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5.1 Uma Discussão em Torno da Noção de Marketing Empresarial e Responsabilidade

6.4.1 A Constituição do Discurso do Projeto Sobre o Coque

do Projeto da Orquestra Criança Cidadã

Neste tópico, apresentaremos os resultados obtidos a partir da análise do discurso do projeto da Orquestra Criança Cidadã. Para tanto, as análises serão apresentadas em quatro sub tópicos seguindo a ordem dos blocos como mencionado no tópico acima.

6.4.1 A Constituição do Discurso do Projeto Sobre o Coque

SD1:“Vida social digna, bem diferente da que possuem atualmente, está à contribuição para a segurança pública da área e também para a cidade, posto que, a marginalidade da comunidade do Coque , causa terror41 em toda área urbana do Recife” (ORQUESTRA CRIANÇA CIDADÃ, 2013).

SD2: Os benefícios proporcionados pelos sons da Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque, a toda evidência não beneficiam só seus integrantes, mas suas famílias como um todo (muitas das quais com vários integrantes já inseridos na criminalidade), posto, que, na medida em que um membro ganha status social, o passo seguinte ou a consequência imediata será a saída, levando consigo o núcleo familiar da comunidade do Coque para

residir em área compatível com o status adquirido como músico, fazendo com que os componentes da família que se acharem as voltas com a criminalidade mudem definitivamente de vida (INSTITUTO INNOVARE,

2007).

SD3: É um lugar violento, onde vivem 40 mil pessoas, sem nenhuma perspectiva de vida. A violência é a escola desses meninos (ORQUESTRA CRIANÇA CIDADÃ, 2013).

SD4: O Coque é uma ilha tem gente séria, como vocês que estão aqui, acompanhando seus filhos gente muito boa, que mora ali só por

necessidade. Não sai porque não tem como e só por causa do fator econômico permanecem ( PORTO, 2010, p. 115).

SD5: Ainda nos sábados, á tarde providenciavam diversos jogos no quartel

para evitar, tanto quanto possível contato com a comunidade, ficando livres de toda a violência. (ORQUESTRA CRIANÇA CIDADÃ, 2013).

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(FOUCAULT, 2013, p.21).

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Os destaques nas sequências discursivas é nosso e servem para evidenciar algumas recorrências.

SD1, o projeto42 antecipa a imagem do Coque como algo que supõe Marginalidade e Terror. E com isso, possibilita um movimento de identificação do projeto como uma forma de segurança pública da área urbana do Recife, tentando aproximá-lo de uma vida social digna. Temos assim, ao longo dessa sequência discursiva, a representação do Coque enquanto lugar apenas de violência. Essa representação é feita por meio de efeitos de imagens já inscritas na formação da sociedade. Além disso, essa construção de imagem do Coque evidencia que a marginalidade pertence ao Coque, ou seja, que a característica do Coque é marginal e não que no Coque tenha alguma marginalidade, além de excluir o Coque como parte da Cidade do Recife.

Ressaltamos que essa representação não foi originada do projeto, apenas ela ratifica a imagem do Coque como um lugar de violência. Embora, seja um projeto educativo para os jovens moradores do Coque, o que ele acaba fazendo é assumir a imagem de violência e por consequência disso que comunidade só seria salva por meio das práticas musicais. Assim, as condições históricas e sociais contribuem para um dado discurso cooperando para uma única visibilidade. Vasconcelos (2011) confirma essa ideia ao afirmar que devido a vários discursos o Coque passou a ser percebido como um lugar que ameaça a segurança do resto da cidade. Com isso, muitos têm medo de entrar na comunidade (VASCONCELOS, 2011).

Então, sob o efeito desse discurso que se legitima uma verdade. “Estamos submetidos à verdade também no sentido em que ela é lei e produz o discurso verdadeiro que decide, transmite e reproduz ao menos em parte, efeitos de poder” (FOUCAULT, 2014, p.279). Logo, o imaginário sobre o Coque é construído no discurso de um projeto social de práticas musicais sob a influência da história e da ideologia, refletindo sobre uma exterioridade sobre as práticas sociais do Coque por meio da prática discursiva. E ao mesmo tempo emana uma discussão sobre as questões simbólicas, pois, “todo dizer ideologicamente se materializa, nas palavras dos sujeitos. Portanto, [...] o discurso é o lugar do trabalho da língua e da ideologia” (ORLANDI, 2013, p.38).

