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Capítulo II: A mundividência de Tomé Pires e de Duarte Barbosa

II. 2. Os seus tratados sobre o Oriente

II.2.2. A construção do discurso sobre a alteridade:

O interesse por estas obras justifica-se pela riqueza da descrição geográfica,

constituindo uma fonte de informação insubstituível de todos os lugares de importância

estratégica comercial, desde o cabo da Boa Esperança até à China. Tanto a Suma

Oriental de Tomé Pires, como o Livro de Duarte Barbosa, revelam uma atenção aos

povos, às paisagens e às produções exóticas com que os descobridores portugueses se

iam confrontando e que procuravam registar para que os seus conhecimentos se

divulgassem. O facto das duas obras terem permanecido inéditas em Portugal, até muito

recentemente, pode ser justificado pela profusão de textos surgidos, no seguimento das

viagens sistemáticas de exploração do espaço asiático, uma acumulação impossível de

ser absorvida no imediato, mesmo por um Ocidente ansioso por notícias das novas

realidades desvendadas

78

.

Ambas as obras se podem considerar tratados de geografia e de etnografia,

elaborados a partir dos périplos empreendidos pelos autores, que lhes facultaram um

conjunto de conhecimentos empíricos que pretenderam deixar por escrito. Com efeito, a

importância das suas obras revela-se consensual entre os estudiosos, pois, «o livro de

77 Duarte Barbosa, op. cit., edição de Luís de Albuquerque, p. 169.

78 Cf. Rui Loureiro, «O encontro de Portugal com a Ásia no século XVI», cap. V, in António Luís

Ferronha (coord.), O Confronto do Olhar – O encontro dos povos na época das navegações portuguesas,

Duarte Barbosa é em geral uma fonte de informação de toda a segurança»

79

e, por isso,

uma das obras quinhentistas mais significativas sobre o Oriente. Já «[m]uitas das

descrições que Tomé Pires faz do Extremo Oriente não foram ultrapassadas durante uns

dois séculos, como as de Malaca e Java, e especialmente a de Samatra, que, sem

exagero, se podem classificar de notabilíssimas. Várias terras são referidas pela primeira

vez com os nomes que ainda hoje conservam, tais como Singapura e Japão. O valor da

Suma Oriental é em especial caracterizado pela nota de veracidade que através de toda

ela se sente»

80

.

Estas características de veracidade e segurança advêm-lhes sobretudo do

carácter testemunhal que subjaz à sua produção discursiva, uma vez que os dois autores

viajaram pela maioria dos locais que descrevem e puderam ver e ouvir a maior parte do

que relatam. Por outro lado, sempre que a matéria apresentada não é resultado de

conhecimento pessoal, os dois autores apressam-se a dizê-lo, informando que escrevem

com base em informações em segunda mão: «segundo a informação que obtive», «eu

me certefiquey por muitos» ou «dizem os mercadores», ou ainda «o que as nações ẽ qua

deste leuamte comtam», revelando, assim, as suas principais fontes de informação. Tal

acontece quando Tomé Pires se refere às ilhas de Amboína e Banda, ressalvando que:

«[S]e falamdo nestas Jlhas de Junto com bamdam for afastado dos pilotos eu nom so culpado por q nisto me cometo a quem la foy ysto tenho sabido por mouros por suas cartãs que mujtas vezes vy E se suas cartas foram aRumadas fora decrarada mete seja ysto pa leer E nom pa Rotear.»81

Não podemos esquecer que em particular a Suma foi escrita como um relato a

ser entregue ao rei D. Manuel, pelo que se revelava necessário a utilização de um

discurso objectivo.

