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A capacidade processual da pessoa com deficiência e a Lei 9.099/95

5. A CAPACIDADE PROCESSUAL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA PARA

5.7. A capacidade processual da pessoa com deficiência e a Lei 9.099/95

Uma disciplina que merece atenção especial é a prevista no art. 8º da Lei 9.099/95, que

dispõe sobre os Juizados Especiais Civis e Criminais. De acordo o referido artigo:

Art. 8º Não poderão ser partes, no processo instituído por esta Lei, o incapaz, o preso, as pessoas jurídicas de direito público, as empresas públicas da União, a massa falida e o insolvente civil.

Trata-se de norma criticada pela doutrina, a exemplo de Fredie Didier Jr., para quem a

norma enuncia, equivocadamente, ausência de capacidade de ser parte, quando, na

604Esse é o entendimento da doutrina majoritária, por todos ver: DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. 7ª ed. São Paulo: Malheiros, 2017, vol. II, p. 337. NEVES, Daniel

Amorim Assumpção. Novo Código de Processo Civil comentado. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 98. LOPES, Bruno Vasconcelos Carrilho. In GOUVEA, José Roberto Ferreira; BONDIOLI, Luis Guilherme Aidar; FONSECA, João Francisco Naves da.(coords.). Comentários ao Código de Processo Civil. São Paulo: Saraiva, 2017, vol. II, p.24. BUENO, Cassio Scarpinella. Comentários ao Código de Processo civil. São Paulo: Saraiva, 2017, vol.1, p.399.

605Sobre o tema: CAMARA, Alexandre Freitas. O novo processo civil brasileiro. 3ª ed. São Paulo: Atlas,

2017. DOTTI, Rogéria Fagundes. Da capacidade Processual. In WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; DIDIER JR. Fredie; TALAMINI, Eduardo; DANTAS, Bruno. (coords.). Breves Comentários ao Novo

Código de Processo Civil. 3ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016.

606BRASIL. Tribunal de Justiça Parará (15ª Câmara Cível). Agravo de Instrumento 13615693 PR 1361569-

3. Relator Desembargador Luiz Carlos Gabardo, Data de Julgamento: 16/09/2015, Data de Publicação: 28/09/2015.

verdade, tem-se hipótese de incapacidade processual para litigar nos juizados

especiais.

607

Diogo Esteves, Elisa Costa Cruz e Franklyn Roger Alves e Silva, ao tratarem do referido

dispositivo, afirmam que “torna-se necessária uma releitura da Lei n

o

9.099/1995, de

modo a permitir que o incapaz possa ocupar o polo ativo das demandas que tramitem no

procedimento sumaríssimo, tendo a opção de um rito mais célere para a defesa de seus

interesses”.

608

A defesa dos autores refere-se à pessoa com deficiência considerada incapaz que, para

eles, deve ter capacidade para ocupar o polo ativo das demandas que tramitam nos

Juizados Especiais.

Com o devido respeito ao entendimento dos autores, discorda-se da interpretação

desenvolvida. É evidente que o texto da Lei n

o

9.099/95 deve ser interpretado com a nova

sistemática das capacidades depois da entrada em vigor do EPD. Contudo, não se trata de

possibilitar a atuação do incapaz nos Juizados Especiais, mas sim de reconhecimento da

capacidade dos deficientes

609

, incluindo-se as pessoas com deficiência mental ou

intelectual submetidas à curatela de apoio e à tomada de decisão apoiada.

Contudo, a norma contida no art. 8º da Lei é clara sobre excluir os incapazes da disciplina

dos Juizados Especiais. Sendo assim, todos aqueles descritos nos arts. 3º e 4º do Código

Civil continuam com essa impossibilidade. No âmbito do regime das pessoas com

deficiência pode-se concluir que elas poderão ser excluídas do procedimento instituído

pela lei dos Juizados Especiais não em virtude da sua deficiência, mas sim se for

configurada, além da deficiência, uma das hipóteses do art. 4º do CC. É o caso da pessoa

607DIDIER Jr. Fredie. Pressupostos processuais e condições da ação. O juízo de admissibilidade do

processo. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 114-115.

608ESTEVES, Diogo; CRUZ, Elisa Costa; SILVA, Franklyn Reger Alves. As consequências materiais e

processuais da lei brasileira de inclusão da pessoa com deficiência e o papel da Defensoria Pública na assistência jurídica das pessoas com deficiência. Revista de Processo. São Paulo, vol. 258, ano 41, pp. 281- 314, 2016, p. 291.

609Nas palavras de Pablo Stolze: “O art. 8º da Lei 9.099 impede o incapaz de postular em Juizado Especial.

A partir da Entrada em vigor do Estatuto, certamente perderá fundamento a vedação, quando se tratar de demanda proposta por pessoa com deficiência”. (STOLZE, Pablo. O Estatuto da Pessoa com Deficiência e o Sistema Jurídico Brasileiro de Incapacidade Civil. Revista Síntese direito previdenciário. São Paulo, no

78, ano XVI, pp. 17-21, maio/jun. 2017, p.20). Esse também é o entendimento de Ana Clara Cabral. (CABRAL, Ana Clara. Estatuto da pessoa com deficiência e seu impacto no código civil. Revista Síntese

com deficiência que não possa manifestar vontade, que seja ébria habitual, viciada em

tóxico ou pródiga.

Diante do reconhecimento da capacidade da pessoa com deficiência, parece ser

plenamente possível, em sede de Juizado Especial, por força do art. 9º, que a pessoa com

deficiência capaz (e sem restrições instituídas por curatela de apoio) compareça a juízo

sem estar assistida de advogado nas causas de até 20 salários mínimos.

Porém, apesar da regra geral da plena capacidade para figurar como parte e atuar nos

processos em trâmite nos juizados, é importante ressalvar que caso a sentença que

instaurou a curatela de apoio aponte necessidade de apoio para atos processuais, como a

propositura de ações, a pessoa com deficiência, também no âmbito dos juizados, deve

estar assistida por seu curador/apoiador.

Insta frisar ainda que conforme o art. 11, da Lei 9.099/95, “O Ministério Público intervirá

nos casos previstos em lei”. Cumpre aqui mencionar que, ao tratar das pessoas com

deficiências capazes, foi proposto que a legislação deve sofrer nova alteração para inserir

a necessidade de intervenção do Ministério Público em todos os processos que versem

sobre interesses de pessoas com deficiência. Havendo essa alteração legislativa,

vislumbrar-se-á a hipótese, no âmbito dos Juizados Especiais, que, por ora, só impõe a

intervenção do MP diante de processo que verse sobre interesses dos incapazes e demais

hipóteses do art. 178 do CPC.

Por fim, merece ser ressaltada a possibilidade de celebração de negócios jurídicos pela

pessoa com deficiência no âmbito dos juizados especiais. Segue-se aqui a mesma

disciplina apresentada nos itens anteriores. De modo que, sendo capaz, apenas a pessoa

com deficiência submetida à curatela de apoio poderá sofrer restrição para a celebração

de negócios jurídicos processuais, a depender, evidentemente, dos termos da sentença que

instituiu o apoio.