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3. Os símbolos do Mal

3.3. A mancha, o pecado e a culpabilidade

3.3.1. A confissão

A confissão é um ato de repetição, é a elaboração do pecador sobre o próprio pecado na tentativa de, ao reconstruir a narrativa, eximir-se da culpa. André tem o discurso na repetição ao longo de todo o texto, mas o romance é bastante polifônico. Além do irmão, aparece entremeada a sua confissão, a voz do pai, o qual trazia sempre em seus sermões a pesada carga do pecado, acompanhado de sua danação inevitável. O discurso feito é claro: o que pode e o que não pode ser feito, isto é, ainda que carregado pelas metáforas de um sermão, estava muito bem posto pela voz patriarca, os interditos, os tabus e também as punições. O sermão do capítulo 9 talvez seja o ápice da construção do pai e do discurso da tradição a quem, supostamente, André se contrapõe. O sermão do pai começa com uma reflexão sobre o tempo:

O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que

dissemina, assim como em tudo que nos rodeia [...] (NASSAR, 2009, pp. 51-52)

O discurso do pai sobre o tempo parece ser o discurso sobre uma espécie de Deus, absolutamente onipresente e responsável pela construção e conquista de tudo que há na Lavoura. Esse deus-tempo tão cultuado pelo discurso antitético do pai é parte da construção central de valores que sustentam a estrutura familiar, valores que separam entre bem e mal, entre o que pode e não pode ser feito:

[...] rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é [...] (NASSAR, 2009, pp. 52-53)

O discurso do pai é o discurso da moderação e da paciência, valores que André repudia na sua condição de intenso, epilético e virulento. O tempo que exige a paciência é o tempo do pai, mas não de André. Esse ponto da obra é especialmente relevante porque é metonímico, enquanto discurso, da própria forma com que o autor trabalha o tempo no texto, pensando-o de maneira minuciosa.

Em interessante artigo sobre a questão do tempo na obra de Raduan Nassar, Luciana Wrege-Rassier e Francis Utéza (2001) desenvolvem a hipótese acerca das repetições como formas de representação das figuras patriarcais. O artigo se inicia com uma citação de Bardèche sobre a função da repetição como uma necessidade advinda da falha de comunicação que abre espaço para que se decifre o – até então – indecifrável e a ideia a ser desenvolvida a partir disso é que o funcionamento cíclico dos romances é a circulação de sentidos. Os autores do artigo identificam três repetições a serem postas em destaque quando se trata de Lavoura Arcaica: a divisão do livro em duas partes (isso porque “A partida” sempre implicaria “O Retorno” e vice-versa); as transições intercapitulares e a festa em família, que aparece no início e no final do romance.

A leitura feita da “festa em família” merece destaque. Os críticos identificam, em primeiro lugar, a mudança no tempo verbal: na primeira festa, o uso do pretérito imperfeito; na segunda do perfeito:

No quinto capítulo, André rememora, no pretérito imperfeito, uma festa que representa a síntese de várias outras. Porém, no capítulo 29, a narração é feita no pretérito perfeito, significando a derradeira festa familiar. Esta, ao contrário das outras, termina tragicamente, operando a saída da “ordem” estabelecida – e por conseguinte do tempo paterno -, em que tudo era estável e avesso a mudanças, e a família se mantinha sempre igual a si mesma (WREGE-RASSIER; UTÉZA, 2001, p. 250)

A passagem da lógica do Pai para a lógica de André, incluindo nisso a força demoníaca da caracterização do filho como virulento, é o ponto em que os Wrege-Rassier e Utéza identificam como sendo uma das chaves da exegese do texto:

as associações entre o protagonista-narrador e as práticas do que o pai qualifica de ‘química frívola’, própria de ‘feiticeiros’, remetem de forma clara para uma diabolização das práticas dos alquimistas, os quais, empenhados em modificar a obra lenta da Natureza, manipulam o tempo a fim de acelerar o aperfeiçoamento das substâncias em seu laboratório (WREGE-RASSIER; UTÉZA, 2001, p. 251)

A identificação entre André e o Maligno não se dá pela ordem do Mal em si. Os críticos identificam André como sendo um personagem demiúrgico, uma força positiva criadora, uma espécie de “anjo do mal”, portador de mudanças. Esse impulso criador, de acordo com o artigo, permite repensar a questão da memória na obra, uma vez que poderíamos repensar a Casa Velha, onde acontece o incesto, como um espaço de mudança da possibilidade temporal, como se saíssem do tempo cronológico e passassem a viver uma outra forma de tempo. A imobilização causada pela Casa Velha nos personagens faz com que eles se paralisem e fiquem em silêncio: essa paralisação faz com que os críticos identifiquem os fenômenos do “terror” que se apodera do humano diante do sagrado.

Dessa forma, a casa que rememora a tradição – a memória – é um ambiente sacro que receberá o movimento do incesto, que será entendido como uma “hierogamia calcada em modelos arquetípicos, que opera a abolição do tempo

cronológico linear e possibilita o acesso ao Tempo absoluto” (WREGE-RASSIER; UTÉZA, 2001, p. 254), e mais, nesse sentido, a memória

ultrapassaria o mero nível de memória individual, o qual constituiria uma armadilha que encerraria o leitor em um nível de intepretação superficial. Nesse contexto, a memória nas narrativas nassarianas seria um chamado para reintegrar aquele “instante de eternidade” do inconsciente coletivo. (WREGE-RASSIER; UTÉZA, 2001, p. 254)

Nesse momento, então, tendo ocorrido o incesto, os críticos vislumbram um rito de passagem, em que a negação de André por parte de Ana faz com que se rompa o equilíbrio anterior, “mantido artificialmente pela ordem paterna” (WREGE- RASSIER; UTÉZA, 2001, p. 255), dando origem a uma ordem esclerosada da união de André com Ana, que veio como substituição à mãe – primeiro objeto de desejo de André, por meio da atividade da memória.

O último tópico do artigo trata da figura dos patriarcas e os críticos reconhecem na figura do avô a tentativa de volta à memória e à ordem ancestral, metonimicamente representada pela predileção de Ana e André pela Casa Velha, como se a memória do avô fortalecesse a ideia da possibilidade de uma nova tradição pela memória, mas ela não inclui o pai.

A percepção da Casa Velha como espaço do sagrado parece bastante relevante para leitura que pretendemos desenvolver na presente tese e, embora seja muito interessante pensar na estrutura da repetição do texto como forma de recriação de uma ordem, a partir do gênio maligno disruptivo de André, cremos que um elemento foi silenciado nessa interpretação, isto é, a voz da confissão.

Não podemos deixar para segundo plano, nesta análise, o fato de que quem narra é André, a partir de um olhar muito enviesado. A visão que possuímos dessa construção da imagem de virulento é menos como gênio maligno criador e mais como pecador tentando encontrar um motivo sobre-humano – e, portanto, impassível de punição – para a culpa que ele mesmo sente. Voltamos, então, a hipótese de que, sim, embora seja circular o romance e que realmente seja identificável esse constante movimento de repetição, tão cuidadosamente observado pelos críticos, ele esteja muito mais vinculado ao movimento de confissão do que qualquer outra coisa.

Para corroborar essa ideia, passemos ao processo de destrinchamento da confissão de André.