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A cantata Ariane et Bacchus

No documento SIDINEY GOMES PEREIRA (páginas 97-102)

1 OS CAMINHOS DA POÉTICA: ANTIGUIDADE E BARROCO

3.3 MONTÉCLAIR (1667-1737)

3.3.1 A cantata Ariane et Bacchus

Montéclair, ao contrário do que propôs Rousseau, não seguiu o esquema de 03 pares de recitativo e 03 pares de ária em sua Ariane et Bacchus. Utiliza-se da seguinte estrutura:

Recitatif, Air, Recitatif, Simphonie, Air, Air Tendrement, Recitatif e finalmente Air gay. Ou seja, 02 movimentos a mais que o convencionado pelo precursor Rousseau.

Não conseguimos encontrar dados sobre a autoria desse poema musicado por Montéclair, sendo que na capa do terceiro livro de suas cantatas consta apenas informações sobre o impressor, que na ocasião era seu sobrinho Bouvin. Tunley em sua catalogação, no apêndice mais ao fim do seu livro sobre cantatas, também omite essa informação. A única menção sobre libretistas nas cantatas de Montéclair aparece na publicação de seu primeiro volume, em 1709, sendo ele M. Liebaux, sem outras referências. Infelizmente não podemos afirmar se os textos dos outros dois livros são de Liebaux ou de outro poeta, ou quem sabe ainda, se são livres adaptações do próprio Montéclair.

A cantata inicia com um recitativo, à luz do que preconiza Rousseau, escrito em alexandrinos. Nesse momento a voz solista atua como narrador, tratando de Ariadne e seu amor infeliz por conta do abandono e desprezo de Teseu, que, conforme conta a mitologia, fugira com sua irmã Fedra. Não há menções sobre lugar ou tempo nesse recitativo, evidenciando um resumo proposital de uma fábula conhecida.

Como segundo movimento, Montéclair designa um Air, em primeira pessoa, isto é, a voz solista atuando como Ariadne. Aqui, como já convencionado e explicitado nesse trabalho, há um reforço à moral presente no recitativo e de como está o sentimento do protagonista. Na ária, o lamento de Ariadne se dá com um texto com palavras fortes evidenciando sua tristeza profunda, devido à traição de Teseu, tratando-o como ser mais cruel que o próprio Minotauro.

Ao fim, clama seu retorno, para dar fim a sua imensa dor. A ária se encerra com a emblemática frase: "Ah! pelo preço dos meus ardores extremos; Vem, tem piedade de minha miséria". Em comparando à progressão realizada no texto da Ariane de Saint-Jean, percebemos que, já passado o segundo movimento, está configurada assim a exposição da cantata, já que o texto do primeiro recitativo resume o caráter da peça e do que pode discorrer em termos de discurso.

Finalizando a primeira parte, considerando que logo na sequência virá um interlúdio, ou como era intitulado, a simphonie, surge o segundo recitativo. Dessa vez o compositor preferiu manter o discurso em primeira pessoa e Ariadne, ainda em desespero, reluta em viver, considerando como único bem que lhe resta, a morte.

Ora, percebemos que nesse recitativo, o de movimento 3, o clamor à morte é mais evidente do que o visto no texto da air anterior, e por esse teor, percebemos aqui o ponto de tensão da obra: Ariane se matará após proferir sua fala? Em seguindo o esquema progressivo da trama é que verificamos ser esse o trecho da cantata em que trata e mostra um possível nó, o momento da situação emblemática.

Após a inserção da simphonie, o compositor mantém a alternância entre recitativo e ária, colocando a seguir uma air em terceira pessoa, mas numa perspectiva quase presencial, haja visto que aqui sim há a referência a um cenário imaginário, tratando da chegada de Baco e o embelezar dos mares, a encosta, as cavernas, etc. Aqui há uma abrupta mudança de sentimento, reforçado pelo narrador, evocando a mudança no destino (fortuna) de Ariadne. A música também se modifica e o espírito definitivamente se altera. Em termos de poética, temos aqui uma peripécia, já que há uma reviravolta nas circunstâncias da trama e o destino é definitivamente reorganizado por uma ação de um agente maravilhoso.