«O seu olhar frio, meticuloso, desapaixonado (apenas por um acaso aparecem nas suas páginas amazonas) vai registando minuciosamente os empórios comerciais que existem na costa asiática meridional, as redes que os unem, as mercadorias que exportam ou importam, os governantes, as línguas, ainda as religiões; enfim, tudo o que ficava por saber ao Senhor dos Oceanos que era já D. Manuel para se converter definitivamente no árbitro supremo do comércio – e da política – na Ásia.»82

Duarte Barbosa por sua vez parece escrever uma obra para divulgação geral, não

a dedicando a ninguém, pelo que o seu discurso pode ser mais subjectivo. Ainda assim,

79 Duarte Barbosa, op. cit., edição de Luís de Albuquerque, p. 175. 80 Armando Cortesão, Primeira Embaixada..., op. cit., p. 24. 81 Tomé Pires, op. cit., p. 336.

os estudiosos são mais ou menos consensuais em dizer que «Duarte Barbosa não faz

juízos de valor sobre os povos cujos costumes, idolatrias e ritos descreve, sejam eles

gentios ou mouros. Aceita, simplesmente, a sua diferença e tenta compreendê-la. Não as

hostiliza e, não raras vezes, censura as represálias exercidas sobre eles, considerando-as

excessivas ou desnecessárias

83

. Na verdade, o autor mostra ser sensível ao impacto e

consequências da intervenção portuguesa nas políticas locais e não deixa de o referir:

«Esta Dalaca [no ano de] 1512, estando Afonso de Albuquerque dentro do Mar Roxo, mandou [...] trebuto, o qual respondeo que viessem [...] o capitão quando quisesse, porque com lanças e dardos lho pagariam, o qual despoi[s lhe saiu] bem caro, porque por muitas vezes foi muito maltratada dos portugueses»84.

Para além do inegável valor do que nestes tratados nos foi legado, na descrição

do Oceano Índico, e da sua preocupação de objectividade, interessa-nos sobretudo

verificar a presença da subjectividade na construção do discurso sobre o outro

percepcionado como diferente. Para tal, vamos proceder à análise do léxico e verificar

os momentos em que o eu/nós se demarca ou se aproxima do ele(s)/outro(s).

Na verdade, Tomé Pires, ao referir fábulas ou histórias não confirmadas, mostra

a sua descrença, por exemplo, a propósito dos reis de Cambaia serem criados com

peçonha, observa: «o q eu nom creio/ posto q ho afirmam»

85

. Depois, ao ouvir falar nos

homens das orelhas grandes da ilha de Papua, logo acrescenta: «numca vy q vise outº q

as vise Jaz ysto no pouco q hee asy»

86

.

Já Barbosa não se coíbe de condenar os mouros da cidade de Ormuz por serem

«mui luxuriosos, tanto que antre si soíam ter mancebia d'homens, nefando pecado»

87

.

Por vezes, ambos os autores procedem a generalizações nas suas descrições que

potenciam a criação de estereótipos. Para Pires, os de Bengala são grandes traidores, os

da Jaoa são diabólicos e, para Barbosa, os Poleas do Malabar são feiticeiros e ladrões

88

.

As suas opiniões bem como as opções descritivas são reveladoras de uma matriz

cultural inevitavelmente marcada pela visão eurocêntrica do mundo de quinhentos.

83 Maria Augusta da Veiga e Sousa, Introdução, in Duarte Barbosa, O Livro de..., op. cit., vol. 1, p. 19. 84 Duarte Barbosa, op. cit., edição crítica e anotada por Maria Augusta da Veiga e Sousa, vol. 1, p. 92. 85 Tomé Pires, op. cit., p. 197.

86 Idem, p. 349.

87 Duarte Barbosa, op. cit., edição crítica e anotada por Maria Augusta da Veiga e Sousa, vol. 1, p. 152. 88 Cf. Tomé Pires, op. cit., pp. 225 e 296; Duarte Barbosa, op. cit., edição crítica e anotada por Maria

II PARTE

A construção da imagem da alteridade nas obras de Tomé Pires e

Duarte Barbosa: um esboço de análise lexicométrica

«Quando o descobridor chegou à primeira ilha nem homens nus

nem mulheres nuas espreitando

inocentes e medrosos detrás da vegetação.»

Jorge Barbosa, «Prelúdio»

Nesta segunda parte, pretendemos abordar a descoberta da alteridade e a

construção da sua imagem nas obras de Duarte Barbosa e Tomé Pires. Para isso, iremos

aplicar um pequeno estudo lexicométrico que consiste num «conjunto de métodos que

permitem operar, a partir de análises estatísticas, reorganizações formais do vocabulário

(conjunto de formas actualizadas no discurso, atestadas num texto ou num corpus de

textos)»

89

.

