Um reservatório alto e cilíndrico, no formato da antiga chaminé de tijolos da fábrica que ali existia e cuja demolição gerou até certa polêmica entre os funcionários do SESC à época218, não era um elemento presente desde os primeiros
rascunhos do projeto pensado por Lina Bo Bardi para o SESC em 1977, constando apenas de croquis mais tardios.
217 A palavra foi usada por Marcelo Ferraz na entrevista cedida à autora.
218Há uma menção sobre um site de comunicação entre os antigos funcionários do SESC Pompeia
em PEREIRA, Cristina Rodrigues SESC Pompeia e Centro Cultural São Paulo: estudo comparativo. 2016. Dissertação (Mestrado em Maestría en Historia y Cultura de la Arquitectura) - Universidad Torcuato Di Tella . Co-Orientador: Renato Luiz Sobral Anelli.
Figura 30: Croquis iniciais de Lina para o SESC no imóvel da Pompeia, sem a presença do marco vertical (caixa d´água/chaminé)
Fonte: Acervo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. 094ARQd0003 219
Talvez toda a simbologia relacionada ao marco vertical, bem como sua localização em definitivo, não tenham ficado evidentes desde o início do projeto em função das indefinições a respeito da ocupação da área dos fundos do imóvel, mais degradada, e também à concepção original de Lina a respeito da piscina. Segundo o depoimento de Suzuki, que pode ser complementado pelos desenhos de Lina, primeiramente a piscina foi pensada para ser externa, ao ar livre220.
219 Disponível em http://www.institutobardi.com.br/busca_banco.asp - acesso 15/07/2016
220 “Nos primeiros croquis da Lina a chaminé não aparece porque a piscina era para fora, a piscina
não era dentro, eu até tenho uma hipótese de que esta piscina lembra muito a piscina de um clube público que tem em Milão que se chama Palalido, esta piscina que ela desenhou aqui fora. A torre não aparece nos primeiros croquis porque nesta região seria a piscina ao ar livre. Depois surge esta reminiscência da chaminé, de fotos do Flieg de 1940”. SUZUKI, M. Entrevista cedida à Renata Bechara. São Carlos, 05 e 12 mar. 2016. (Transcrição na íntegra em anexo neste trabalho).
Figura 31: Estudos iniciais de Lina, planta geral e ocupação da área aos fundos do lote.
Fonte: Acervo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. Desenho 094ARQd0447 221.
Apesar de haver já um escritório de engenharia para cálculo de estruturas envolvido nos trabalhos desde a contratação de Lina, com o projetista Francisco fazendo parte da equipe que desenhava junto com os estagiários no canteiro/escritório, o projeto estrutural deste elemento em específico estava a cargo da empresa Toshio Ueno Engenharia S/C Ltda., que tinha um contato assinado com o SESC datado de outubro de 1979. No referido contrato havia uma observação expressa sobre seu dever de realizar o serviço “[...] em completa sintonia com a arquiteta Lina Bo Bardi e com o Serviço de Engenharia do SESC”.222
De fato, ocorreu que, não estando em sintonia com o que desejava Lina Bo Bardi, a caixa d’água não foi executada da forma como a empresa que ganhou a concorrência para executá-lo, HOPASE – representada por Antônio Homsi – julgava ser a mais econômica alternativa em termos de custos de mão de obra e tempo. Em uma reunião223 onde participavam representantes do SESC, da Toshio Ueno e da
Hopase, Lina não aceitou as formas metálicas trepantes sugeridas pela então responsável pela execução desta obra, e esta abdicou do direito de construir a caixa
221 Disponível em http://www.institutobardi.com.br/busca_banco.asp - acesso 15/07/2016
222 BACCHIN, José Antonio. Contrato. Ref.: Toshio Ueno Engenharia S/C Ltda., José Edgard Pereira
Barretto Filho (signatário). São Paulo (SP), 15/10/1979. Acervo do ILBPMB. Doc. 01.0010.04.
223 Ata da reunião assinada por Lina Bo Bardi, Martinelli, Guilherme Dagli, Luiz Otávio M. de Carvalho,
d’água, alegando ter feito o orçamento do serviço considerando este modo de fazê- la em específico.
A concretagem com formas metálicas não foi aceita pela arquiteta sob a alegação de modificação da concepção arquitetônica do projeto. Nem mesmo soluções alternativas apresentadas na reunião, como a de revestir as formas metálicas com madeira, foram suficientes para convencer Lina, que se preocupava com a textura desejada para o concreto depois de desformado e também com os custos da execução.
