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CAPÍTULO 2 – A EVOLUÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS: DA ORIGEM DOS

2.1 A ORIGEM E EVOLUÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS: 34.1 A “Pré-História”

2.1.6 A Base Humanista do Pensamento de Immanuel Kant

Foge ao objeto desta pesquisa uma análise pormenorizada do pensamento kantiano136, todavia é inegável que após as teses gregas e as teorias desenvolvidas a partir da influência teológica, considera-se que a “terceira fase na elaboração teórica do conceito de pessoa como sujeito de direitos universais, anteriores e superiores, por conseguinte, a toda ordenação estatal, adveio com a filosofia kantiana”137.

Defende Kant que somente seres dotados de racionalidade possuem vontade, “a qual é a faculdade ou de produzir objetos que correspondam às representações, ou de se determinar a si mesma na produção de tais objetos (...), isto é, a de determinar a sua causalidade”138, denominando essa razão de prática. Esse é o seu primeiro postulado ético.

A autonomia da vontade, por sua vez, é a própria constituição da vontade, “graças à qual ela é para si mesma a sua lei (...). O princípio da autonomia é, portanto, não escolher de modo a que as máximas da escolha no próprio querer sejam simultaneamente incluídas como lei universal”139, independentemente da natureza dos objetos do querer.

A representação de um princípio objetivo, enquanto obrigatório para uma vontade, chama-se ordem ou comando (Gebot) e se formula por meio de um imperativo. Segundo o filósofo, há duas espécies de imperativo. De

136 “Téngase en cuenta que en el pensamiento kantiano se diferencian los campos sobre el qué

puede conocerse (razón pura), sobre el qué debe hacerse (razón práctica), y finalmente, sobre el quécabe esperar (ámbito de lo religioso). Así mismo, Kant cuestiona em qué términos puede obtenerse um conocimiento científico sobre las realidades que no puedem entenderse en el ámbito de lo sensible. Para conocer hay que pasar por la experiencia; pero no se parte del objeto; es el sujeto cognoscente el que da forma al objeto. En tal sentido, la realidad se ajusta a la razón.” (RAMÍREZ, op. cit., p.172.)

137 COMPARATO, op. cit., 2004, p.20.

138 KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. São Paulo: Martin Claret, 2004a, p.23.

139 KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. São

um lado, os hipotéticos, que representam a necessidade prática de uma ação possível, considerada como meio de se conseguir algo desejado. De outro lado, o imperativo categórico, que representa uma ação como sendo necessária por si mesma, sem relação com finalidade alguma, exterior a ela.140

Todas estas considerações adicionadas sustentam a máxima kantiana que o ser humano, então, como ser racional, existe como um fim em si mesmo, não funcionando como meio para essa ou aquela vontade, pois a vontade depende da racionalidade prática141, e esta por sua vez da vontade.

O ser humano dotado de racionalidade, e, consequentemente, de vontade assume a posição central de medida de tudo no mundo, e a sua dignidade aferida “pela sua vontade racional, só a pessoa vive em condições de autonomia, isto é, como ser capaz de guiar-se pelas leis que ele próprio edita”142, logo carecedor de uma proteção especial de seus direitos mais fundamentais. Entre eles destaca Kant a liberdade143, sob a perspectiva de uma análise filosófica.

A vontade é uma espécie de causalidade dos seres vivos, enquanto racionais, e liberdade seria a propriedade dessa causalidade, pela qual ela pode ser eficiente, não obstante as causas estranhas que possam determiná-la; assim como a necessidade natural é a propriedade da causalidade de todos os seres irracionais de serem determinados à atividade pela influência de causas estranhas.144

Prevê, então, Kant que a “liberdade indica que os motivos da ação provêm da razão, e, portanto, ela somente surge a partir da vontade”145, mas não significa dizer que toda manifestação autônoma de vontade seja um ato de liberdade, pois “não basta (...) verificá-la por certas supostas experiências da

140 COMPARATO, op. cit., p.21.

141 “Um ser racional pertence ao reino dos fins na condição de membro quando nele é legislador

universal, ainda que igualmente submetido a essas leis. Pertence-lhe na condição de chefe quando, como legislador, não está submetido à vontade de um outro. O ser racional tem de se considerar sempre como legislador em um reino de fins possível pela liberdade da vontade, seja como membro, seja como chefe. Mas o lugar desse último, não o pode assegurar só pela máxima da sua vontade, mas tão-somente ao se fazer um ser totalmente independente, sem necessidade nem restrição de uma faculdade adequada à vontade.” (KANT, op. cit., 2004b, p.64.)

142 COMPARATO, op. cit., 2004, p.21.

143 “El hombre libre es el sujeto que se legisla, en cuanto puede autónomamente realizar el

principio de humanidade. A su vez, desde la libertad se concibe el principio de autonomia de la voluntad como la máxima propia de la moralidade. Se requiere que cada hombre actúe por sí y conforme su actitud en máxima universal.” (RAMÍREZ, op. cit., p.178.)

