A aprendizagem em interlocuções com a socialização,

No documento Carreira e aprendizagem: um estudo com gestores públicos federais egressos da Escola Nacional de Administração Pública (páginas 65-70)

3 APRENDIZAGEM: ABORDAGENS E PERSPECTIVAS

3.3 A aprendizagem em interlocuções com a socialização,

3.3 A aprendizagem em interlocuções com a socialização, os papéis e a carreira

No âmbito da Sociologia, o conceito de socialização advém do termo alemão vergesellschanftung, significando o ato de entrar em relação social. Assinala uma problemática que é recorrente no campo da sociologia, porém, pode-se afirmar que os conceitos de socialização também percorrem outras ciências. Nessa direção, LeVine (1969) aponta para a aculturação, na perspectiva da antropologia; a aquisição do controle de impulsos, em formulações específicas da psicologia e da psicanálise; e a aprendizagem de papéis nas abordagens da sociologia e da

psicologia. Em seu significado elementar, denota como se aprende a ser um membro da sociedade (BERGER; BERGER, 2008).

Levy Jr. (1973) esclarece que socialização decorre da hipótese de que não é privativa da natureza dos seres humanos, a aquisição em bases hereditárias ou de estruturas genéticas, das estruturas de ação necessárias para o desempenho efetivo de comportamentos, de acordo com papéis sociais demandados. Disso decorre que processos de socialização poderiam influenciar o comportamento dos indivíduos durante a vida, a exemplo da socialização secundária (BERGER; LUCKMANN, 1986), que ocorre na fase adulta e na preparação para assumir papéis nas sociedades ou, especificamente, nos ambientes de trabalho. A aprendizagem pode ser considerada como vinculada aos processos de socialização e se referir a aprendizagem de papéis no e para o trabalho (VAN MAANEN; SCHEIN 1979; HART, 1991; ASFORTH, 2008).

Em estudos sociológicos, investigações podem ser conduzidas acerca dos tipos de aprendizagem a que os indivíduos são submetidos desde a infância (BOUDON; BOURRICAUD, 1993). Esses autores esclarecem que a socialização pode ser concebida como um processo adaptativo. Entretanto, isso não exclui a ocorrência da mediação cognitiva, pois, diante de uma situação nova, o ser humano:

[...] é guiado por seus recursos cognitivos e pelas atitudes normativas resultantes do processo de socialização a que está exposto [...] permite incluir a hipótese fundamental da otimização, segundo a qual numa dada situação o sujeito tenta ajustar seu comportamento ao melhor de seus interesses tais como os concebe (BOUDON; BOURRICAUD, 1993, p. 519).

A socialização consiste em um processo contínuo, em diversos ambientes, e que pode ocorrer por toda a vida de uma pessoa, não sendo totalmente bem realizada, terminada ou homogênea (LEVY Jr., 1973; BERGER; LUCKMANN, 1986; DUBAR, 2005; BERGER; BERGER, 2008). A característica de continuidade do processo é também defendida por Van Maanen e Schein (1979), ao sustentarem que, ao assumir cargos, novos papéis ou status ao longo da vida, a carreira de um indivíduo pode ser caracterizada por uma socialização constante.

Para Durkheim (1971), os seres humanos, muitas vezes, seguem padrões gerais de pensamento da sociedade a que pertencem e, mediante a socialização, pode ser alcançada a ordem social em uma sociedade estruturada, com um sistema educacional que reforça a homogeneidade (DURKHEIM, 1971; GIDDENS, 2009). Na concepção sociológica que valoriza a interpretação, defende-se a existência de múltiplos significados sobre os ambientes que cercam as pessoas e sobre suas experiências. Tais significados podem ser influenciados pela estrutura social, todavia, sem que isso suplante a reflexão pelos seres humanos e pela qual os significados são criados (GIDDENS, 2009). Nessa formulação, é relativizada a supremacia da estrutura sobre o indivíduo.

Ao discutirem sobre a realidade objetiva e institucionalização, Berger e Luckmann, (1986) reconhecem a relevância dos papéis como mediadores na construção social da realidade, e na institucionalização de condutas. Afirmam que no curso da interação cotidiana podem ocorrer padrões específicos de condutas, que eles denominam como “papéis”. Estes padrões podem ser tipificações legitimados socialmente expressando papéis sociais acerca do desempenho. Mediante a socialização secundária, ocorre a introdução de indivíduos em segmentos do mundo objetivado, nos quais pode ocorrer a interiorização de saberes específicos vinculados aos papéis. Nesse sentido, a socialização que ocorre em ambientes, tais como instituições educacionais, e no local de trabalho pode ser considerada como uma forma de socialização secundária na vida dos indivíduos (BERGER; LUCKMANN, 1986; BERGER; BERGER, 2008).

