças em Foucault, prolongando Nietzsche, é um dos pontos mais importantes de seu pensamento (DELEUZE, 2008, p. 112).

Portanto, é possível afirmar que, para Michel Foucault o poder não existe, o que existe, em verdade, são práticas ou relações de poder – adotadas enquanto táticas, manobras ou estratégias (DANNER, 2009).

Nas próprias palavras de Foucault essa afirmativa pode ser identificada, posto que o autor francês afirma que a microfísica do poder, ora proposta, não deve ser concebida “como uma propriedade, mas como uma estratégia” (FOUCAULT, 1987, p.26), ou seja, ao invés de se pensar em ter a dominação como efeito do poder, que se cogite o poder como uma série de disposições, manobras, táticas ou técnicas.

Diante disso, para ele, “esse poder se exerce mais que se possui”, não sendo o “privilégio adquirido ou conservado da classe dominante”, mas sim “o efeito de conjunto de posições estratégicas”, que pode, inclusive, ser manifestado pela posição dos que são supostamente “dominados” (FOUCAULT, 1987, p.26).

O poder, portanto, está em toda parte, seja no Estado, na escola, na fábrica, ou até mesmo na Igreja (o que interessa ao objeto de estudo deste trabalho), posto que advém de todos os lugares. Em suma: o poder está nas relações sociais18, e não depositado em uma pessoa ou instituição.

18 Como bem asseverou Calmon de Passos (1999, p.42), “é no espaço social que se realiza nossa condição humana. Hominizamo-nos socializando-nos. A condição humana e a socialidade do homem estão necessariamente entreladas”, posto que o “homo sapiens é sempre, e na mesma medida, o homo socius”.

2.5 AS RELAÇÕES DE PODER E A PRESERVAÇÃO DA ISONOMIA E DA