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Criada a partir do trabalho permanente de diferentes homens, a cidade desafia a natureza, construída a partir do processo de sedentarização do homem, a cidade é o lugar da imaginação, do movimento, da expansão e da vida social. Nas cidades encontramos os templos do poder, onde moram os deuses que podem assegurar o domínio sobre o território e a gestão da vida coletiva. Caracterizada como centro e expansão de domínio sobre um território, sendo a sede do poder e lugar onde são produzidos mitos e símbolos, a ci dade contemporânea é aberta:

Certo, não há mais muralhas; ao contrário da cidade antiga, a metrópole contemporânea se estende ao infinito, não

circunscreve nada senão sua potência devoradora de

expansão e circulação. Ao contrário da cidade antiga, fechada e vigiada para defender-se de inimigos internos e externos, a cidade contemporânea se caracteriza pela velocidade da circulação. São fluxos de mercadorias, pessoas e capital em ritmo cada vez mais acelerado, rompendo barreiras, subjugando territórios. (ROLNIK, 2009; pg. 8-9)

A própria cidade é capaz de contar sua história, a partir de sua arquitetura podemos identificar características específicas dos processos de urbanização. Como se fosse uma escrita, a cidade vai delineando com seus caminhos, seus centros, suas casas, suas ruas e avenidas, o registro de etapas marcantes para que se configure da maneira como as conhecemos.

Com a intensa expansão da vida de forma coletiva, surge um poder público, um centro de autoridade política e administrativa que geste a organização da vida pública nas cidades. Um centro de poder que crie regulamentos, que estabeleça uma determinada ordem na cidade, regulando fluxos, comportamentos e produtividade.

Vivemos numa sociedade de controle, cercados por dispositivos que monitoram nossas palavras, nossas ações, nosso comportamento de forma geral. Vivemos controlados, o tempo inteiro, programados para servir ao Estado e ao, dito, bem comum. Com o crescimento demográfico descontrolado, trouxe uma nova forma de poder sobre a sociedade, um poder sobre a vida, que regulamenta e assegura as necessidades e processos biológicos, sociais e

econômicos do homem. Um poder de “fazer-viver”, um “bio-poder” (FOUCAULT, 2005).

Além do poder sobre a vida, agem nas sociedades os poderes ligados ao consumo. A publicidade é quem faz quem nós somos, se vive, hoje, a maior parte do tempo em frente das telas, de televisão, de computadores e de celulares, onde a informação transmitida está em poder das classes dominantes, de grandes empresários. Desta forma, já não somos controlado apenas para servirmos e produzirmos, nem apenas estão asseguradas algumas de nossas necessidades biológicas. A sociedade contemporânea vive controlada pelos seus prazeres, pelo seu consumo, pelas propagandas, dentro de uma ditadura consumista, a ditadura do capital. Com esse desejo de consumo quase descontrolado, não restam espaços e tempos na vida social, para experimentar sensações novas. Vivemos para trabalhar e consumir, já não se vive para viver.

Em uma sociedade pós-industrial do consumismo, também não há espaço para a solidificação, para padrões únicos, existem diversos padrões, diversas ideias, vive-se uma modernidade líquida. A oposição entre o mundo sólido e o mundo líquido é a base do pensamento de Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. Segundo ele, houve um período em que os conceitos eram sólidos, e as ideologias, as relações e blocos fechados de pensamento regiam as ações, a interação entre as pessoas e moldavam a realidade. A pós- modernidade ou contemporaneidade trouxe a fluidez do líquido, a diluição das verdades, das crenças, das certezas e das práticas. Ignorando barreiras, divisões ou fronteiras.

Vivemos esse momento de transformação, estamos no meio de um turbilhão, frente a um processo de modificação dos ambientes e das relações. Essas mudanças são decorrentes deste momento que estamos vivendo, do momento do agora, a contemporaneidade. Para Giorgio Agamben (2009), o contemporâneo, é o momento que faz gerar uma relação única com o próprio tempo, aderindo a ele e também se distanciando dele. A contemporaneidade viveria na brecha existente entre as dicotomias mundanas, entre o que é individual e o que é coletivo, entre o dentro e o fora, entre o sagrado e o profano, entre o público e o privado.

