PARTE 1 MEIO AMBIENTE E CIDADE
3.2 A CIDADE COMO ESPAÇO DE QUALIDADE DE VIDA
A cidade é entendida como um ecossistema possuindo um patamar de
equilíbrio entre os fluxos e estoques de matéria e energia que garantem a duração
básica do sistema urbano. A cidade promotora de qualidade de vida, segundo
Oliveira (2010), desenvolve as dinâmicas urbanas para além dos valores mercantis e
promove condições de vida saudáveis visando práticas de igualdade sociais e de
conservação ambiental. Para a autora, as circunstâncias de acessibilidade à
infraestrutura básica, saneamento, condições saudáveis de existência e espaços
ambientais são essenciais para a qualidade de vida urbana.
Para Jacobi (2013), as relações entre meio ambiente urbano e qualidade de
vida manifestam-se na relação entre as práticas cotidianas, acesso a serviços,
condições de habitabilidade e moradia e as formas de interação entre a sociedade e
o meio ambiente. Jacobi explica que, para a cidade possuir condições essenciais
para promover a qualidade de vida, as práticas sociais devem garantir paralelamente
condições mínimas de vivência humana e preservação ambiental, através de
políticas públicas e infraestrutura de qualidade. A reflexão sobre as práticas sociais
em busca da qualidade de vida urbana ambiental, segundo Jacobi (2013), não pode
prescindir da análise dos determinantes no processo, nem dos atores envolvidos e
das formas de organização social que potencializam a degradação dos recursos
naturais, mas sim pelos indivíduos atingidos pela falta das condições básicas de
habitabilidade.
Na visão de Acselrad (2010), a reprodução das estruturas urbanas para uma
cidade forjada no conceito de qualidade de vida urbana deverá ser feita no modelo
da pureza, da cidadania ou do patrimônio. Segundo o autor, a cidade é vista como
espaço de externalidades negativas, consequentemente, a construção do meio
urbano nesse contexto será feita baseada em modelos que priorizem o acúmulo
capital às condições saudáveis de existência. Acselrad (2010) esclarece que a
retomada do conceito de cidadania por meio das políticas urbanas, no momento em
que os atores populares participam da construção do direito à cidade saudável, é o
melhor modo de construção de um meio urbano com qualidade de vida.
A cidade compacta, na explicação de Acselrad (2010) e Oliveira (2010), é
atualmente o melhor modelo de planejamento urbano para promover qualidade de
vida superior aos residentes, pois reuniria a partir de alta densidade e uso de solo
misto, uma superior eficiência energética por reduzir as distâncias dos trajetos,
maximizar a oferta de transporte público.
Jacobi (2013) concorda com Oliveira (2010), explicando que a cidade
fragmentada e espraiada provoca a degradação do meio ambiente urbano, pois
significa a dissolução do campo e da cidade. Ele cita que:
A fragmentação funcional da cidade provoca de maneira imediata a dissolução do campo, representa a efetiva desaparição de cidade e campo, reduz as comunidades rurais a urbanas, os bosques, a natureza. Transforma todos os cidadãos em potenciais e involuntários agentes de desperdício energético. (JACOBI, 2013, p. 16)
A cidade como um ecossistema complexo, tal desperdício energético
prejudica o meio ambiente ao passo que ele serve como material de base para a
sobrevivência urbana. Por exemplo: quanto mais longe os atores precisam
deslocar-se diariamente, maior o consumo de combustíveis fósdeslocar-seis e maior a propensão de
ocuparem áreas ambientais que estão próximas aos núcleos de trabalho com a
finalidade de moradia, entre outros resultados negativos para a meio urbano
(JACOBI, 2013). Acselrad (2010) explica que a cidade fragmentada provoca a
desqualificação social e a desqualificação ambiental paralelamente, pois o alto gasto
de energia causa aos atores insalubridade física e secciona o urbano em guetos
econômicos e culturais.
Quando o crescimento urbano não é acompanhado por investimentos em
infraestrutura e oferta de serviços urbanos, as mínimas condições saudáveis de vida
dentro das cidades não são atingidas. Acselrad (2010), Oliveira (2010) e Jacobi
(2013) concordam que a falta de investimentos no espaço urbano virá, por sua vez,
acentuar o déficit na oferta de serviços, o que resultará espacialmente na
segmentação socioterritorial entre populações com melhor qualidade de vida e
outras sem as mínimas condições de subsistência. Acselrad cita que:
A ideia de ambiente saudável, assim, aplicada às condições de reprodução da legitimidade é feito por meio das políticas urbanas. Fala-se da viabilidade política do crescimento urbano, ou seja, das condições de construção política da base material das cidades. O desequilíbrio entre necessidades quotidianas da população e os meios de as satisfazer, entre a demanda por serviços urbanos e os investimentos em redes e infraestrutura, causa baixa qualidade de vida urbana. (Acselrad, 2010, p. 43)
Nesse contexto, as políticas públicas são a forma eficaz de promover a
qualidade de vida urbana ambiental a partir dos investimentos geridos pelo Estado e
aplicados de acordo com as demandas solicitadas pelos atores populares.
