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2. FRIEDRICH VON HAYEK E O SISTEMA CONCORRENCIAL

2.2. Aspectos da epistemologia de Hayek

2.2.5 A concorrência enquanto processo de descoberta

Tendo compreendido um pouco melhor alguns pontos específicos da epistemologia de Hayek, fica mais fácil apreender a chave de entendimento dada por Kolev para o sentido da concorrência, e que a dispõe como um processo de descoberta124. Ou seja, a partir da episteme apresentada, é possível notar que a concorrência funciona como uma ferramenta que leva os indivíduos a procurar por soluções mais eficientes, ainda que essa eficiência seja encontrada por meio de processos de tentativa e erro, ou, como vimos, por meio da observação da tradição. Também é importante dizer que essa chave de entendimento trazida por Kolev não será explorada totalmente neste tópico, mas ao invés disso, serão apresentadas algumas consequências geradas por essa compreensão, as quais apontam para a necessidade de avançarmos sobre outros temas tratados pelo autor para obtenção do seu significado. Isso

porque a concorrência como processo de descoberta funciona como base para a construção de todo o sistema do autor, ganhando diversas formas ao longo de sua obra. E por isso, é fundamental entender as diversas formas pelas quais a concorrência ressoa nessas estruturas, para compreender o seu exato sentido. Para uma compreensão mais completa desta proposição da concorrência, ainda é preciso avançar um pouco mais sobre algumas questões, de modo a evidenciar algumas mediações que se fazem necessárias entre a epistemologia do autor e a concorrência, para que os procedimentos de formação social do conhecimento fiquem mais claros.

De início, é importante perceber que ao tratar da concorrência, a preocupação principal de Hayek é com o debate feito no campo da economia, tendo o objetivo de desconstruir alguns dos problemas gerados por pressupostos da ortodoxia neoclássica125, que em seu modelo de “concorrência perfeita”, parte da ideia de total acesso às informações por parte de todos os agentes do mercado, sejam eles produtores ou consumidores. Por outro lado, ele também busca atacar a heterodoxia liberal (especialmente Keynes), a partir da crítica ao planejamento central, como já mencionado. Assim, Hayek se coloca na posição de contestar ambas as teses, construindo seu argumento a partir da teoria do conhecimento, da informação e da comunicação126, para tratar alguns fenômenos negligenciados e suas consequentes implicações

no mundo real.

A crítica a ambas as correntes, a respeito deste tema, é constituída a partir de um só argumento, que rompe com a ideia da onisciência dos indivíduos a partir da já mencionada impossibilidade de se conhecer tudo. No entanto, apesar de Hayek descartar a ideia do planejamento central, não descarta por inteiro a ideia da concorrência neoclássica. Ao invés disso, procura alterar sua estrutura, mudando o foco do pressuposto de uma concorrência perfeita, para a construção de um mercado cuja concorrência é eficiente, em seus termos. O significado de eficiência aqui contém algumas das proposições que já vimos, ao mesmo tempo em que apresenta uma noção de constituição de um mercado que oferta bens ao melhor preço possível, e para isso o fundamental não seria a constituição de um mercado cuja concorrência é perfeita, mas sim um mercado que não apresenta uma estrutura monopolística. Com esse movimento argumentativo, fica claro que o problema, para Hayek é a tirania que inibe a liberdade, pois se por um lado um ideal de mercado neoclássico plenamente livre poderia

125 Para mais, ver Friedrich August von Hayek, Economics… op.cit, p.39-40; e Friedrich August von Hayek, Individualism… op.cit., 1948, cap. V.

126 As questões que cercam o problema da comunicação serão tratadas adiante, quando o assunto for o sistema de preços de mercado.

resultar em sérias distorções e desigualdades, por outro, a resposta liberal heterodoxa de Keynes também poderia resultar em tirania, já que as decisões desconsideravam particularidades e necessidades específicas. É fundamental notar também que é descartada a ideia de perfeição na concorrência, uma vez que ela seria impossível por conta da enorme disparidade na distribuição do conhecimento. Por outro lado, essa característica não seria nem desejável, segundo o autor, como veremos em outro momento127. Portanto, para Hayek, o importante seria apenas evitar grandes concentrações de mercado, que resultassem em alguma forma de tirania.