Momento contaminado de contraposições, que se entrepõem, fazendo burlar a rigidez da vida nas cidades. A cidade é o lugar onde pode se perceber as contradições cotidianas, as diferenças entre lugares públicos e lugares

privados, onde existem leis e poderes que determinam formas de relações e uso dos espaços urbanos, onde se engarrafam modos de viver, aí que está o contemporâneo. Contemporâneo é aquele que enxerga não as luzes, mas a escuridão de seu tempo, que enxerga o que estaria escondido, o que querem esconder.

A cidade na contemporaneidade deveria ser o lugar das heterogeneidades, deveria ser o espaço da diversidade, do tudo e de todos. Esses ambientes de pluralidades, de encontros e confrontos de fluxos e forças, que se manifestam de formas singulares e que se afetam em meio a este grande centro. Cidades que são habitadas por pessoas distintas, com vidas diversificadas, que estão sempre em construção acelerada. Quem vive nas cidades atuais, enfrenta o aumento e as transformações de seu habitat diariamente. Cada cidade têm sua história, sua formação e seus períodos políticos, econômicos, sociais e culturais. Juntamente com seus processos, ela mesma se processa e se modifica, seus centros podem mudar de lugar, seus prédios podem adotar novas funcionalidades, seus bairros podem aumentar, suas vidas podem se transformar, porque os espaços variam, contornam outros espaços e passam a gerar outros encontros:

Lugar da mescla e diversificação, a cidade contemporânea é por natureza instável; sede de mudanças contínuas que

provocam formação de situações críticas e soluções

transitórias dos problemas: casas que viram fábricas, fábricas que se transformam em teatros, escolas que viram casas, jardins que se tornam parques, ruas tranquilas que viram eixos de tráfego intenso. (SECCHI, 2006; p. 91)

A cidade na contemporaneidade é aquela que se transforma, que transmuta, se diversifica. São cidades genéricas: criadas para os veículos, com calçadas construídas apenas para servirem como locais de passada, de fluxo. Isso, porque a vida nessas cidades acontece de forma acelerada. Vivemos conectados por redes: invisíveis, indefinidas, rizomáticas. Estamos sempre conectados nas redes sociais, não precisamos mais do espaço público para nos encontrar, nos encontramos virtualmente. Vivemos, assim, a era da tecnologia, nos conectamos e comunicamos em frente a câmeras e telas que cabem na palma das mãos. A internet nos aproxima, podemos conhecer lugares, pessoas, filmes, jogos, shows, conferências, palestras, entre outros, sem sairmos do conforto de nossas casas. Tudo isso em tempo real, no exato momento em que acontece. Vivemos cada vez mais cercados, no entanto,

cada vez mais solitários e individualistas. De certa forma, parece que não conseguimos viver fora do computador. Somos escravos da tecnologia.

Para Bernardo Secchi (2006), as relações afetivas e de trabalho mudam. Seja devido aos novos meios de transporte, de comunicação e de acesso a informação, que conseguem proporcionar uma emancipação espacial e temporal. Com vantagens por meio da internet, por exemplo, que muitos conseguem acessar de suas residências, e que facilitam a realização de trabalhos e trazem conforto a quem dela se utiliza, podendo, hoje, qualquer pessoa trabalhar na sua casa, no momento que lhe for propicio. Estas tecnologias acarretam inclusive mudanças nas relações familiares, entre amigos e colegas de trabalho.

Mas a cidade não é apenas isso, ou pelo menos não deveria ser. A cidade é viva também, nela podemos conhecer, nos encontrar, não só aos outros, mas um pouco de nós mesmos. E até, podemos pensar que a maioria dos espaços da cidade tem, desde o seu planejamento, qual será sua ocupação e atividades programadas, ou que possuíram um funcionamento em determinado período do dia e da vida cotidiana, mas, em outros momentos, estes espaços podem perder o sentido para as pessoas e tornarem-se espaços vazios, (des)potencializados. Centros comerciais, centros históricos, zonas residências, escolas, museus, são locais da cidade que possuem uma vida controlada, programada, superlotados em determinadas horas, esvaziadas de sentido em outras. Mas a cidade não é apenas isso:

