A aproximação de sistemas jurídicos em tempos de crise na administração da

No documento Acesso à justiça na França e no Reino Unido: perspectiva comparada no Tribunal Europeu de Direitos do Homem (páginas 38-41)

2. ACESSO À JUSTIÇA: DELIMITAÇÃO DO TEMA

2.1 A aproximação de sistemas jurídicos em tempos de crise na administração da

3 O autor lança sérias críticas à alienação que o sistema civilista sofre ao evitar a consideração de casos concretos nos estudos do direito, referindo-se a nossos juristas como a única classe de cientistas proibida de utilizar os casos de sua experiência.

Já ressaltamos que a escolha da perspectiva de Glenn, em La civilisation de la common law, como marco teórico do trabalho deve-se ao fato de ele ter formulado a crítica de que o recebimento forte da influência do droit civil nos países de common law acontece em tempos de crise na administração da justiça civilista. A eleição da perspectiva de um jurista canadense é proposital, pois, apesar de não acreditarmos em neutralidade, nos parece que uma visão mais imparcial e menos comprometida com qualquer um dos sistemas pode ser conferida por quem vivencia a realidade jurídica canadense, sem dúvida, a que se depara mais de perto com a necessidade de conciliar common law e droit civil. Assim, o autor evidencia as possíveis consequências que podem decorrer desse movimento de aproximação com a justiça anglo-saxã. A hipótese a ser verificada nesta tese é, exatamente, se pode ser confirmada, a partir dos julgamentos do Tribunal Europeu, a afirmação de que a aproximação de sistemas jurídicos gera consequências no âmbito da administração de suas justiças, aproximando também os problemas de acesso à justiça.

Glenn sustenta que os problemas de acesso tendem a aumentar nos países de common law à medida que passam a adotar a tão habitual cisão civilista entre direito substancial e direito processual, em especial por meio da aplicação de normas escritas, mediante abandono gradual das consuetudinárias. Como exemplo, aduz que de um país de common law a outro, existem diferenças importantes a este respeito, mas é uma constante que as funções jurisdicionais se multipliquem, bem como o número de auxiliares da justiça e de juízes 4 (GLENN, 1993, p. 570, em tradução nossa). Sustenta, assim, que o inchaço do aparelho judiciário também começa a se operar em terras britânicas, o que torna mais complexa e problemática a administração da justiça, antes enxuta e intuitiva.

4 No original: D'un pays de common law à l'autre il existe des différences importantes à cet égard, mais il est

constant que les tâches juridiques se multiplient, de même que le nombre des auxiliaires de la justice et des juges.

Outra consequência identificada por Glenn é a profissionalização da magistratura, antes tão comumente exercida por juízes leigos. Ele constata que essa mudança implicou o distanciamento da justiça em relação aos jurisdicionados no common law, fato passível de gerar consequências negativas na célere finalização de litígios por meio de acordos decorrentes da conciliação, prática da maior relevância na eficiência da justiça inglesa. Decorre desse movimento, ainda, a elevação dos custos com a justiça, seja por meio da fixação de altos salários aos magistrados, seja pelo abandono do múnus público exercido pelo juiz leigo e não remunerado. Ainda segundo Glenn (1993, p. 570-571):

O juiz do common law não é mais o que era. Se na Inglaterra ele mantém, em princípio, o mesmo estatuto de antes (à exceção do fato de seus salários terem se tornado objeto de debates parlamentares), é incontestável que o número de juízes das cortes superiores aumentou radicalmente desde o século XIX, apesar da manutenção de uma magistratura leiga. Há consequências inevitáveis sobre a qualidade da jurisdição e sobre a noção de precedente. Em outros locais, notadamente o Canadá e os Estados Unidos, a função de juiz se profissionalizou quase que integralmente; o número de juízes aumentou ainda mais radicalmente do que na Inglaterra.5 (tradução nossa).

Especificamente no que tange à doutrina do stare decisis, a consequência do aumento do número de juízes seria o surgimento de dificuldades em se definir os bons e os maus precedentes, o que levaria à tendência de atenuar sua aplicação. Assim, não seria improvável, para o autor, que as leis escritas, ainda incipientes, viessem a substituir, paulatinamente, o julgamento fundado em casos anteriormente solucionados. É que a lógica do stare decisis se mantém com mais facilidade quando o

5 No original: Le juge de la common law n'est plus ce qu'il était. Si en Angleterre il garde en principe le même

statut qu'autrefois (excepté que son salaire est devenu l'objet de débats parlementaires), il est incontestable que le nombre de juges des cours supérieures a augmenté radicalement depuis le XIXe siècle, malgré le maintien d'une magistrature non professionnelle. Il y a des conséquences inévitables sur la qualité du banc et sur la notion de précédent. Ailleurs, notamment au Canada et aux États-Unis, l'office du juge s'est professionnalisé presque entièrement le nombre déjuges a augmenté beaucoup plus radicalement qu'en Angleterre.

universo de julgamentos a serem utilizados como referência encontram-se em número relativamente mais baixo, facilitando sua organização e a formulação das exceções. A importância dos precedentes na diminuição da litigiosidade, neste ponto, refere-se ao desencorajamento de novas causas para as quais já haja um julgamento semelhante aplicável. Assim, o enfraquecimento dos precedentes também estaria apto a gerar o ajuizamento de mais ações que outrora. Nesse sentido, GLENN observa que:

Existe então um princípio de direito contemporâneo no mundo ocidental, civilista ou de common law, segundo o qual os limites institucionais devem derivar das próprias instituições; não haverá instituições judiciárias cujo funcionamento real seja restringido por um limite de demanda. A demanda, no direito contemporâneo, é inesgotável.6 (tradução nossa)

Dessa crítica, portanto, o que se constata é que, para GLENN, a multiplicação de demandas nos países de common law é uma realidade incipiente, sobretudo em decorrência da uniformização jurídica que já acontece nos países europeus. Sendo a marca da uniformização a predominância das regras de direito fundadas em um sistema mais racional, como o droit civil, sua prevalência parece se impor. Inevitável para ele, assim, que características desse sistema jurídico aos poucos destituam os institutos próprios do common law, tão eficazes em conter a litigiosidade, de modo a gerar um agravamento dos problemas de acesso à justiça nos países que lhe são adeptos.

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