Deste modo, a concorrência aparece como um mecanismo de eficiência e descentralização, ou seja, ela funciona como uma ferramenta que leva os indivíduos a buscar as melhores formas de produção128. Isso significa dizer que, para Hayek, a concorrência quando disposta em um mercado livre de intervenções diretas do governo, levaria os produtores a observar as tradições locais e as experiências acumuladas, para gerar conhecimento especifico, ou melhor, a concorrência os levaria à especialização, já que essa seria a melhor forma de aproveitar vantagens específicas para uma inserção no mercado. Assim, todo o bem-estar gerado por este processo de acumulo do conhecimento seria posteriormente socializado através dos mecanismos de troca do mercado. É dessa forma que a concorrência atua como um mecanismo que leva os indivíduos à descoberta dos métodos mais eficientes de produção, em busca de vantagens competitivas.

Além disso, é fundamental compreender as consequências dessa proposição, bem como será fundamental perceber os movimentos teóricos de Hayek para blindar este mecanismo proposto, tentando evitar a concentração de mercado, por exemplo. Assim poderemos avançar sobre a argumentação que dispõe o processo concorrencial como sendo o motor da dinâmica social. Essa preocupação do autor é bastante evidente na publicação de sua trilogia cujo o título é Law, Legislation and Liberty, na qual há grande empenho de Hayek no detalhamento de mecanismos institucionais que resultassem em um melhor funcionamento do mercado, nos moldes até aqui apresentados. Como veremos a seguir, Hayek lança mão do debate sobre a natureza das instituições sociais para encontrar ordens institucionais que favoreçam o funcionamento eficiente do mercado, apostando na ideia de que as relações institucionais poderiam ser configuradas de tal modo a gerar um design que evitasse resultados indesejáveis, tais como o monopólio. Nessa busca de um design ideal, Hayek institui o mercado como a

127 Ver o tópico “2.4 A função da Lei e a inversão de prioridade entre meios e fins”. 128 Cf. Friedrich August von Hayek, Individualism… op.cit, p.96.

principal instituição social, ou como instituição central, retomando alguns ideais liberais clássicos que dispõe o mercado no centro dinamizador da sociedade.

Para isso, o autor novamente discorda de neoclássicos quanto a não necessidade da presença regulatória do Estado sobre o mercado, mas ao mesmo tempo se contrapõe às ideias dos New Liberals ao deslocar aquele que seria o papel do Estado sobre a economia. Para ele, o Estado deveria apenas criar boas condições através de normas. Assim, a chave para compreender as ideias do autor no que se refere às atividades dessa instituição, a qual já é amplamente apontada no debate quando o tema central é o neoliberalismo129 (especialmente quando o foco é o pensamento de Hayek), é a proposição de um framework, ou em outros termos, pode-se dizer que a sugestão de Hayek passa pela construção de uma moldura jurídica que submete o Estado à lei. Ao posicionar o Estado abaixo da lei, novamente a intenção é eliminar a possibilidade de tirania do Estado sobre o mercado e sobre os cidadãos, dessa forma se limitaria a atuação do Estado para que ele não servisse como ferramenta para aparelhar interesses particulares, distorcendo aquilo que seria a sua função principal130 como instituição

pública promotora de condições mínimas para que os indivíduos pudessem atuar.

A seguir, adentraremos o debate que o autor faz a respeito de formatos organizacionais, e assim será ainda mais explícito o exercício teórico e propositivo do autor, para encontrar o melhor design para as instituições, de modo a tentar preservar a liberdade individual e aquilo que ele compreende como sendo o melhor método para preservar a eficiência dos processos decisórios.