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A clivagem objetal e a depressividade no borderline

CAPÍTULO I TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE:

2.1 A psicopatologia psicanalítica do borderline

2.1.2 Os pós-freudianos e a caracterização do borderline

2.1.3.1 A clivagem objetal e a depressividade no borderline

Autores como Freud (2006/1915), Ferenczi (1932, citado por Laplanche & Pontalis, 2001), Bergeret (1998), Dion (2005) e Hegenberg (2005) relacionaram o trauma precoce com a depressividade do sujeito e os afetos como reações defensivas. Os três últimos autores identificam o trauma como causador da clivagem objetal, que produziria a depressividade do borderline.

Freud (citado por Laplanche e Pontalis, 2001, p. 9 ) definiu o afeto como a “tradução subjetiva da quantidade de energia pulsional”. Para Freud, os afetos podem estar ligados à representação, e a separação afeto/representação garante, a cada afeto, diversas possibilidades

de transposição afetivas, tais como: conversão dos afetos (histeria de conversão); deslocamento do afeto (obsessão); transformação do afeto (neurose de angústia, melancolia).

De acordo com Freud (2006/1915), o afeto depressivo e a instalação da sensibilidade depressiva nasceriam do sentimento de perda do objeto ou de aspectos dele e da resignação diante dessa perda, pois a criança é incapaz de restaurar esse objeto dentro de si. Já a melancolia, segundo Freud, seria a impossibilidade eterna de o indivíduo fazer luto do objeto perdido, que vive à sombra do seu ego.

Freud (citado por Rodrigues, 2008) conceituou a melancolia como um quadro específico e psicótico, no qual a mania não é condição necessária a seu estabelecimento. A melancolia se caracteriza, psiquicamente,

por ser um estado de ânimo profundamente doloroso, cessação do interesse pelo mundo exterior, perda da capacidade de amar, inibição de todas as funções e diminuição do amor próprio. Esta última traduz-se por auto-recriminações e auto- acusações e podem, inclusive, chegar a uma espera delirante de castigo (p. 11).

Freud também não associava a mania à depressão, como na loucura maníaco- depressiva de Kraepelin, e defendia que a depressão seria um destino subjetivo que poderia acometer qualquer ser humano (Roudinesco e Plon, 1998). No texto “Luto e Melancolia”, de 1917, Freud (2006) concluiu que a melancolia seria a forma patológica do luto e estabeleceu algumas diferenças entre ela e outros fenômenos psiquiátricos. Explicou que, enquanto no luto, o sujeito desliga-se progressivamente do objeto perdido, na melancolia, o eu se identifica com o objeto perdido e se perde no desespero infinito de um nada irremediável. Isso levaria à impossibilidade eterna de o sujeito fazer o luto do objeto perdido. Pode-se dizer que: no luto, há o desinvestimento do objeto perdido, a restauração e o investimento em um novo objeto; na depressão, ocorre a perda não restaurada do objeto e a permanência do afeto e da sensibilidade depressiva; na melancolia, há uma regressão mais anterior, na passagem do regime narcísico para o objetal, com conseqüente ódio transposto ao eu, que fica sujeito aos ataques do supereu. Na depressão, a perda do objeto recai sobre o ideal de eu, enquanto na

melancolia, recai sobre o eu ideal. Comparativamente, pode-se dizer que, para a Psicanálise, o luto é o trabalho elaborativo da perda objetal, a depressão é a patologia do luto, e a melancolia é o sentimento desse.

Bergeret (1998) esclareceu que, na linguagem melancólica, o indivíduo procura o caminho do afeto perdido e introjetado; na excitação (mania), a linguagem é acelerada, rica, imprecisa; na depressão, a linguagem é lentificada, pobre. Para esse autor, a estrutura melancólica estaria à parte das psicoses, e a melancolia não deve ser relacionada com as reações depressivas ou hipomaníacas do quadro maníaco-depressivo. A depressividade crônica dos estados limítrofes está associada à angústia de perda do objeto anaclítico, a qual reportaria o indivíduo à angústia da separação sofrida, em fases precoces do desenvolvimento psicossexual e conseqüente desamparo. Ele explicou que a depressividade dos estados-limite fica latente e se manifesta na primeira ameaça de ausência do objeto anaclítico, a qual traria a percepção do aniquilamento do sujeito em estado-limite.

Hegenberg (2005) indicou que, muitas vezes, o borderline é confundido com quadros hipomaníaco ou maníaco, em virtude de mostrar-se acelerado, eufórico, por se sentir amado, apaixonado por alguém ou por alguma idéia. Da mesma forma, a depressão do borderline não é constante por semanas e meses, como o episódio depressivo maior, pois depende das reações do objeto anaclítico e, geralmente, dura horas ou dias, acabando com o apoio esperado, não sendo preciso medicá-lo como no caso da depressão endógena ou outras.

Hegenberg (2005) escreveu que a depressão do borderline está ligada ao vazio, ao tédio. O paciente borderline não teria uma depressão de base e sim uma depressividade causada por um vazio existencial, pela falta de sentido e de objetivos de vida. Não há o ódio do melancólico voltado para si ou o luto pelo objeto perdido do depressivo, mas sim, o tédio, pela inutilidade existencial.

Segundo Bergeret (1998), o estado-limite luta contra a angústia subjacente, a angústia da depressão que ocorre quando o sujeito sente que o objeto anaclítico vai escapar. A angústia de perder esse objeto leva-o à depressão. Lembrar o passado infeliz, remetendo-o a um vazio existencial já vivido (quando o estado limítrofe acredita que o investimento numa relação com o outro é a salvação para preencher seu vazio existencial), é aniquilá-lo. De acordo com esse autor, a depressão melancólica difere da depressão do estado limítrofe, porque nessa última, em fases precoces, o objeto perdido não foi introjetado no ego do indivíduo. A mania e/ou hipomania seriam defesas “encobridoras” da falha narcísica, como reação contra a depressão. O caráter hipomaníaco seria o momento caracterial de um sofrimento menos elaborado que o caráter depressivo.

Hegenberg (2005) mostrou que o borderline, a depender das circunstâncias, pode passar de deprimido a maníaco, rapidamente e por tempo breve, não podendo por isso ser incluído nos portadores de transtorno depressivo maior ou bipolares. Os sintomas maníacos- depressivos do borderline não são estrutrurais, mas estados transitórios de humor/afeto relacionados ao ambiente.

Em virtude de a depressão estar ligada a outras patologias psíquicas como o TPB e o TEBH, faz-se necessário discutir os aspectos psicodinâmicos e psicopatológicos dessa personalidade, com a finalidade de evidenciar características relacionadas com uma e outra abordagens.