CAPÍTULO II. AQUARELA: A IMAGEM DO BRASIL NO EXTERIOR
2.3. A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM: COLETIVA E AMPLA?
Acredita-se ser conveniente afirmar que a imagem do Brasil no imaginário dos estrangeiros tenha começado com a descoberta e exploração do país por navegadores e corsários provenientes de vários países colonizadores a partir do século XVI. Os relatos dessas viagens e dos contatos entre viajantes e nativos se fazem presentes até hoje na mente de possíveis turistas e referências na mesma linha podem ser encontradas em livrarias. Pode- se afirmar que o relato mais famoso, mas não o primeiro a ser publicado, seja a Carta de Pero Vaz de Caminha, que traz a acuidade descritiva pouco comum aos relatos da época. A Coroa portuguesa instalou-se no Brasil, em 1808, e fomentou a construção do imaginário coletivo em relação à sua colônia que então se tornava a metrópole. Foram abertos os portos e muitos estrangeiros puderam entrar no território de forma legal, inclusive como convidados do príncipe regente, com o objetivo de explorar o Brasil em termos de estudos do povo, da fauna, da flora e da sociedade de nativos, considerada por muitos arcaica e “quase” selvagem.
Para o viajante inglês Bruce (2004[1915]), a “raça brasileira apresenta interessantes aspectos de estudo. É o produto da mistura, durante séculos, dos povos mais empreendedores da Europa com grandes caçadores das florestas tropicais e tenazes agricultores vindos da África” (2004[1915]: 36). Elogios e romantismo à parte, tem-se um resumo interessante da mestiçagem que deu origem aos brasileiros de hoje. No decorrer desta obra, tem-se a rara descrição de um homem brasileiro considerado típico, pois geralmente encontra-se com muita facilidade descrições das mulheres. Escreve Bruce que
o homem brasileiro típico apresenta tez escura sem que se possa dizer que é negro. Em geral tem ombros largos, altura média de 1,80m e uma voz que revela vigor. Tem paixão por música
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e arte, e gosto por todos os tipos de esporte; mostra grande senso de humor ou ridículo; e frequentemente demonstra que se assemelha a pura temeridade. Parece ter herdado de seus ancestrais latinos toda a excitabilidade, um pouco mais apimentada. Explode como pólvora sem aviso, mas se acalma com facilidade (2004[1915]: 36).
A mulher brasileira também aparece, mas com uma descrição mais amena, que afirma: “A mulher brasileira conservou a beleza de suas ancestrais europeias, tendo-se aperfeiçoado fisicamente” (2004[1915]: 38). Em suma, o brasileiro, para o autor, “tem um bom coração e é fiel aos amigos e intensamente dedicado a seu país” (2004[1915]: 39). O viajante ainda comenta sobre o respeito que os brasileiros têm pela religião e pelo sagrado, ressaltando que a hospitalidade é uma herança indígena. Os traços colocados também pode ser identificados na cultura portuguesa até os dias de hoje.
Para alguns brasileiros, como a cineasta Lúcia Murat, produtora e diretora do documentário Olhar Estrangeiro (2005), baseado no livro O Brasil dos Gringos de Tunico Amâncio (2000), “a indústria cultural é uma das responsáveis por reproduzir infinitamente esses clichês que nos perseguem”. Quando se cansou de tomar contato com filmes e ensaios de estrangeiros que seguidamente retratavam o Brasil de forma diferente da realidade, com base nos clichês, por vezes depreciativos, tomou a frente e resolveu fazer um documentário, segundo ela, para “trocar de posição a câmera”. Afirma na obra que até 2005 o Brasil foi personagem em mais de 220 filmes estrangeiros, dos quais foi selecionada a amostra para os depoimentos dos atores, diretores, produtores e roteiristas de algumas das obras cinematográficas em questão. Participaram das entrevistas ingleses, franceses, americanos e suecos, que apresentam um Brasil imaginado, por vezes, demasiado distante da realidade.
