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A COMPLEXIDADE DO ALIMENTO – INTERSECÇÕES E DEFINIÇÕES

No documento Design bites (páginas 101-104)

CAPÍTULO 2 – FOOD DESIGN – UM NOVO TERRITÓRIO

2.1 A COMPLEXIDADE DO ALIMENTO – INTERSECÇÕES E DEFINIÇÕES

O mediatismo atual à volta da alimentação tornou-a num objeto de res- peito e interesse para a investigação académica. Segundo Parasecoli (2008),

embora os mass media tenham mostrado, muito antes, a importância e re- levância da alimentação na sociedade, só recentemente, nos últimos vinte anos, investigadores de diversas áreas se debruçaram sobre as questões que envolvem o alimento e, consequentemente, o sistema alimentar, sen- do uma delas o Design.

Parasecoli (2008), em Bite me – Food in Popular Culture, descreve diversos pon-

tos de vista sob os quais é possível abordar o alimento. Primeiro que tudo, podemos refletir sobre a relação direta que o alimento tem com o nosso corpo, através da Nutrição ou com o nosso bem-estar através da Psicolo- gia. Podemos analisar os seus elementos constitutivos, como os ingredien- tes, sabores, técnicas ou os pratos que nos são servidos, através da prática e da educação culinária (i.e., das chamadas Artes Culinárias). Através da História, podemos entender como o alimento se foi alterando ao longo do tempo, como viajou de um lado para o outro ou de que maneira influen- ciou determinadas sociedades. Podemos analisar o significado e a prática de uma determinada comunidade e a sua relação com a cultura, por via do Folclore, da Etnologia ou da Antropologia; analisar a sua produção, distribuição e consumo, através da Sociologia e da Economia, bem como o seu peso nas práticas administrativas, através da Ciência Política. É pos- sível considerar de que forma o alimento se tornou parte da comunicação social, através dos Estudos dos Media, dos desempenhos de identidade e subjetividade, através dos Estudos Culturais e de Género; ou todas as

manifestações de expressões artísticas, na Literatura ou Crítica de Arte; e podemos também investigar o impacto da produção, distribuição e con- sumo de alimentos através dos Estudos Ambientais (Parasecoli, 2008). Esta

infindável lista demostra como o universo do alimento é profundamente interdisciplinar, e como o Design poderia ser igualmente abordado a par- tir de qualquer uma das áreas evidenciadas para a sua investigação, se considerarmos o que Friedman e Stolterman (2015:viii) enunciam como os

desafios comuns a todas as profissões de Design, e que dividem em: Desafios de desempenho:

1) atuar no mundo físico;

2) fazer face às necessidades humanas; e 3) gerar o ambiente construído.

Desafios substantivos:

1) fronteiras cada vez mais ambíguas entre artefactos, estrutura e processo;

2) escala cada vez maior das estruturas sociais, económicas e industriais;

3) um ambiente cada vez mais complexo de necessidades, requisitos e condicionantes; e

4) conteúdo informativo que frequentemente excede o valor da substância física.

Desafios contextuais:

1) um ambiente complexo em que muitos projetos ou produtos ultrapassam as fronteiras de várias organizações ou grupos de

stakeholders, produtores e utilizadores;

2) projetos e produtos que devem corresponder às expectativas de muitas organizações, stakeholders, produtores e utilizadores; e 3) exigências em todos os níveis de produção, distribuição, receção e controlo.94(Friedman e Stolterman, 2015:viii)

94 TLA: Performance challenges: 1) act on the physical world; 2) adress human needs; and 3) generate the built environment. Substantive Challenges:

1) increasingly ambiguous boundaries between artifacts, structure, and process; 2) increasingly large-scale social, eco- nomic, and industrial frames;

3) an increasingly complex environment of needs, requirements, and constraints; and

4) information content that often exceeds the value of physical substance. Contextual Challenges:

1) a complex environment in which many projects or products cross the boundaries of several organizations or stakeholder, producer, and user groups;

2) projects and products that must meet the expectations of many organizations, stakeholders, producers and users; and 3) demands at every level of production, distribution, reception and control.