144 KANT, op. cit., 2004b, p.79. 145 SANTOS, op. cit., 2009, p.112.

natureza humana (...), mas temos de demonstrá-la como pertencente à atividade de seres racionais em geral”146.

É sob a perspectiva dessa relação entre razão, vontade e liberdade que se desenvolve o contratualismo kantiano, pois torna-se, por óbvio, necessário estabelecer uma ordem, que juridicamente assegure a liberdade dos indivíduos na sua convivência social (contrato social), adaptável à sua construção teórica.

Disto deriva uma diferenciação entre as disciplinas da moral e as do direito. A primeira coloca na base da sua legislação a conformidade da intenção ao preceito da vontade, ao passo que o segundo considera exclusivamente a conformidade exterior dos ditames da razão. É justamente este deslocamento da atenção do plano da interioridade e da consciência do sujeito individual, para o plano da compatibilidade dos seus comportamentos com a liberdade e as ações dos outros indivíduos que coloca o problema de estabelecer uma ordem na qual a liberdade de cada um seja compatível, do ponto de vista externo, com a liberdade de todos aqueles com os quais ele passa ou pode passar a relacionar-se.147

Kant não está preocupado em discutir se o homem possui ou não uma natureza beligerante, e se está em constante estado de guerra, ele simplesmente parte da premissa que em uma sociedade inevitavelmente ocorrerão litígios, o que gera um estado de perigo, em função destes conflitos, que necessita ser controlado. Este controle, por sua vez, é atribuição do Estado.

O Estado é a institucionalização de uma forma de organização, criada com o escopo de conter os conflitos gerados pelo arbítrio dos indivíduos. “Isso comporta a fundação de uma relação de comando e obediência, em que a totalidade do povo se institui como poder coercivo para com os membros individuais”148.

Para essa forma institucionalizada de organização funcionar, todavia, faz- se necessária a delimitação de uma base, neste caso jurídica, como já foi explicitado, que assegure a relação de controle. Kant, então, trabalha com a noção de um contrato originário, proporcionado pela razão prática, que “enquanto capacidade de determinação do arbítrio, se exerce na forma de vontade”149.

146 KANT, op. cit., 2004b, p.80/81. 147 SANTOS, op. cit., 2009, p.112. 148 Idem. Ibidem, p.114.

Deve-se salientar que essa vontade não é individual, pois para o contrato ser eficaz é necessário que ela tenha um caráter universal, inobstante este possua em seu alicerce a presença de uma multiplicidade de vontades individuais. Neste caso, a ideia é a de que a vontade, enquanto instância de uma ordem jurídica que se pretende universal, supere o livre-arbítrio de vontades individuais.150

O contrato social, neste contexto, é uma espécie de “condição transcendental espontaneamente colocada pela razão para tornar possível a implementação do direito, e, por isso mesmo, o exercício da liberdade externa por parte dos indivíduos”151. Assim, Kant acaba por estabelecer uma base contratual metafísica, fundada em uma vontade instituidora de uma universalidade, que é manifestada pelas vontades individuais em relações recíprocas, pois já está ínsita nos seres humanos, enquanto uma vontade geral (universal).

O direito é o mecanismo que por intermédio da ordem institucionalizada (Estado) delimita e define essa vontade geral, assegurando a “avença” firmada por intermédio do contrato social, que, por sua vez, estabelece os direitos humanos.

Assim, é preciso afirmar que Kant, juntamente com os outros contratualista e individualistas, contribui profundamente para a construção de toda uma visão de mundo individualista que serviu de lastro filosófico-político para as Grandes Revoluções do século XVIII e, consequentemente, para a positivação de direitos individuais nos textos constitucionais deste período.152

Dessa forma, conclui-se a evolução ideológica que colaborou para a evolução da definição dos direitos humanos, restando, contudo, analisar a matriz jurídica que se extrai deste contexto, qual seja: o jusnaturalismo.

150 “Assim é possível concluir-se que não seria possível nenhum acordo entre vontades individuais

se a vontade individual não fosse já per se permeada por uma irreprimível instância de universalidade, de tal forma que exija, para suas decisões, um plano de validade categórica. Por isso, o “contrato originário” não pode depender do livre-arbítrio, de decisões individualizadas dos sujeitos que o estipulam, mas se revela, antes, como forma através da qual a ideia de vontade se manifesta e funciona como origem do direito, ou seja, como instância de legislação universal, diante de uma multiplicidade pressuposta de vontades individuais.” (Idem. Ibidem, p.113)

151 Idem. Ibidem, p.113. 152 Idem. Ibidem, p.114.

2.1.7 A Relação Entre a Matriz Jusnaturalista do Pensamento