Larry Gelbart – roteirista de Blame it on Rio/ 1984 EUA com Michael Cane e Demi Moore – quando questionado em relação à escolha do Rio como locação, afirma: “Acho que quando as pessoas pensam em um lugar sensual,(...) pensamos no Brasil. No Rio”. É importante salientar que foi uma adaptação americana do filme francês que tinha o mesmo título, mas fora gravado na França. Na cena na praia do Arpoador, aparecem muitos figurantes, todas as mulheres estão fazendo topless e existem micos11 no meio da multidão –
colocando a ideia de que essa é uma cena normal no Rio e, por consequência, nas praias do Brasil, gerando um clichê equivocado. Ele continua: “Foi um erro, foi claramente um erro”, pois se basearam nas praias francesas onde o topless é permitido, segundo o roteirista. É possível notar-se uma construção fantasiosa e irreal das condições socioculturais do país. O depoimento de Jon Voight, protagonista de The Champ, EUA, 1979, que diz: “Muitas
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mulheres dançando tchá, tchá, tchá” – vem ao encontro das representações apresentadas pelas animações do Zé Carioca, da Disney. A ignorância da maior parte dos entrevistados em relação à cultura brasileira pode causar uma dissonância, pois conhecem os clichês, ou pelo menos parte deles, e veem uma realidade parcial e difusa.
De forma consciente não se espera que os frames sejam fidedignos ou conectados através da verossimilhança, mas essas imagens podem ser críveis nas mentes dos estrangeiros que não conhecem o país ou que não buscam informações sobre a cultura brasileira em fontes confiáveis de etnografia ou historiográficas. A repetição de um estereótipo faz com que se grave aquela mensagem como primeira opção e a partir de então toda a informação que a contrariar torna-se uma inimiga da realidade irreal: “Os estereótipos são ridículos, sobretudo quando se apresentam como representação daquela nação ou cultura”, diz Toni Plana – ator do filme Amazônia em Chamas. Hollywood tem o poder de criar estereótipos a partir de clichês, ou vice-versa, e assim faz-se com que aquela imagem seja vista como a representação mais próxima da realidade, mesmo não a representando efetivamente. Michael Cane faz o seu depoimento no documentário e afirma categoricamente: “Vocês tem uma reputação de sensualidade, mas vocês não olham a nudez como sensualidade. O Brasil é um clichê por um ótimo motivo, e vou lhe dizer qual: produz mais pessoas bonitas que qualquer outro país. São clichês e, se vocês querem ser tratados mais seriamente, deviam dançar menos e ficar mais feios”.
A visão do país como um paraíso foi divulgada por muitos filmes e, segundo Hope Davis, atriz do filme Next Stop Wonderland, EUA, 1998, “a música brasileira [no caso, referência à bossa nova] foi usada para evocar um paraíso distante, um lugar onde se refugiar. (...) algo que a tirava da atmosfera diária”. Philippe de Broca – diretor de O Homem do Rio – filme francês de 1964, afirma na já referida obra fílmica de Murat (2005): “Queria fazer um filme que me lembrasse a adolescência (...) mesmo na época não era um filme sobre o Brasil. Era uma imagem imaginária de um lugar cheio de exotismo. O que era verdade (...) pessoas muito alegres, joviais e abertas”. A dupla formada pelo diretor francês e Bo Jonsson traz uma visão mais centrada e realista: “Todos esses filmes não-brasileiros têm uma visão pronta do Brasil. No roteiro usam clichês. Às vezes acho que querem o clichê. Nós usamos o clichê e vou mostrá-lo pra você. Infelizmente repetem o velho estilo colonialista”, reflete Bo Jonsson – produtor do filme sueco Sallskaps Resor (1980), referindo-se ao final da película que tem em cena um barco no meio do mar de Copacabana onde músicos brasileiros negros tocam
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uma música – que pode ter tido o chorinho como referência – e animam dois casais numa festa particular.