Para Acselrad (2010), para a cidade atingir qualidade de vida urbana
ambiental, os atores envolvidos nas organizações referentes às demandas sociais
precisam mobilizar e motivar a sociedade para um caráter mais propositivo, cujo
resultado seja poder participar efetivamente nas discussões sobre o planejamento
urbano ambiental. Para o autor, cabe à sociedade questionar o Estado sobre
mecanismos e instrumentos legais para implementar políticas públicas pautadas
pelo binômio desenvolvimento urbano e preservação ambiental. Compete ainda aos
atores reivindicarem melhores condições de acesso e uso dos recursos naturais
(ACSELRAD, 2010).
Um dos principais desafios das cidades é, portanto, promover condições que
assegurem qualidade de vida aceitável sem impactar tão negativamente o meio
ambiente. A qualidade de vida urbana está primordialmente relacionada com os
recursos ambientais presentes na cidade. Sendo essa um metabolismo vivo, as
consequências de todos os atos promovidos pelos atores que nela habitam refletem
sistematicamente aos mesmos.
O desenvolvimento urbano aliado à preservação ambiental agrega valores
significativos à paisagem urbana. Cidades com massas vegetativas preservadas,
parques lineares nos entornos dos córregos da água, fauna e flora locais protegidas,
usam o potencial ambiental como chamariz de capital, seja pelo turismo ou por
investimentos da industrialização eco eficiente
20. Se o resultado do uso do potencial
ambiental atingir todos os atores da cidade, então o conceito de sustentabilidade
urbana será promovido. Quando os recursos ambientais forem compreendidos como
fonte essencial de vida para as cidades, então o potencial de qualidade de vida
urbana será atingido, não somente nos aspectos ambientais, mas também em todos
os aspectos sociais.
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20 Industrialização eco eficiente é o termo designado para a indústria que desenvolve produtos e
4 MORFOLOGIA URBANA: ESPAÇOS VERDES URBANOS
O meio urbano é a representação mais significativa de mudança de meio
ambiente pela ação antrópica, os recursos naturais são modificados de acordo com
as dinâmicas dos sistemas políticos e econômicos. A paisagem dos centros urbanos
não é formada pelas construções e vias, mas também por todo o sistema de
espaços verdes abertos. Nesse sentido, Lamas afirma que:
Do canteiro à árvore, ao jardim de bairro, ao grande parque urbano e às estruturas verdes, constituem também elementos identificáveis na estrutura urbana. Caracterizam a imagem da cidade; tem individualidade própria; desempenham funções precisas: são elementos de composição do desenho urbano, servem para organizar, definir e conter espaços. (LAMAS, 1993, p. 48)
É nos espaços verdes, também, que está a possibilidade de reestabelecer a
recomposição do equilíbrio ambiental e da urbanização. Lamas (1993) explica que
os espaços com vegetação dentro das cidades urbana promovem a melhoria da
qualidade de vida e o embelezamento da cidade.
Jacobi (2013) esclarece que as cidades geralmente estão cercadas por
cinturões verdes, contudo, essas áreas não atendem às necessidades de
abastecimento dos fluxos energéticos das áreas urbana. Segundo o autor, pouca ou
nenhuma matéria orgânica é exportada das massas vegetativas das áreas rurais
para as áreas urbanas. As áreas verdes nas cidades, nesse sentido, são
mecanismos mitigadores da urbanização, funcionam como atenuantes de extremos
de temperatura, redutores de ruído e habitat para animais que vivem nas cidades,
além de apresentarem grande potencial para recreação urbana na forma de parques
e praças. Nesse contexto, constituem-se elementos imprescindíveis para o
bem-estar da população e para o desenvolvimento da qualidade de vida urbana (JACOBI,
2013).
As áreas verdes urbanas são construídas a partir de áreas de preservação no
entorno dos rios, lagos e lagoas, áreas remanescentes da urbanização
21e áreas
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21 Locais onde a urbanização não foi possível: locais com declive acentuado, terrenos alagadiços e
sujeitos a inundações, espaços onde as condições geológicas não aconselham a edificação e em áreas de preservação ecológica.
doadas ao município nos parcelamentos de solo. Loboda (2003) afirma que as áreas
verdes são constituídas para e pela sociedade, “imbuídas de símbolos e significados
das atividades humanas e representando a dimensão cultural e histórica da cidade,
ou seja, apropriação da natureza, atribuindo-lhe uma multiplicidade de funções e
usos (LOBODA, 2003, p. 27).