Na SD2, o imaginário transforma o Coque como um lugar ausente de pessoas de bem. E, por isso, ao ganharem status social é preciso retirar do Coque, revelando que existe uma incompatibilidade da figura de músico com o espaço. Mas, ao mesmo tempo reforça a ideia de que alguns podem ter uma vida melhor e outros não, ou seja, teriam aqueles especiais. Essa sequência discursiva ainda mostra que as práticas musicais não estão sendo utilizadas como

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forma de resistência, mas que é preciso sair do Coque porque uma hora eles podem se envolver com as práticas criminosas.

Na SD3, observamos uma repetição da representação do Coque como um lugar de violência, com o seguinte enuciado: “a violência é a escola desses meninos”. E com isso, faz um determinismo no percurso social dos jovens do Coque. Por isso, Hijiki (2006a), diz relacionar pobreza e criminalidade é algo arraigado no imaginário do País. Desse modo, os dispositivos sociais produzem subjetividade (HIJIKI, 2006a). Ademais, a utilização das práticas musicais como uma concepção salvacionista é uma lógica perversa, pois, é compreender as favelas apenas em partes, percebendo seus moradores como potenciais criminosos, pelo local violento ou pelas condições desfavoráveis (ARAÙJO, 2006). Ainda na SD4 percebemos um movimento para “sem nenhuma perspectiva de vida”, colocando em evidência de que as práticas musicais seria a única maneira de eles melhorarem de vida. Ainda na SD4, ao utiliza-se “tem gente séria” mostra o lado do bem do Coque. No entanto, ao dizer “moram ali por necessidade” faz um movimento para “não saem porque não tem como e só por causa do fator econômico permanecem”. Esse discurso revela que a sociedade da economia não pode ser atribuída a responsabilidade a respeito dos problemas encontrados no Coque, então, o projeto aparece como alguém que pode fazer, tornando-o bem visto pela sociedade. Vemos, então, o Coque sendo apresentado não como um dos bairros43 do Recife, mas por um lugar onde mora pessoas que precisam de algo. Além disso, o fator econômico não é a causa, mas, a consequência porque as pessoas não moram na favela porque querem, mas, pelo fato que “a produção deste espaço é antes de mais nada, uma forma de resistência e, ao mesmo tempo, uma estratégia de sobrevivência ás adversidades impostas aos grupos sociais” (CôRREA, 1995, p.30).

Na SD5, observamos uma projeção da imagem de um determinado lugar (quartel), a partir da imagem já inscrita na formação da sociedade (o Coque)- violência. Essa imagem baseada no olhar fragmentado, com o qual o projeto assume essa imagem, afirmando, “ficando livres de toda a violência”. Portanto, o quartel é apresentado como um lugar seguro em relação ao Coque. Além disso, é uma forma de segurá-los através dos “diversos jogos no quartel para evitar, tanto quanto possível contato com a comunidade”. Então, os jogos ao invés de ser um momento de descontração e de sociabilidades convertem-se em instrumento para evitar o contato com a comunidade em que eles moram. Por isso, através dessa sequência discursiva

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Embora para a Prefeitura da Cidade do Recife o bairro seja a Ilha Joana Bezerra, chamamos o Coque de bairro porque é nele que os moradores estabelecem suas relações. Por isso, essa questão vai aparecer também no próximo capítulo.

percebemos que o projeto afetado pelas imagens já escritas na sociedade permite a retomada de um simbolismo: Coque violento e, com isso, o espaço perde sua característica de bairro onde existem as distintas práticas sociais e se torna um fator condicionante para o envolvimento com as práticas criminosas.

Finalizada as análises do discurso do projeto da Orquestra Criança Cidadã em relação ao Coque, iniciaremos no tópico a seguir as análises sobre as práticas musicais como forma de salvação da violência.