Capítulo I: O tratamento informático-linguístico

Começámos por introduzir em computador os dois livros impressos, Suma e

Livro, tendo optado por uma leitura óptica (optical scanning) e utilizado o programa HP

Photosmart Essential. Não foram digitalizados nem os Anexos da Suma nem os

Apêndices do Livro. Depois, procedeu-se à correcção ortográfica e de «limpeza» do

texto (apagamento de «ruídos» causados por deficiências ou particularidades da

impressão, nomeadamente, anotações nas margens e o tipo e disposição dos caracteres

de paginação e de cabeçalhos ou notas de rodapé), recorrendo ao processador de texto

Microsoft Office Word 2007.

Em seguida, como em qualquer execução de um tratamento lexicométrico de um

corpus, é necessária a uniformização de algumas formas que o compõem e o

estabelecimento de uma norma lexicológica. Partimos então da palavra enquanto

89 Dulce Carvalho et al., «Discurso: Práticas lexicométricas», in Linguística Computacional: Investigação Fundamental e Aplicações, Lisboa, Edições Colibri / Associação Portuguesa de Linguística, 1999, p. 255.

unidade quantitativa de base e, não entrando na complexa discussão do conceito

linguístico de palavra, assumimos que,

«(...) il s’agit là essentiellement d’une unité graphique, séparée des unités voisines par un blanc ou une ponctuaction; (…). Nous admettrons donc, en première approximation, que chaque unité graphique est «un mot»»90.

Convém especificar que, tratando-se o presente corpus de dois textos do início

do século XVI, se nos coloca um problema acrescido de instabilidade gráfica, pelo que,

para a mesma unidade semântica, nos surgem múltiplas variantes ortográficas, o que

complexifica o trabalho de estatística lexical. Só para o lexema homem, no singular e no

plural, identificámos onze formas diferentes, já para o vocábulo cristão(s), recolhemos

dezasseis formas (cf. Anexo 10). Antes de passarmos à norma adoptada para alguns

casos específicos, temos de precisar que:

- nos interessa sobretudo a ocorrência da unidade no discurso;

- a análise terá em conta a pluralidade dos referentes, sobretudo na Suma onde

essa pluralidade é mais frequente, mas não se procedeu ao estabelecimento da unicidade

referencial;

- a extensão do corpus em análise exigiria não só maior disponibilidade de

tempo para uma anotação rigorosa do valor, função e até uniformização das 153 042

ocorrências de 13 996 formas/vocábulos (cf. Anexo 11), mas também recursos

informáticos e humanos mais vastos;

- não se pretende com o presente trabalho a elaboração de um estudo estatístico

aprofundado do vocabulário dos textos, mas antes levantar alguns aspectos que ilustrem

diferenças ou semelhanças entre a Suma e o Livro, no que respeita a algumas áreas

temáticas, pelo que permanece em aberto, visando a hipótese de prossecução/realização

de uma investigação em graus de exigência e de aprofundamento superiores.

A presente dissertação assume-se, pois como uma abordagem mais geral e uma

proposta de trabalho interdisciplinar que poderá ter continuidade. Daí que as formas

encontradas serão trabalhadas e desambiguadas consoante a pertinência, necessidade e a

oportunidade do seu estudo.

Quanto às normas usadas na uniformização das formas do corpus foram,

essencialmente as seguintes:

a) As formas contraídas de preposição com determinantes ou advérbios foram

contabilizadas como uma palavra, porém, separaram-se as contracções de

preposições com nomes ou adjectivos, como por exemplo: a-cavallo; d-abixia;

d-aço; d-adem; d-africa; d-agõsto; d-alarues; d-alboquerqe; d-alemaaes; d-

alto; d-altura; d-aluados, etc, assim como a contracção da conjunção copulativa

«e» com a palavra seguinte: e-em; e-estas; e-estes; e-esteue; e-o.

