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O desenvolvimento de um projeto de arquitetura exige, por parte dos profissionais da área, um conhecimento básico da imagem do “Homem”, e esta é uma das responsabilidades dos profissionais ligados à construção civil frente aos usuários de suas obras.

O arquiteto não projeta para si mesmo, tampouco para os críticos da arte, mas sim para pessoas que buscam no espaço construído, qualidades adicionais e de apoio ao desenvolvimento individual, social e econômico.

Isto significa, no entender de Afitef (1989), que: “[...] projeto é um processo

específico que permite estruturar metodicamente e progressivamente uma realidade futura”. Durante este processo existe uma troca constante de informações, idéias e definições arquitetônicas entre os profissionais envolvidos no processo.

Midler (1993) descreve o projeto como gestão de um duplo processo. De um lado estaria a exploração de novas combinações possíveis, uma aquisição de informação que reduz a incerteza. De outro lado, um processo de decisão através do qual a identidade da inovação se afirma progressivamente, mas que, de decisão em decisão, reduz o grau de liberdade do projeto. É o que ilustra, a seguir, o Gráfico 1.

GRÁFICO 1 – Descrição do projeto como um processo duplo3.

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Gerir um projeto seria, então, definir a forma destas duas curvas, articulando- as de um ponto inicial onde se pode fazer de tudo sem ter a certeza de nada, até o ponto de chegada onde se sabe tudo, mas não há um alto grau de liberdade. O gráfico anterior, pois, ilustra o caráter indissociável do conhecimento do projeto e de sua realização.

Nos sistemas de produção baseados em atividades repetitivas, as regras e procedimentos de baixo grau de flexibilidade podem ser aplicados e podem, eventualmente, até funcionar. O projeto, por sua vez, é algo singular que pode ser organizado, mas não engessado.

A metodologia aplicada ao desenvolvimento projetual é um processo criativo, que muito comumente pode ser traduzido como um campo inacessível a uma investigação empírica e também um processo cognitivo que, segundo Rego (2000),

apud Stein, diz respeito aos processos psicológicos envolvidos no conhecer, no

compreender, no perceber, no aprender etc., fazendo referências à forma como o indivíduo lida com os estímulos do mundo externo: como o sujeito vê e percebe, como registra as informações e como acrescenta as novas informações aos dados previamente registrados. Porém este caráter, não deve distanciar a arquitetura da racionalidade.

Midler (1993) em seu livro, “O automóvel que não existia” descreve todo o processo de criação e desenvolvimento de um novo automóvel que trazia consigo novos conceitos e seria uma grande ruptura no mercado automobilístico.

Ao descrever todo o processo projetual ligado ao novo produto, o autor identifica três fases diferenciadas: uma fase de criatividade, que desestabiliza as idéias pré-concebidas com o objetivo de ultrapassar antigos conceitos; depois uma fase de controle, que representa o desenvolvimento técnico do produto; e, por fim, uma fase de ação que coloca em prática tudo o que foi anteriormente decidido.

Analogamente, Melhado (1994) apresenta um esquema também constituído por três fases distintas, no qual a primeira se refere à programação que vai determinar quais são os objetivos e expectativas do cliente; a segunda trata da concepção arquitetônica e técnica que visa uma integração entre os projetistas e um intercâmbio de informações vitais para a eficiência do projeto; e, uma terceira e última fase que diz respeito ao projeto para produção, permitindo estabelecer

decisões conjuntas entre as equipes de execução e fortalecendo seu diálogo com os projetistas.

Adiantando um dos tópicos que será tratado no presente trabalho, as idéias

acima apresentadas permitem-nos tirar, a priori, algumas conclusões importantes.

Em primeiro lugar, um sistema de garantia da qualidade para atividade projetual deve ser formatado de tal forma que respeite as peculiaridades inerentes ao processo de projeto, no sentido de que o sistema não pode impedir ou dificultar o desenvolvimento das operações cognitivas envolvidas nesse processo, quais sejam, análise de informações, síntese, desenvolvimento das soluções de tal forma que – como visto – reduza-se o nível de incerteza ao longo da atividade projetual.