Montéclair segue e interrompe essa alternância, colocando agora outro air, com a especificação "tendrement", com um tempo de execução mais movido e em compasso ternário.45 Nesse movimento, o discurso surge em 3ª pessoa novamente, apesar do teor do texto tornar quase possível uma fala em primeira pessoa, tendo como porta-voz o personagem do Baco, por exemplo. Porém, isso seria estranho, haja visto que há um único personagem, alternando em narrador e Ariadne.

Reinai adorável Mortal,

Triunfais sobre o mais encantador dos Deuses;

Rendei graças ao infiel

Que vos garantiu um destino glorioso.

Quando um mortal vos abandona, Vós acorrentais o coração dos Imortais;

Se perdeis uma coroa,

O universo inteiro vos ascenderá ao altar.

_______________

45 Esta afirmação se dá por conta do estudo feito por Keffer (1977), em que traduz e comenta os termos adotados por Montéclair em seu livro Principes de musique divisesz en quatre parties (Paris, 1736). Sobre o termo tendrement, apesar da tradução ser algo que remete a tenro e delicado, a fórmula de compasso com subdivisão ternária 3, e não em compasso simples, como em ¾, indica que seu tempo é normalmente mais rápido.

Aqui há a exaltação e triunfo de Ariadne, mostrando que apesar de seu sofrimento por conta de uma traição, o destino lhe foi muito mais que generoso, tornando-a imortal. Por conta desse pequeno texto, entendemos que aqui já se configura aqui um desenlace, com o apaziguamento dos pesares que acometiam Ariadne e sua consequente decisão pela morte.

TABELA 01 – Libreto e respectiva tradução da cantata Ariane et Bacchus de Montéclair.

[1.Recitatif] La haine est trop fort en ton coeur.

Ah! pour prix de mes feux extrêmes, Viens, prend pitié de mon malheur.

Ah! pelo preço de meus ardores extremos, Vem, tenha piedade de minha miséria.

Ariane adoroit le volage Thesée

Il repondit long temps á ses soins assidus

Mais d'un amour si doux, sa constance est lassée

Il l'abandonne seule en les lieux inconnus Dans son cruel depit cette amante abusée Exprime par ces mots ses regrets superflus Implorant, mais en vain, la tendresse

Porém de um amor tão doce, sua constância cansou

Ele a abandonou em uma costa desconhecida

Em seu cruel desprezo esta amante desprezada

Exprime por estas palavras seu pesar inútil Implorando, mas em vão, a ternura passada.

De um amante que dela foge, e não escuta mais.

[3. Recitatif]

Ah! dans mon desespoir, le seul bien qui me reste,

C'est vous Ô mort, je volle au devant de vous coups;

Venez, me delivrer du jour que je deteste Les malheureux humaines ne redoutent que vous;

Mais l'Amour a rendu mon destin si funeste, Que le plus grand des maux me semble trop doux. Os infelizes humanos não temem senão a vós;

Mais quel Dieu fait fremir les ondes;

Quel éclat embellit les Mers!

Jusques dans leurs grottes profondes, Les Tritons sont charmés par les plus doux

concerts.

Sur ces bords écartés Bachus decend luy même,

Les ris et les Amours volent devant ses pas.

Ariane, quel est votre Bonheur extrême, Pour vous seule les Dieux visitent ses climats.

Mas que Deus faz tremer as ondas?

Que brilho embeleza os Mares!

Mesmo nas suas cavernas profundas, Os Tritons são encantados pelas mais doces harmonias.

Sobre esta encosta desce o próprio Baco,

6.]Air. Tendrement.

O universo inteiro vos ascenderá ao altar.

[7.recitatif]

Elle y brille à jamais d'une clarté nouvelle, Monument éternel d'un sort si glorieux.

Sua coroa no momento se eleva aos altos céus;

Ela lá brilha para sempre com uma nova luz,

Monumento eterno de um destino glorioso.

[8.]Air gay.

Si vos amants brisent leurs chaines, Beautés, n'implorez que Bachus.

Courez, courez noyez vos peines Dans les flots charmants de son jus.

L'Amour, toujours rempli d'allarmes

No documento SIDINEY GOMES PEREIRA (páginas 97-102)