O que os autores sugerem é que os desafios propostos ao Design e, por conseguinte, ao atual sistema alimentar, requerem uma análise e planea- mento das capacidades específicas de cada área, as quais não podem ser desenvolvidas apenas pela prática profissional do Design. A partir das abordagens de Parasecoli (2008), conseguimos encontrar uma relação em

praticamente todos os campos disciplinares do Design (Ricard, 2015; Friedman e Stolterman, 2015; Fry, 2012).95

2.1.1 NATUREZA E CULTURA

O alimento é, já o vimos, um conceito complexo, ao qual aderem dife- rentes perspetivas e posições ideológicas (Parasecoli, 2008; Maffei e Parini, 2010).

No âmbito deste trabalho, importa-nos olhar para o alimento sob a pers- petiva do Design, que, como referimos anteriormente, possui uma histó- ria paralela e de proximidade, mas cuja relevância sempre foi colocada à margem. Hoje, alimento e design influenciam-se mutuamente, de um modo que é cada vez mais explícito e consciente. Como abordámos nos objetivos da investigação, é importante explorar situações nas quais o ali- mento poderá ser aplicado como impulsionador de ações de design, atra- vés dos seus processos e ferramentas.

É através do binómio cultura – natureza, que Montarani (2004) e diversos

antropólogos e sociólogos da alimentação consideram o alimento como um produto natural e/ou cultural, quando existe a intervenção humana. É esta intervenção humana que o torna artificial, potenciando-o como um objeto de estudo do Design.

Numa perspetiva histórica, é relevante uma contextualização da comple- xidade do alimento, dado o caráter identitário da aplicação prática (i.e., projetos dos alunos) que incluímos no capítulo 7.

Na cultura mediterrânica, o produto que melhor desempenha a função simbólica (natureza/cultura) é o pão, também pela sua função nutritiva. 95 Sobre a definição de Design e Food

Design neste contexto, ver secções se- guintes.

O pão não existe na natureza – só o homem o faz – e, para o fazer, precisa de tecnologia. Este processo tem início com a produção da matéria-pri- ma (agricultura) e, até ao resultado final (i.e., produto/pão), desenvolve-se uma série de operações complexas que, segundo Montarani (2004), são

resultado da experiência acumulada e da reflexão do ser humano (Heske- tt, 2005; Fry, 2012; Ricard, 2015), tal como sucede no modo convencional do

Design96 (Manzini, 2015). Este é um pensamento abstrato que, na visão de Heskett (2008) e Ricard (2015), é inerente ao design e ao ser humano, re-

presentando o resultado do saber e da tecnologia; o homem aprendeu a dominar os processos naturais para o seu próprio benefício(Montarani, 2004; Fry, 2012; Ricard, 2015).

Esta ideia de cultura encontra-se na interceção de dois outros conceitos: tradição e inovação. É tradição quando é construída a partir do conheci- mento, técnicas e valores que nos são transmitidos; é inovação97 quando o conhecimento, as técnicas e os valores alteram a posição do homem no contexto da natureza e lhe permitem experimentar novas realidades (Mon- tarani, 2004; Rozin e Rozin, 2007), uma analogia semelhante à que Manzini (2015)

faz sobre o modo convencional e o modo de design. Ao longo da História, assistimos a sucessivas alterações na cultura e na natureza, cujas interin- fluências se foram manifestando, de acordo com as necessidades do ser humano (Montarani, 2004; Ricard, 2015). O sistema alimentar foi-se alterando,

e se, no passado, gregos e romanos, bem como outras civilizações ainda mais antigas, foram percursores de diversas inovações no sistema alimen- tar e na forma como nos relacionamos com o alimento (Montarani e Flandrin, 2008; Pérles, 1989; Espinet, 1984), durante a Idade Média mergulhámos numa

espécie de escuridão (Espinet, 1984) que se tornou, no final deste período,

numa nova cultura alimentar, resultado da influência mútua entre os po- vos bárbaros do norte e centro da Europa e as civilizações grega e roma- na, resultando naquilo que hoje designamos por Dieta Mediterrânica.98 Desta influência mútua, como afirma Montarani (2008), nasceu “um regi-

me alimentar caracterizado principalmente pela variedade dos recursos e dos produtos consumidos, variedade da qual surge uma extraordinária

96 Manzini (2015) refere que a artificiali- dade do mundo é construída através de dois modos: o modo convencional, que se relaciona com o modo como as coisas sempre foram feitas, quando a tradição e as convenções sociais nos dizem que é assim que devemos fazer; e o modo de design, que combina três capacidades humanas: sentido crítico, criatividade e sentido prático. Ver a seção sobre a definição de Design.

No documento Design bites (páginas 101-104)