CAPÍTULO I – CAPITALISMO, CAPITALISMO PERIFÉRICO, DEPENDÊNCIA E POBREZA
I. 4.1 A CEPAL e o subdesenvolvimento: novos enfoques
Para que se possa entender a realidade latino-americana (e a brasileira) e sua conflitante dinâmica capitalista, é necessário recorrer a uma fonte de análise metodológica mais específica, ou seja, visto que os processos são muito diferentes, só se pode entender esta dinâmica buscando-se os fundamentos construídos pela análise da Comissão Econômica para América Latina, Caribe e África (CEPAL),22 sendo que o processo ocorrido no Brasil acaba
por consolidar um “Capitalismo Tardio”.23
Dentre os elementos analíticos positivos desta escola, deve-se destacar o seu caráter autônomo de construção de um pensamento socioeconômico baseado em metodologia própria, sempre em consonância com as necessidades da realidade que se escancara após a II Guerra Mundial. Os primeiros termos teóricos deste processo se referem à percepção da existência de um mundo dividido em duas estruturas muito distintas, qual seja: “centro” e “periferia”. Desta concepção surgiram todas as demais, ou seja, só se consegue entender as diferenças (estruturais) a partir do reconhecimento e constatação das mesmas.
Vale destacar, também, que a CEPAL não se configura como uma “instituição acadêmica” de pensamento econômico nos moldes das escolas tradicionais (liberalismo econômico, marxismo, liberalismo neoclássico, keynesianismo etc.), mas sim, como um “corpo analítico específico” que produz conhecimento com vistas à realidade da “periferia” do mundo e suas relações econômicas, políticas e geopolíticas. A este conjunto de elementos denomina-se “estruturalismo econômico” e um dos elementos mais sólidos dessa produção teórica é exatamente a capacidade de construção de análises históricas com base nas estruturas reais dos países periféricos. Isto significa, portanto, que no método utilizado – Histórico- Estruturalista – encontram-se elementos metodológicos científicos fundamentais como originalidade, criatividade, capacidade crítica e realismo analítico. É por isso, principalmente, que – na contramão de um senso comum liberal – a ação e a efetiva participação do Estado
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Trata-se de um órgão regional das Nações Unidas, ligado ao Conselho Econômico e Social. Criado em 1948, seus objetivos foram criar estudos e alternativas para que os países latino-americanos e pobres da “periferia” do mundo pudessem romper com o subdesenvolvimento. (SANDRONI – 2001:90)
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(ampliando o alcance de um Estado Burguês clássico) se torna elemento fundamental para a dinamização da “periferia” capitalista.24
Como se pode verificar, Ricardo Bielschowsky (2000: 21-22), ao explicar a lógica cepalina de um “capitalismo periférico”, esclarece o duplo papel desempenhado por estes conceitos:
Primeiro, serviu para o argumento de que a referida estrutura determinava um padrão específico de inserção na economia mundial, como “periferia” da mesma, produtora de bens e serviços com demanda internacional pouco dinâmica, importadora de bens e serviços com demanda doméstica em rápida expansão, e absorvedora de padrões de consumo e tecnologias adequadas ao centro, mas freqüentemente inadequadas à disponibilidade de recursos e ao nível de renda da periferia.
Segundo, prestou-se à ideia de que a estrutura socioeconômica periférica determina um modo próprio de industrializar, introduzir processo técnico e crescer, e um modo próprio de absorver a força de trabalho e distribuir a renda. (...)
O que se percebe é que o que está em jogo na lógica de um capitalismo periférico é o fato de que não apenas sua capacidade de se inserir em uma dinâmica capitalista internacional, mas, paralelamente, sua capacidade de promover uma dinâmica social que provoque resultados positivos rumo ao desenvolvimento socioeconômico já experimentado por países desenvolvidos (ricos), depende diretamente de uma ação deliberada de promoção da ruptura com os elementos que perpetuam sua fragilidade histórica.
Neste aspecto vale ressaltar que no centro das análises sobre capitalismo periférico reside a ideia da necessidade de promoção dos meios para que se possa romper com o subdesenvolvimento (e a dependência), já que este seria um elemento estrutural definidor do atraso e da pobreza. Como explica Celso Furtado:
O subdesenvolvimento não constitui uma etapa necessária do processo de formação de economias capitalistas modernas. É, em si, um processo particular, resultante da penetração de empresas capitalistas modernas em estruturas arcaicas. O fenômeno do subdesenvolvimento apresenta-se sob várias formas e em diferentes estágios. (...) Como fenômeno específico que é, o subdesenvolvimento requer esforço de teorização autônomo. A falta desse esforço tem levado muitos economistas a explicar, por analogia à experiência das economias desenvolvidas, problemas que só podem ser bem equacionados a partir de uma adequada compreensão do fenômeno do subdesenvolvimento (pp. 184-185) (BIELSCHOWSKY - 2000: 23 Apud)
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A Este respeito ver SOUZA (1999: 189-196) onde se demonstra a “Teoria do Desenvolvimento Derivado”, de Wallich, em que, na mesma dimensão da teoria schumpteriana, seria necessário a existência de um “Estado empresário” para promover os movimentos de “destruição criadora” necessários para a dinamização/sustentação do capitalismo na periferia.
Outro elemento importante, diretamente relacionado ao conceito de dependência, se refere aos impactos culturais que a “periferia” sofre, resultando em antagonismos específicos extremamente problemáticos. Como explica BIELSCHOWSKY (2000: 23), sobre a ampliação do alcance da análise feita por Celso Furtado:
Posteriormente, o autor iria avançar a formulação integrando-a à ideia de que o subdesenvolvimento corresponde a uma forma ‘cultural’ historicamente determinada de uso do ‘excedente social’, em que os padrões de consumo das economias centrais – e, inevitavelmente, os padrões tecnológicos que os acompanham – são absorvidos pela elite local, mas não conseguem-se alastrar-se à maior parte da população, por insuficiência de renda e produtividade. (...)
Em resumo, o que a CEPAL busca é demonstrar que na análise das diferenças do desenvolvimento socioeconômico (quando comparados países centrais/ricos e países periféricos/pobres), só se consegue entender o que realmente está em jogo quando se reconhece as discrepantes estruturas em análise, que variam entre desenvolvidas e/ou subdesenvolvidas.25 Mais ainda, constrói seu processo analítico de forma dinâmica nestes últimos sessenta e cinco anos de existência, o que talvez possa explicar sua relevância para o pensamento econômico, social e político da América Latina. Neste sentido, pode-se afirmar que este organismo, apesar de alguns “tropeços”, possui entre suas grandes qualidades uma capacidade de produzir um pensamento genuíno e específico às contradições existente entre os países periféricos do mundo; a CEPAL ensinou os “pobres” a pensar!