A essência das cidades não reside apenas nos fatores funcionais, produtivos ou tecnocráticos. As cidades são feitas de diversos materiais, entre eles a representação, os símbolos, a memória, os desejos e os sonhos. É a superposição contínua de diversos níveis (ou áreas), o que estrutura toda a cidade, reino da diversidade e da pluralidade, fenômeno que não pode se interpretar de maneira única. (MONTAGNER, 2003, p. 169)

Para que estejam vivas, as cidades precisam de vida. Não podemos pensar que somente utilizaremos a cidade funcionalmente. Precisamos apropriarmo-nos de seus espaços, usarmos, abusarmos, sentarmos, sentirmos, abraçarmos, viver (n)os espaços da cidade. É preciso vivenciar a cidade, fugindo da passividade que se instaura nas cidades de hoje. Cidades que são criadas por sistemas que moldam de forma racional as sociedades, através de diretrizes e ações que não dialogam com as pessoas que vivem nas cidades. Precisamos experimentar diferentes caminhos, visitarmos diferentes lugares,

andarmos nas zonas onde não estamos acostumados a andar, sairmos de uma zona de conforto, à qual estamos habituados, e deixarmo-nos levar pela experiência, pela intuição, pela sensação.

A experiência urbana, que pode dar-se nos mais diversos lugares, em espaços onde podemos compartilhar, onde podemos criar sentidos, onde percebemos os movimentos de transformações, onde nos encontramos com as diferenças, onde imprimimos nossas sensações, nossos estados, nossos questionamentos, nossas incertezas, nossa força de existir.

A partir disso, podemos entender que a relação do espaço da cidade com as pessoas que vivem nela é uma questão determinante para a construção das cidades na contemporaneidade. Pensar sobre o que as pessoas sentem necessidade na cidade, por quais ruas elas gostam de andar, onde gostam de sentar, onde gostam de se encontrar, onde gostam de trabalhar, estudar ou morar, e que, de fato, elas têm essas necessidades, que estes espaços não são enfeites de uma cidade.

A potência de pensar a relação da cidade com o tempo e espaço de forma integrada, observar o que se passa nos lugares em determinados momentos e o que nos passam esses lugares, o que não se repete. O efeito de determinados encontros, o nível de envolvimento que nos permitimos embarcar, com os acontecimentos, com os eventos. Não podemos viver em bolhas interligadas por linhas que servem para nos levar de um lado para outro. Esse fator é determinante para possibilitar a criação de novos modos de apropriação efetivas dos espaços, bem como para as condições de (des)condicionamentos dos corpos nessa cidade.

Muitas vezes, sentimos a necessidade de apropriação dos espaços, mas, talvez porque vivemos de maneira acelerada, muitos dos lugares da cidade que vivemos, nós apenas passamos. Muitas mudanças sucedem, mas a maioria delas nós não nos deixamos perceber, afinal, estamos muito ocupados para notarmos a vida da cidade que pulsa a nossa volta.

As paisagens se modificam, os usos se atualizam, as formas e os conteúdos estão sempre em processo. Sem a experiência, a experimentação da cidade, essa acaba por padecer, como um cenário de uma peça de teatro, que ensaiamos cotidianamente e que nunca a estreamos, onde os movimentos foram se tornando tão automáticos, tão acelerados, que a própria vida vai perdendo o sentido, onde nos tornamos cada vez menos sensíveis.

Jane Jacobs, jornalista e ativista política, em 1961, escreve um livro falando quais ruas são seguras para os moradores dos bairros, ou não, porque alguns lugares da cidade são mais convidativos que outros lugares, quais as funções dos centros, dos bairros, o que faz com que estes, às vezes, locomovam-se e transformem a vida de determinados lugares, de pessoas, dos fluxos.

Compondo o cotidiano de grandes cidades norte-americanas, das coisas simples do dia-a-dia, situações corriqueiras que muitas vezes, talvez nem percebamos, mas fazem toda a diferença para mudar a nossa rotina, o nosso percurso, nossas relações. Identificar as razões da violência, da sujeira e do abandono, ou, ao contrário, da boa manutenção, da segurança e da qualidade de vida de lugares que constituíam a cena real das cidades, contrapondo-se aos métodos utilizados por planejadores e seus modelos urbanos ideais. Criar de fato, cidades para as pessoas que vivem nelas, para os que fazem a engrenagem girar, não somente para quem anda de carro, não trabalha ou não vive o dia-a-dia daquela cidade. Não existe uma fórmula pronta, talvez, cheguemos perto de uma construção ideal e coletiva, somente com a participação ativa desses pequenos grandes grupos de usuários das cidades no planejamento, gerenciamento e construção das cidades.