Esse impasse demandou da equipe de projeto a criação de um protótipo para comprovar o baixo custo e o resultado desejado e inovador para aquela que se tornaria parte da logomarca do SESC Pompeia. A caixa d'água em concreto aparente, com sua forma inspirada na antiga chaminé de tijolos da fábrica, deveria ficar “enfeitada com rendas”224 para tornar-se de fato o marco vertical da Pompeia.
A decisão final da forma de execução do concreto, tomada em obra, alternativa às formas metálicas, aconteceu apenas após terem sido feitos testes dos protótipos. Foram colocados pedaços de estopa no fundo das formas de madeira, embaixo das ferragens, para que se ensopassem com a argamassa e escorressem antes de endurecer, formando “franjas esgarçadas na base de cada anel”225. A
concretagem da torre de concreto cilíndrica aconteceu entre julho e setembro de 1980, conforme datas de fotos da obra226.
É interessante observar que a mão de obra contratada pelo SESC para executar a torre da caixa d’água foi terceirizada, num momento da obra em que não havia outra grande construtora envolvida (como haverá mais tarde a Método) e a totalidade dos trabalhos ainda eram realizados pela equipe interna do SESC. A participação decisiva de Lina Bo Bardi, não aprovando o modo de construir sugerido pelo fornecedor de mão de obra, orientando o cálculo de projeto das formas da estrutura e solicitando a execução de protótipos para validar no canteiro o modo de execução planejado não foi uma prática bem aceita pela empresa terceirizada, que
224 SANTOS, Cecilia Helena Godoy Rodrigues dos. Sesc Fábrica da Pompéia: a cidadela e sua torre.
In: VAINER, A; FERRAZ, M (Orgs.). Cidadela da Liberdade - Lina Bo Bardi e o SESC Pompeia. 1ª ed. São Paulo: SESC, 2013. p. 144-145.
225 SANTOS, Cecilia Helena Godoy Rodrigues dos. Sesc Fábrica da Pompéia: a cidadela e sua torre.
In: VAINER, A; FERRAZ, M (Orgs.). Cidadela da Liberdade - Lina Bo Bardi e o SESC Pompeia. 1ª ed. São Paulo: SESC, 2013. p. 144-145.
226 Há uma sequência de documentos fotográficos no acervo do Instituto LBPMB, com números de
em função disto abre mão da concorrência que havia ganhado. Os testes dos protótipos para a solução elaborada — bastante inovadora, pelo uso dos tecidos entre as formas trepantes — permitiram um bom controle dos resultados finais, garantindo para todos e para a própria Lina Bo Bardi que ao final do processo o elemento estaria de acordo com o “espírito arquitetônico” do conjunto.
Na figura demonstrada a seguir (Imagens no tempo: caixa d´água) encontram-se desenhos de Lina e fotos feitas durante a obra dispostos em ordem cronológica. Algo que se pode observar é a localização da antiga chaminé de tijolos da fabrica é diferente da escolhida por Lina Bo Bardi para a concretagem do marco elevado de concreto.
1940
IMAGENS NO TEMPO : CAIXA D´ÁGUA
1980
Figura 32: Imagens no tempo: caixa dágua. Esquema cronológico elaborado pela autora. Fonte fotos e desenhos: Instituto Bardi, exceto anotados. Códigos e créditos das fotos (quando houver): anotados abaixo dos grupos de imagens.,
Acervo de desenhos disponível em <www.institutobardi.com.br> Acesso em: 01 ago.2016. Localização da antiga chaminé de tijolos da antiga fábrica de tambores – Gelomatic . 094ARQf0012 e 094ARQf0011 Créditos: Hans Gunter Flieg
IMAGENS NO TEMPO : CAIXA D´ÁGUA
Fundações, protótipo, formas e concretagem dos anéis. 094ARQf0980, 094ARQf0984 ,094ARQf0983, 094ARQf0985, 094ARQf1002. Creditos: Miguel
1982
Primeiros estudos, sem a definição do local para a caixa d´água. 094ARQd0017..
094ARQd0304
Localização da caixa d´água. Wolff, I.“Lessons in ‘spatializing’ heritage”:the
conservation work of Lina Bo Bardi. 2007. Disponível em
http://www.wolffarchitects.co.za/wp-content/uploads/2007/02/fig-15.jpg Acesso em: 12/08/2016