Por outro lado, esses sistemas de gestão da qualidade no processo de projeto devem abranger todo seu ciclo de vida, particularmente as etapas indicadas na seqüente Figura 3:

FIGURA 3 – As três fases do desenvolvimento do projeto4.

Cabe levantar a hipótese de que alguns segmentos de mercado no setor da construção civil tentam introduzir sistemas de gestão da produção e/ou gestão da qualidade com base em métodos e ferramentas utilizados pela indústria seriada. Para isso, convém levar em conta que ambos os segmentos – a construção e a indústria seriada – têm suas particularidades.

Na indústria seriada o desenvolvimento de um produto é acompanhado por vários processos, que vão desde a pesquisa de mercado até a fabricação de

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protótipos que simulam o desempenho do produto e do processo e, com freqüência, esse desenvolvimento é marcado por inovação conceitual ou por nova tecnologia. Na construção os processos freqüentemente não são sistematizados e o desenvolvimento de um produto é, muitas vezes, baseado em conceitos tradicionais, sem muitas inovações.

Freqüentemente a atividade projetual é qualificada como uma atividade caótica, imprevisível em seus procedimentos e de alta variabilidade e improvisação.

Felizmente esta imagem está se transformando, impulsionada pela grande competitividade vivenciada pelos profissionais e pela nova dinâmica de mercado que se torna, a cada dia, mais exigente com relação às questões econômicas, ao prazo

de entrega dos projetos (lead time) e à qualidade exigida, bem como pelas novas

tecnologias que dão suporte a todo este novo cenário em que a construção civil se insere.

Nesse sentido vale destacar que projeto é determinante para a qualidade do empreendimento e vem se destacando como elo fundamental da cadeia produtiva. Trata-se, esta, de uma notória tendência no setor da construção civil, que já vem buscando a racionalização da produção e a qualidade nos seus processos.

Melhado et all (2004) afirma que todo esforço dispensado durante o projeto

repercute em ganhos sensíveis e possui custos reduzidos quando comparados aos que advêm de modificações feitas posteriormente. O projeto, além de instrumento de decisão sobre as características do produto, influi diretamente nos resultados econômicos dos empreendimentos e interfere na eficiência de seus processos, enquanto informação de apoio à produção.

Melhado e Violani (1992) afirmam que, para obter-se sucesso em um empreendimento:

[...] o projeto não pode ser resumido à caracterização geométrica no papel da obra a ser construída. O projeto deve conceber, além do produto, o seu processo de produção; [...] deve assumir o encargo fundamental de agregar eficiência e qualidade ao produto. (MELHADO; VIOLANI, 1992)

Esses autores salientam também que: “[...] o processo é altamente adaptável

para atender às necessidades individuais dos clientes [...]” e, sendo inerente ao

projeto do produto, constitui “[...] o mecanismo pelo qual se torna possível que esse

(MELHADO; VIOLANI, 1992)

De acordo com Andery (2002) o processo de projeto é a etapa mais estratégica do empreendimento, em relação aos gastos de produção e à agregação de valor ao produto. A qualidade do projeto envolve não apenas a gestão dos processos em cada empresa, mas também a articulação entre os processos dessas empresas.

Melhado et all (2004) afirma que o projeto pode assumir o encargo

fundamental de agregar eficiência e qualidade ao produto e ao processo construtivo, salvaguardando assim o interesse de todos, vez que a qualidade interessa aos agentes envolvidos de acordo com a figura abaixo representada.

FIGURA 4 – Os quatro principais agentes na cadeia da construção civil5.

No entanto, uma simples análise da figura permite concluir que em torno à atividade projetual giram muitos agentes (empreendedor, usuário, construtor, etc.).

Cabe ainda destacar que cada agente possui objetivos e interesses diferenciados ao longo do desenvolvimento de um projeto. Tais objetivos devem

estar bem claros e definidos e, segundo pondera Melhado et all (2004), seu

desenvolvimento deve estar permanentemente orientado à busca do equilíbrio de interesses e da valorização dos pontos em comum.

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