Contudo, grande parte da população não compreende a relevância das
massas vegetativas como fator de equilíbrio entre cidade e meio ambiente. A cultura
social de apropriação dos espaços da cidade ainda desfruta das áreas verdes como
meros locais de lazer ou espaços abandonados na malha urbana, sem, no entanto,
compreender o real potencial desses locais para a cidade.
Dentre as funções das áreas verdes para o meio urbano, Loboda (2003)
destaca três principais:
As contribuições ecológicas ocorrem na medida em que os elementos naturais que compõem esses espaços minimizam tais impactos decorrentes da industrialização. A função estética está pautada, principalmente, no papel de integração entre os espaços construídos e os destinados à circulação. A função social está diretamente relacionada à oferta de espaços para o lazer da população. (LOBODA, 2003, p. 28)
Nesse sentido, o papel desempenhado pelas áreas verdes urbanas é
fundamental, ao passo que aproxima, por meio das suas condições ecológicas, a
cidade do meio ambiente (LOBODA, 2003).
Nucci (2008) concorda com Loboda (2003), explicando que as áreas verdes
urbanas são de primordial importância para a estruturação das cidades. Segundo
Nucci (2008), as massas vegetativas urbanas interagem com os aspectos físicos e
mentais dos indivíduos. Loboda (2003) destaca os seguintes benefícios
proporcionados pelas áreas verdes urbanas:
Composição atmosférica urbana:
· Redução da poluição por meio de processos de oxigenação, introdução de excesso de oxigênio na atmosfera;
· Purificação do ar por depuração bacteriana e de outros microrganismos; · Ação purificadora por reciclagem de gases em processos fotossintéticos; · Ação purificadora por fixação de gases tóxicos;
· Ação purificadora por fixação de poeiras e materiais residuais. Equilíbrio solo-clima-vegetação:
· Luminosidade e temperatura: a vegetação, ao filtrar a radiação solar, suaviza as temperaturas extremas;
· Enriquecimento da umidade por meio da transpiração da fito massa (300/450 ml de água/metro quadrado de área);
· Umidade e temperatura: a vegetação contribui para conservar a umidade dos solos, atenuando sua temperatura;
· Redução na velocidade dos ventos;
· Mantém a permeabilidade e a fertilidade do solo;
· Embora somente parte da pluviosidade precipitada possa ser interceptada e retida pela vegetação em ambientes urbanos, está diminui o escoamento superficial de áreas impermeabilizadas;
· Abrigo à fauna existente; · Influência no balanço hídrico. Atenuante dos níveis de ruído:
· Amortecimento dos ruídos de fundo sonoro contínuo e descontínuo de caráter estridente, ocorrente nas grandes cidades.
Melhoria da estética urbana:
· Transmite bem-estar psicológico, em calçadas e passeios;
· Quebra da monotonia da paisagem das cidades, causada pelos grandes complexos de edificações;
· Valorização visual e ornamental do espaço urbano;
·
Caracterização e sinalização de espaços, constituindo-se em um elementode interação entre as atividades humanas e o meio ambiente. (LOBODA, 2003, p. 33)
Além de todas essas contribuições, os autores Jacobi (2013), Loboda (2003)
e Nucci (2008) concordam que as áreas verdes atuam como indicador de qualidade
de vida das cidades. São potenciais espaços de lazer e recreação dos atores
sociais, além de locais de convívio social e de manifestação da vida comunitária
urbana.
Nucci (2008) e Loboda (2003) entendem, ao conceituar as áreas verdes
urbanas como locais onde existe o predomínio de vegetação arbórea em meio à
malha urbana que essas fazem parte do complexo de espaço livre urbano. Loboda
(2003) apud Llardent (1982, p. 151) explica tal conceito da seguinte forma:
· Sistemas de espaços livres: conjunto de espaços urbanos ao ar livre
destinados ao pedestre para o descanso, o passeio, a prática esportiva e, em geral, o recreio e entretenimento em sua hora de ócio.
· Espaço livre: quaisquer das distintas áreas verdes que formam o
sistema de espaços livres.
· Zonas verdes, espaços verdes, áreas verdes, equipamento verde:
qualquer espaço livre no qual predominam as áreas plantadas de vegetação, correspondendo, em geral, o que se conhece como parques, jardins ou praças. (LOBODA, 2003, p. 34)