A perspectiva estrutural na definição do papel para uma carreira – por exemplo, para gestores públicos – sugere a aprendizagem de “um conjunto coeso de valores e atitudes associados ao trabalho, que provêm ao gestor público um conjunto estável de expectativas sobre suas responsabilidades” (SELDEN; BREWER; BRUDNEY, 1999, p.175). Entretanto, é oportuno ressaltar que papéis não são fixos, podem passar por interpretações pessoais, desafiando o consenso e sua pretensa dimensão unificadora. Coerente com isso, Berger e Luckmann (1986), assinalam que papéis compõem a realidade dos seres humanos, esta que pode ser reinterpretada e, portanto, não encerra uma factualidade inegável.

O papel de funcionários públicos na contemporaneidade possui potencial para se tornar ambíguo diante do maior dinamismo da gestão pública, que imprime múltiplas demandas sobre eles, nas carreiras. De um lado, isso pode representar um problema significativo para estes indivíduos, pois aprender o papel que devem desempenhar está cada vez mais relacionado a tarefas complexas, menos claramente definidas, e que envolvem uma linha tênue que separa a política e a administração. Por outro lado, a ambiguidade pode estimulá-los a (re)definir seus próprios papéis nessa gama de múltiplas demandas, a resolver problemas em suas atividades laborais, assim como moldar suas próprias carreiras (PETERS, 2009). Papéis podem promover uma referência para a localização de si e dos outros no trabalho. Contribuem para a construção identitária e se relacionam com o processo de aprendizagem (ASFORTH, 2008). Mediante esse processo, podem ocorrer transformações nas identidades e, potencialmente, também favorecer o alcance de maior clareza no entendimento dos papéis. Todavia, essa clareza pode não ser alcançada individualmente ou no coletivo, pois, a aprendizagem pode não contemplar múltiplos detalhes sobre o modo como o seu ocupante deverá se conduzir (GOFFMAN, 2011).

Na promoção de uma aprendizagem que se oriente para a emancipação e para a transformação de significados, os instrutores vinculados a agentes de socialização, tais como instituições educacionais, podem criar condições que contribuam para que os aprendizes percebam a existência de outros pontos de vista, alternativos àqueles que aprenderam, e que façam uma autorreflexão acerca de suas próprias perspectivas e expectativas (CRANTON, 1996). Para o desenvolvimento deste tipo de reflexão, são consideradas como passíveis de questionamentos, as normas institucionais, sociais e as próprias pessoas (CRANTON; CARUSETTA, 2004). Entende-se que determinados conteúdos podem ser reforçados ou revelarem contradições com o que foi aprendido pela pessoa em outros ambientes e momentos da vida (CRANTON, 1996). Nesse sentido, pode ser revelado um dilema desorientador para o aprendiz, por exemplo, ao ser exigido que aprenda um novo papel para a sua carreira (MEZIROW, 1991; CRANTON, 1996).

Mezirow (1991) sustenta que há uma tendência a ignorar a influência de normas sociais e dos papéis como alguns dos elementos constitutivos da socialização, assim como a socialização secundária no processo de aprendizagem de adultos. O autor alerta que normas e papéis contêm valores e expectativas habituais, que podem representar fatores que distorcem as perspectivas de significado dentro do processo de aprendizagem. Ao valorizar a abordagem interpretativa nesse processo, esse autor defende que não se trata de afirmar que as normas, os papéis e as perspectivas de significado sejam intrinsecamente certos ou errados, mas que podem ter sido erigidos sem uma abertura para a reflexão crítica (MEZIROW, 1991). O processo de aprendizagem pode favorecer tanto a geração de mudança como a conformidade social (CRANTON, 1996). Em suma, papéis estão vinculados tanto ao processo de aprendizagem, como ao contexto que envolve o aprendiz adulto, e no qual as carreiras são vividas e interpretadas.

Após traçado o arcabouço teórico, no capítulo a seguir são apresentados os procedimentos metodológicos adotados para o desenvolvimento da tese.

No documento Carreira e aprendizagem: um estudo com gestores públicos federais egressos da Escola Nacional de Administração Pública (páginas 65-70)