Para Jacobs, as cidades são como um imenso laboratório de tentativa e erro, fracasso e sucesso, em termos de construção e desenho urbano. Nem tudo é previsível, muitas vezes aquilo que se estuda por anos em uma universidade não condiz com a realidade das cidades, seu funcionamento na prática. Pode ser mais fácil atender as necessidades dos automóveis do que as complexas necessidades das cidades, e:

Um número crescente de urbanistas e projetistas acabou acreditando que, se conseguirem solucionar os problemas de trânsito, terão solucionado o maior problema das cidades. As cidades apresentam preocupações econômicas e sociais muito mais complicadas do que o trânsito de automóveis. (JACOBS, 1961, p. 6)

Jan Ghel, arquiteto e urbanista dinamarquês, nos fala sobre o planejamento das cidades, e abre a brecha que existe ao se pensar primeiro nas formas de um edifício, na cidade vista do avião, e se esquecer da vida urbana. Para ele, sabe-se tudo sobre veículos e nada sobre pessoas, em seu livro “Cidade para pessoas”, ele nos fala que o urbanismo esteve por anos

trabalhando para que as pessoas ficassem sentadas, e salienta que as cidades de hoje precisam ser parceiras da saúde das pessoas, precisam de espaços planejados para o lazer, para a interação social, as cidades já não precisam somente de novas avenidas, novos viadutos, novos condomínios residenciais, e grandes construções para empresas, as cidades atuais precisam novas praças, parques, locais de lazer, recreativos, de esportes, culturais, espaços para novos encontros. É necessário projetar para o bem estar social.

Tudo pode funcionar como um jogo de dar luz e esconder, nele a cidade acaba por absorver tudo o que venha a trabalhar como signo, de forma durável ou fugaz, pela conservação ou pela fluidez do território urbano. Os princípios organizativos de tal ordem estabelecem códigos de apresentação que decidem quem toma parte nesse regime de signos, e, numa organização cada vez mais racional, tanto da configuração arquitetônica quanto das práticas urbanas, se espera chegar ao ponto em que a própria cidade se reflita num objeto (JEUDY, 2005, p.).

Em meio a esta vida desordenada das cidades, cada vez mais rígidas, o museu pode ser um lugar de desaceleração. Talvez, ele possa ajudar na criação de estratégias para fugir dessa frieza da vida na contemporaneidade. O museu pode ser aquele lugar que nos faz sentir, que nos faz encontrar com o outro, com identidades e diferenças. O museu é uma heterotopia (FOUCAULT, 1967) da cidade na contemporaneidade, são lugares que podem funcionar em condições não hegemônicas, criando múltiplas camadas de significação e de relação com outros tempos e lugares. Os museus podem funcionar como contra sítios dentro da cidade, espaços onde todos os sítios desta sociedade podem ser encontrados, em que podem estar representados, contestados e invertidos. Eles podem ter uma função relacionada ao espaço ao redor de si, seja criando um espaço ilusório que espelha todos os outros espaços reais em que a vida é compartilhada, ou podem ainda, criar um outro espaço real, tão perfeito e organizado, em desconformidade com os espaços da cidade, desarrumados, com um planejamento voltado para uma aceleração no movimento pela cidade.

A palavra museu é derivada do grego: Mouseion, que era o nome dado ao templo construído em Atenas, para homenagear as Musas das Ciências e das Artes, filhas de Mnemósyne, que representa a memória e Zeus, representa o poder. As musas eram nove, cada uma estava relacionada com um

conhecimento: Calíope representava a poesia, Clio a história, Polimnia a pantomima, Euterpe a música, Terpsicore a dança e poesia musicada, Érata a lírica, Melpómene a tragédia, Tália a comédia e Urânia a astronomia.

