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3 JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO: CONCEITO, HISTÓRICO E PRESSUPOSTOS

6.1 A militarização do processo constituinte de 1988

6.1.1 A conjuntura política que antecede o processo constituinte

Antes de adentrar ao estudo da formação da ANC, importa situar a conjuntura política que antecede o debate em torno deste processo, sobretudo os anos finais da ditadura militar.

Observou-se que mesmo com as limitações impostas pela reforma eleitoral, aprovada em 1982 pelo regime militar tendo com o intuito melhorar a posição do Partido Democrático Social (PDS) - antiga Aliança Renovadora Nacional (ARENA), partido da ditadura e extinto

com o fim do bipartidarismo em 1979 - as eleições de 1982, apesar de não terem abrangido o cargo à Presidência da República, ampliaram o espaço político da oposição nos outros níveis de poder (COUTO, 1998).

Nos anos finais da ditadura militar houve a autorização por parte da ala branda dos militares para que o então presidente do Senado, Petrônio Portella, conhecido por ser um hábil negociador, iniciasse o diálogo entre o MDB, com a ARENA e a sociedade civil, no intento de garantir o cumprimento da agenda política da abertura (CORRÊA, 2015). A partir desse movimento verifica-se que os momentos decisivos da transição política foram realizados a partir de figuras políticas que articularam negociações com a anuência do regime militar.

Observa-se desse modo que a própria agenda política de retorno ao Estado Democrático de Direito foi construída por protagonistas de confiança dos castrenses.

Isso fica evidente ao considerar a dupla face mantida pelo Movimento Democrático Brasileiro (antigo PMDB) durante o período autoritário. Essa natureza dualista se configurou uma vez que o MDB era um partido de oposição ao regime, ou seja, contra o “sistema”

ditatorial, no entanto, era também um partido de oposição do regime. Era, portanto, uma oposição consentida, obediente às regras estabelecidas, tendo em vista que estas mesmas permitiam sua existência. Assim, como partido de oposição do regime, podia exercer o poder política mesmo que dentro das normas estipuladas e sendo oposição ao regime, tal postura exigia o fim do autoritarismo. De toda forma, é imprescindível considerar o MDB como um partido do sistema (ARAUJO, 2013).

Com os resultados eleitorais de 1982, o regime militar acabou de certa forma sendo limitado com relação às pretensões de autopreservação. No governo Figueiredo, por exemplo, não adiantava pressionar o Congresso por emendas, porque o jogo político havia mudado. No entanto, embora a oposição houvesse crescido, não logrou o domínio do parlamento, situação em que o quadro político tendia pela correlação de forças, cenário propício para intensas negociações. Nessa realidade, o bloco de oposição ao regime tinha como alternativa mobilizar a opinião pública, a fim de rachar a coalização de poder e polarizar o debate entre situação e oposição em todas as arenas de conflito (CORRÊA, 2015). As eleições indiretas para presidente da República eram questionadas pela oposição. Tanto que em 1983 a ideia das eleições diretas foi lançada e adotada, sobretudo por alguns partidos sendo os principais deles:

o PMDB, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Em 1984 houve, portanto, uma grande mobilização nacional em pró das Diretas-já, em que a Emenda Constitucional Dante de Oliveira teve grande repercussão embora tenha sido derrotada.

Nessa época, percebe-se um movimento de resistência por parte do regime militar tentando adiar as eleições diretas para 1988 a partir da Emenda Constitucional de autoria do Planalto, denominada de emenda Leitão de Abreu ou a conhecida Emenda Figueiredo.

Golbery do Couto e Silva, general e uma das personalidades do continuísmo, em entrevista à grande imprensa, sugeriu um acerto com as oposições, em que barganhava a prorrogação do mandato de Figueiredo em troca da convocação de uma ANC para 1986, seguida de eleições diretas para presidente da República dois anos depois (CORRÊA, 2015). Sendo que tais barganhas foram infrutíferas e a oposição precisou trabalhar em novas estratégias.

Uma grande mobilização nacional iniciou-se apoiando a candidatura de Tancredo Neves para presidente da República e a convocação da Assemble Nacional Constituinte, a fim de viabilizar o projeto democratizante. Neste quadro político, observou-se certo desinteresse do então presidente João Figueiredo em liderar as forças do PDS. Consequentemente, a oposição que já vinha tomando espaço na cena política, foi vitoriosa nas eleições indiretas de 1985, elegendo Tancredo Neves, mesmo com maioria de um colégio eleitoral integrado por senadores indiretos articulados pelo regime militar para garantir sua maior participação política (COUTO, 1998). Sobre a eleição do primeiro presidente civil após a ditadura militar Couto dispõe:

Apesar de ameaças de golpe militar e manobras continuístas terem permeado quase todo o final do período, as Forças Armadas e as classes dominantes não se sentiram ameaçadas pelo projeto presidencial de Tancredo Neves. Pelo contrário: lideranças militares e políticas importantes terminaram apoiando decididamente o candidato do PMDB e da Aliança Democrática. [...] Houve um pacto não escrito – ou secreto? – com a corrente moderada das Forças Armadas e outro, explícito, com os dissidentes do PDS e outros aliados (COUTO, 1997, p. 345).

