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PERNAMBUCO E AS DEVASSAS

2.1. A Coleção Documentos Históricos

O historiador interessado na investigação dos acontecimentos políticos ocorridos na Capitania de Pernambuco no decorrer do ano de 1817 há de se deparar, inevitavelmente, com os volumes finais da Coleção Documentos Históricos da

Biblioteca Nacional. Nestes nove tomos (CI ao CIX), publicados entre 1953 e 1955, foi

reproduzida a maior parte da documentação relacionada às devassas que o governo monárquico abriu na averiguação da rebelião, além das defesas que constituem o objeto central de análise desta pesquisa. Além destes volumes, o tomo CX possui a documentação referente a uma suposta conspiração contra o rei que ocorrera na capitania durante o ano de 1801, denominada à época a “Conspiração dos Suassuna”. A ordem dos volumes revela a percepção teológica guardada pela historiografia ao tempo, em que se afirmava uma íntima ligação entre as implicações do início do Oitocentos e Dezessete.

Na organização desses volumes, assim como de todos os outros referentes à história de nosso período colonial, o historiador José Honório Rodrigues (então diretor da divisão de obras raras e publicações da BN) teve uma importância fundamental, levando a cabo um trabalho que se iniciou em 1928, principalmente a partir do seu

- 58 - quarto volume, quando a série Documentos Históricos passou a ser editada pela Biblioteca Nacional164. Com base em sua profunda erudição documental, fruto de décadas de trabalho nestes arquivos, José Honório ainda deixou, nos últimos dez volumes da coleção, prefácios explicativos sobre a importância das fontes que ali se encontravam para o estudo da “revolução pernambucana”, da história política e da vida cotidiana da parte americana do Reino Unido e da formação da “consciência nacional”. Embora o afã de encontrar a nacionalidade nos movimentos de contestação política a partir do final do Setecentos nos soe datada, as relações que José Honório empreendeu em suas “explicações” ainda nos fornecem interessantes insights para o estudo do período.

Devido à centralidade da documentação dos referidos nove volumes dos D.H na construção do segundo e terceiro capítulo deste trabalho, julgamos necessário fazer uma breve apreciação da estrutura e organização dos tomos, com o objetivo de tornar compreensível a forma como utilizamos essas fontes na construção de nosso objeto.

Todos os nove volumes, segundo informação de José Honório Rodrigues no primeiro dos nove volumes, foram compostos pelos documentos registrados no

Catálogo de Manuscritos sobre Pernambuco existentes na Biblioteca Nacional165. O tomo CI é composto em sua maior parte por Proclamações, Decretos, Editais, Cartas, Patentes e outros documentos produzidos durante a rebelião nas capitanias de Pernambuco e Paraíba; em número bem menor, também existem documentos relacionados à rebelião nas Alagoas e no Ceará, ordens e proclamações das forças realistas e cartas narrando acontecimentos da época da rebelião.

Os volumes CII e CIII possuem um maior número de documentos referentes aos primeiros tempos após a restauração das forças realistas e as primeiras providências e ações da devassa, como remessas e autuações de documentos, relações de réus, e autos de perguntas, sendo o primeiro desses tomos mais caracterizado por documentos de Pernambuco e o segundo por papéis produzidos na Paraíba. Devido ao fato da rebelião ter se manifestado com mais intensidade nessas capitanias, existe uma maior presença

164 Os três primeiros volumes foram editados pelo Arquivo Nacional. Ref. Lúcia GASPAR e Virgínia

BARBOSA, Documentos Históricos (Biblioteca Nacional): Índice (v.1 ao v.110), disponível em http://www.fundaj.gov.br/geral/pesquisa%20escolar/documentacao%20historica%20bn.pdf, acesso em 05/02/2012.

165 José Honório RODRIGUES, Explicação, Coleção Documentos Históricos da Biblioteca Nacional, Rio

de Janeiro, Divisão de Obras Raras e Publicações da Biblioteca Nacional/MEC, 1953, p. VI. [Doravante, referiremo-nos a esta coleção por DH, seguido do volume e páginas utilizadas.]

- 59 - de documentos relativos a elas, tanto no que se refere à rebelião quanto a repressão e posterior devassa

Os volumes CIV e CV são predominantemente compostos pela correspondência e atos dos representantes régios em Pernambuco, nos quais destacam-se o significativo volume de cartas remetidas pelo governador da capitania Luiz do Rego e o presidente do Tribunal da Alçada Bernardo Teixeira, além de diversas relações de réus, algumas justificações e defesas de réus. Assim como os dois anteriores, estes tomos também possuem documentos esparsos relativos às ações do governo rebelde.

O volume VI contém algumas defesas produzidas pelos advogados da Bahia e a Defesa Geral, principal documento escrito por Antônio Luiz de Brito Aragão e Vasconcelos, que analisaremos com acuidade no capítulo terceiro; além de uma extensa relação dos réus, com as relativas acusações e síntese das justificações, produzida também pelo advogado baiano. O volume CVII possui certidões e cartas esparsas, não se atendo a nenhum período específico da rebelião e repressão; além dos autos da devassa instaurada da Vila do Limoeiro e um documento intitulado Memórias da

Revolução de Pernambuco, tratando-se de cartas escritas por um espião no Recife sem

destinatário específico, nas quais dava notícias sobre a situação da cidade entre janeiro e março de 1818, ressaltando aspectos da vida cotidiana de suma importância na compreensão daquela realidade social. Por último, os volumes CVIII e CIX são constituídos em sua quase totalidade pelas defesas produzidas pelos advogados da Bahia.

Devido à atenção voltada neste capítulo ao processo jurídico sobre a rebelião, aproveitamos com mais intensidade as fontes relativas ao andamento das devassas, como as nomeações dos representantes do rei na capitania, as correspondências entre as autoridades régias, os decretos e avisos régios que legislavam sobre os procedimentos da devassa. No mais, aproveitamos aqueles documentos que iluminavam os aspectos sociais, políticos e culturais da realidade histórica estudada, principalmente aqueles que nos auxiliaram a compreender a representação jurídica dos eventos produzida pelas devassas.

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