Caso se busquem referências em Maffesoli (2008), todos os entrevistados do documentário de Lúcia Murat (2005) seriam corresponsáveis pela profusão dos clichês sobre a imagem do Brasil, pois “não é a imagem que produz o imaginário, mas o contrário. A existência de um imaginário determina a existência de um conjunto de imagens. A imagem não é o suporte, mas o resultado” (2008: 76). A imagem da brasilidade baseada na sensualidade, exotização do espaço e da sociedade pode então ter derivado do imaginário, replicado múltiplas vezes, inclusive, pela população e órgãos do governo responsáveis pela promoção da imagem do país enquanto destino turístico no exterior. É possível verificar que, desde os primeiros materiais publicitários distribuídos pelas embaixadas, em vários países da Europa e América, a partir da década de 1970, trazem, geralmente, nas suas imagens principais, o carnaval, o Cristo Redentor (utilizado como símbolo e sinônimo do Rio de Janeiro), as praias, o povo sorridente e as figuras femininas vestindo trajes de banho(Kajihara 2010: s/p) – buscando-se, provavelmente, identificação com a ideia de paraíso tropical que ainda seduz alguns dos viajantes até hoje. Ao visualizar as peças publicitárias coletadas e disponibilizadas pela autora (referidas no início do capítulo), percebe-se que dentro dos temas gerais encontram-se outros temas que persistem com o passar dos anos. Dentre eles pode-se citar o turismo pelas cidades históricas – heranças do período de domínio português, as praias com uso das imagens de mar cristalino, areias brancas, coqueirais e mulheres de biquíni, e das belezas naturais como as cataratas de Foz do Iguaçu – utilizadas em peças da Embratur desde a década de 90 e retomadas nas peças atuais, nas estratégias do Plano Aquarela.
Para completar o imaginário sobre o país, acredita-se ser interessante apresentar características sociais que aparecem na obra de Santos (2011), na forma de diagnósticos que são utilizados por pensadores, articulistas e políticos portugueses para justificar as falhas do Estado, e também são observáveis na sociedade brasileira. Santos frisa que “o que é surpreendente nesses trechos é que os diferentes diagnósticos feitos ao longo de quinhentos anos se adequem, intrigantemente, à sociedade portuguesa de hoje” (2011: 30) e pode-se afirmar que igualmente se adaptam à realidade brasileira. Para que se deixe o cenário passível de compreensão, o autor toma como exemplos os seguintes trechos: “Lástima é que para escolher um melão se façam mais provas do que para um conselheiro e para um ministro” (D. Francisco Manuel de Melo, publicado postumamente em 1721 apud Santos 2011: 30). Até a
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atualidade, esta frase faz sentido, pois se colocam muitos entraves às soluções simples para a população de ambos países.
E tudo se desenrola sem que os conflitos rebentem, sem que as consciências gritem, é porque tudo entra na impunidade do tempo – como se o tempo trouxesse, imediatamente, no presente, o esquecimento do que está à vista, presente. Como tudo isso é possível? É possível porque as consciências vivem no nevoeiro (Gil apud Santos 2011:31).
Nos dois trechos, são colocadas questões sobre os requisitos para se fazer escolhas no campo político e a visão parcial que se coloca em relação aos acontecimentos de corrupção com a certeza da impunidade, muitas vezes colocadas como característicos da sociedade brasileira.
Assim, pode-se considerar as duas sociedades como “mãe e filha”, em termos de moldes que foram implantados de uma na outra. E é intrigante observar-se que, mesmo sendo muito parecidas, as visões que uma tem da outra são ao mesmo tempo similares e muito distantes. No auge da crise financeira que arrastou o Brasil para uma grande decadência econômica-social, entre as décadas de 80 e 90, o paraíso a ser encontrado, onde se falava praticamente a mesma língua e era uma possibilidade de salvação, era a antiga metrópole, que assumia novamente o papel de há de quatrocentos anos atrás – aparentemente mais desenvolvida. Depois de 20 anos de imigração constante de brasileiros para Portugal objetivando nova vida e de um fluxo de turistas que cresceu por Portugal ter uma moeda mais forte que a brasileira, viu-se a realidade inverter-se como que num passe de mágica. Nenhum dos dois estava preparado para as mudanças positivas e negativas que aconteceram e continuam acontecendo. As atenções estão agora voltadas para o Brasil da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, buscando, ao mesmo tempo, os traços que assinalam a globalização socioeconômica e cultural e características que mantenham a “aura” de exotismo selvagem. Corroborando essa busca, no filme de Murat, Olhar Estrangeiro (2005), possíveis turistas americanos, ingleses, franceses e suecos expõem os componentes do seu imaginário “particular” sobre o país: “um país de sonhos”, “melhor do que o Havaí”, “só temos imagens de sol e praia”, “sei que o Brasil é forte no futebol”, “muitas mulheres na praia usando biquíni e de topless”, “futebol e amor, romance e selva”, “acho que eles não trabalham lá, estão sempre de férias”, “eles fazem festas direto”, “para nós [franceses] é uma viagem exótica”, “as frutas e o sol”, “mulheres com a bunda grande”. Então, cabe replicar a pergunta que encerra o documentário: “Afinal, quem somos nós?”.
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