O Mouseion era um espaço que se relacionava diretamente com a vida da cidade e dos seus habitantes, um lugar ritualístico, de adoração, onde algumas pessoas deixavam oferendas como forma de agradecimento aos deuses. Estes objetos foram acumulando e, alguns viajantes, passaram a visitar esse templo para olhar estes objetos. No século II a.C., o Mouseion, também denominava um conjunto de edifícios construído em Alexandria, que abrigavam uma biblioteca, um anfiteatro, um jardim botânico, uma coleção zoológica, um observatório, além de salas de estudo e trabalho.

Para Varine-Bohan (1979, p. 17), a origem do museu está ligada a duas instituições: a Pinakotheke, que era o lugar onde estavam conservados os estandartes, quadros, tábuas, obras de arte antiga, e o Mouseion, era onde se guardavam os conhecimentos da humanidade.

Figura 4 Mouseion, templo das musas, em Atenas. Fonte da internet. Disponível em: <http://umabrasileiranagrecia.com/2015/05/monte-das-musas-em-atenas.html>. Acesso em Abril de 2015.

A instituição museu, que conhecemos hoje, teve como estopim o fenômeno do colecionismo europeu dos séculos XVI e XVII. Desde o renascimento as coleções causaram roubos de tesouros e saques a monumentos da antiguidade clássica. Com a expansão ao novo mundo, investiu- se fortunas para exploração das colônias e realização de expedições para coleta de materiais e estudos a respeito de tudo aquilo que não se conhecia até então.

A curiosidade pelas terras além-mar, pela raridade, pelos objetos coletados nas expedições, motivava diversos poderosos ao acúmulo de materiais estranhos ao seu cotidiano. O que enchia os olhos dava orgulho a quem possuía. Por detrás do gosto pelas peças, várias outras motivações merecem ser levadas em conta: existe uma ideia de que saber implica poder. Possuir coleções significaria ter conhecimento, mas também, significaria ter poder:

Figura 5 Mouseion, Alexandria, aprox. II a.C. Fonte da internet. Disponível em: <http://www.link2universe.net/2013-10-09/la-grande-biblioteca-di-alessandria-distrutta-

Vaguear pelo mundo, comprando objetos aqui, vendendo acolá. Fazer comércio de peças ou de coleções completas, como profissão. Saquear até. Ser naturalista com formação adquirida no gabinete, observando espécimes, colectados e preservados sistematicamente. Partir mar, terra e rios dentro, integrado numa expedição científica, com muito ambiente de aventura no ar. Espiar casos na delimitação de limites e fronteiras, tão necessários à segurança dos impérios modernos. Sem grande dificuldade, nem ambiguidade, estas cinco situações têm podido coexistir numa mesma pessoa. (JANEIRA, PINTO, 2005, p. 59).

[…] ostentação enquanto uma forma prática de efetivar o que de simbólico tem a posse de algo raro, desejado e invejado. Muito do colecionismo passa por este jogo de encenação de saber em que assenta a coleção de tudo o que possa ser uma mais valia pública na esfera da gestão dos poderes muitas vezes privados dos grandes salões de sociedade. (JANEIRA, PINTO, 2005, p. 70).

Estas coleções recebiam o nome de Gabinetes de Curiosidade, e ocupavam móveis dos palácios e até mesmo salas gigantescas e eram sustentadas por príncipes e casas reais, artistas ou ricos burgueses. Elas tinham um caráter enciclopédico, e podiam ser encontrados objetos diversos ali, objetos raros, exóticos, estranhos à cultura europeia da época, bem como obras de arte de grandes pintores, muitas vezes contratados para pintar, para que os detentores das mesmas e seus convidados pudessem admirá-las. Podemos compreender que elas foram organizadas por pretensões estético- culturais e tinham a diversidade como elemento característico.

Figura 6 Primeira ilustração de um gabinete de curiosidades, por Ferrante Imperato em Dell'Historia Naturale, Nápoles, 1599. Fonte da internet. Disponível em: <http://www.gluon.com.br/blog/2009/01gabinetes-de-curiosidades>. Acesso em Abril de

Não existiam métodos para documentação nem para disposição dos objetos nesses locais, eram quadros, conchas, armas, estatuetas, animais, plantas, todos espalhados, sem menor ordem. Essas coleções traziam a ideia