Neste sentido, compreende-se que a eleição de Tancredo Neves foi de certa forma autorizada pelo regime militar, principalmente os grupos de militares que controlaram o processo de abertura e transição política. O novo presidente civil, na disputa eleitoral e, após ela, priorizou intensas articulações com os militares e aliados civis para desarticular possíveis conspirações. Em torno dessas negociações, não houve mais manobras pelas Forças Armadas para inviabilizar a candidatura de Tancredo Neves. Sobre a eleição de Tancredo Neves:

O poder militar certamente concluiu que o custo da assimilação de Tancredo era admissível. Moderado, confiável, dono de reconhecida capacidade de conciliação e liderança, ele não ameaça intoleravelmente seus principais interesses e preocupações estritamente profissionais. Como o risco de revanchismo, a garantia de saída digna e pacífica do poder, o respeito às Forças Armadas, a continuidade da política militar

propriamente dita, o apoio a indústria nacional de armamentos, a certeza de um governo discretamente conservador a curto prazo, com amplas possibilidades de evitar a prevalência da esquerda radical a longo prazo (COUTO, 1998, p. 396).

Apesar de fazer parte do PMDB, partido de formação liberal que reivindicou as eleições diretas e que compunha de certa maneira oposição ao regime militar na época, a eleição de Tancredo Neves apenas se concretizou a partir da aceitação das Forças Armadas visando a impunidade e afastando a possibilidade de qualquer ação revanchista ou de revisionismo do passado. Talvez seja possível encarar o primeiro governo civil após a ditadura militar como uma permissão por parte dos próprios ditadores tendo em vista que, do contrário, estes últimos resistiriam com o auxílio, sobretudo da força, como ocorreu durante os vinte e um anos de ditadura.

Essa constatação advém dos embates no Congresso Nacional em torno da eleição e sucessão após a morte de Tancredo Neves. Observou-se que, nas discussões sobre quem ocuparia o cargo de presidente, o General Leônidas Pires Gonçalves, teve papel decisivo. Na verdade, como será visto mais adiante, o general teve grande influência também posteriormente, durante o processo constituinte. Ele era a figura central do esquema militar que tinha como missão garantir a posse de Tancredo Neves e em seguida, a posse de Sarney.

Em entrevista, o próprio general afirma que, caso os planos não seguissem da forma prevista, tinha um comando de esquema militar, previamente armado, pronto para ser desencadeado a fim de garantir a transição nos moldes militares (COUTO, 1998).

As consequências com a morte de Tancredo evidenciou a continuidade da influência militar uma vez que o falecimento instalou a dúvida com relação à sucessão de poder. Os nomes cotados foram o de José Sarney e do então presidente da Câmara de Deputados, Ulysses Guimarães. No entanto, o que deveria ter sido resolvido por vias jurídicas, foi resolvido aos padrões militares: as Forças Armadas vetaram o nome de Ulysses Guimarães por não ser considerado confiável aos interesses castrenses. Assim, a elite civil aceitou o veto e o nome de Sarney foi a solução pacificadora (ZAVERUCHA, 2005). Ulysses Guimarães, explicou em entrevista o motivo pelo qual não disputou a sucessão: “Eu não fui „bonzinho‟

coisa nenhuma. Segui as instruções de meus juristas. O meu „Pontes de Miranda‟ estava lá fardado e com a espada me cutucando que quem tinha de assumir era o Sarney” (COUTO, 1997). A pessoa que Guimarães se referia como o “Pontes de Miranda” era o general Leônidas Gonçalves, Ministro do Exército (COUTO, 1997).

Em 21 de abril de 1985, após intensas negociações entre oposição e governo, José Sarney, vice-presidente de Tancredo Neves, é efetivado no cargo devido à morte do presidente eleito indiretamente (CORRÊA, 2015). José Sarney, que dirigia o partido criado pela própria ditadura, mas que formara uma oposição para compor chapa com Tancredo, governa até março de 1990 e simboliza a continuidade da ausência de confrontamento com os militares(ARAUJO, 2009).

No entanto, havia outro dilema a ser resolvido: convocar uma constituinte exclusiva ou adiar a mesma adjudicando-a às eleições de 1986. A coalizão dos momentos finais de transição, a Aliança Democrática – composto pelo PMDB e pelo Partido Frente Liberal (PFL) – por conflitos e interesses e diversidade ideológica, fizeram com que suas lideranças aceitassem a segunda opção como menos arriscada nesse quadro político. Posteriormente, com as eleições de 1986 simbolizou um grande passo no processo de transição, sendo que o próximo seria a eleição direta para presidente da República, em 1989, sob o respaldo da Constituição de 1988 (CORRÊA, 2015).

Para fins de demarcação temporal, o processo constituinte estudado na presente dissertação compreende o iniciado com o debate da convocação da ANC, proposta pelo presidente da República e submetida ao Congresso Nacional, em junho de 1985 e que se encerrou com a proclamação da Constituição Federal de 1988 (ARAUJO, 2013).

Parte-se do pressuposto de que processo constituinte já inicia sendo fruto de uma ambiguidade latente. Isso é verificado, sobretudo na convocação do Congresso Nacional para exercer funções constituintes, onde a cúpula militar tinha adeptos e não uma Assembleia exclusivamente para esse fim. Considerando o perfil da redemocratização brasileira de forma panorâmica, era de esperar que isso acontecesse tendo em vista que o então presidente da República, José Sarney, vinha de um partido criado pelo regime militar e por isso era necessário manter o equilíbrio que seu governo representava, uma vez que era uma oposição consentida pelos militares (ARAUJO, 2009).

A convocação da ANC e as garantias constitucionais prevista na Constituição Federal de 1988 teve papel crucial no processo de justiça transicional brasileiro. Foi uma iniciativa, que apesar de toda manipulação política, como será estudado nos próximos tópicos, simbolizava o atendimento das necessidades de uma sociedade que presenciou sua Constituição de 1946 ser totalmente deturpada pelo arbítrio e violações de direitos humanos a partir da promulgação de dispositivos autoritários durante a ditadura militar.