b) As formas enclíticas dos pronomes pessoais de complemento foram separadas

dos verbos com que apareciam contraídas: acharom-se; aboca-llo; acaba-se;

achou-o; acreçentã-lhe; adora-o, etc.

c) As lexias compostas por justaposição

91

com ou sem a presença de hífen foram

reunidas numa só série de caracteres, contando como uma ocorrência:

esprevão+mor; tesoureiro+mor;

capitão+mor; Indo+China; El+Rei;

cavalos+marinhos; viso+rei; Grão+Soldão, etc.

d) No texto da Suma, foi retirado o til às vogais «e», «i», «u» e a algumas

consoantes como o «v», «q», «r», pois não era reconhecido pelo programa de

análise lexical. No Português Clássico o til era usado muitas vezes para marcar

as abreviaturas, no entanto, deixou de existir com essa função no Português

Contemporâneo. Por falta de disponibilidade de tempo, as abreviaturas não

foram desenvolvidas, pelo que permanece como uma hipótese de trabalho a

efectuar.

e) A conjunção coordenativa copulativa no texto da Suma aparecia com a forma

gráfica «&» que foi actualizada para «e» por conveniência de tratamento

informático.

f) À excepção dos vocábulos em Latim, todas as palavras que apresentavam os

grafemas «u» com valor fonético de «v» (absoluer; acabauom; acataua;

aceptauell; achaua(m); acostumaua; etc.), «v» com valor fonético de «u»

(vltimo; vmano; vme; vmjdade; vmtam; vsa(m); vsada(o); vsamca; etc.), ou «j»

com valor fonético de «i» (abixij; acrimjnamos; afynjdade; agonja; ajnda; alij;

alijmarias; almjramte; almijzqr; etc.) foram actualizados.

91 «A palavra composta representa sempre uma ideia única e autónoma, muitas vezes dissociada das

noções expressas pelos seus componentes. Assim, criado-mudo é o nome de um móvel; mil-folhas, o de um doce; vitória-régia, o de uma planta; pé-de-galinha o de uma ruga ao canto externo dos olhos.» in Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 9.ª edição, Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1992, p. 106.

g) Foram unidos os adjectivos ao sufixo «mente», característico do advérbio de

modo, quando apareciam separados, sobretudo na Suma: amtiga+mente;

gerall+memte; meã+memte; fynall+memte; grosa+memte; secreta+memte, etc.

h) Todos os sobrescritos passaram a letra à linha: ª e º e

tos

passaram a «a» e «o» e

«tos» em: Doutºs; malaqª; muj

tas;

alaq

e

q

as

; qoatr°; quoatr°, etc.

i) As formas verbais «há-de» e «hão-de» surgem unidas para contarem como uma

única sequência.

j) Não fizemos qualquer lematização (não reduzimos nem as formas verbais ao

infinitivo nem os femininos ao masculino nem os plurais ao singular) nem

desambiguámos homófonas.

Após a realização da edição uniformizada e normalizada dos textos do corpus,

estes foram reunidos num único ficheiro de tipo ASCII (texte seulement), por ordem

cronológica da sua produção escrita, e analisados pelo programa Hyperbase 6.0,

programa e manual da autoria de Étienne Brunet

92

, gentilmente cedido pela Professora

Doutora Maria Teresa Lino. Este programa permitiu-nos construir, primeiramente, o

índice alfabético da totalidade das formas do corpus, uma tabela de distribuição das

frequências, uma tabela de desvios reduzidos e vários índices vocabulares por ordem

alfabética e decrescente ou hierárquica. Depois, foram pedidos alguns contextos,

concordâncias, histogramas e ocorrências consoante os temas a serem desenvolvidos.

O percurso adoptado no desvelar dos discursos dos dois autores passou pelas

leituras horizontal e vertical da tabela de distribuição de frequências e da tabela de

desvios reduzidos, bem como pela pesquisa do vocabulário nos índices vocabulares

construídos por ordem hierárquica e alfabética, tornando possível esboçar uma análise

contrastiva e comparativa das três variáveis do corpus.

Capítulo II: Os primeiros dados estatísticos e as primeiras

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