A contribuição da jurisdição de paz para a ampliação do acesso à justiça

No documento Acesso à justiça na França e no Reino Unido: perspectiva comparada no Tribunal Europeu de Direitos do Homem (páginas 88-96)

2. ACESSO À JUSTIÇA: DELIMITAÇÃO DO TEMA

3.3 A jurisdição judiciária

3.3.4 A contribuição da jurisdição de paz para a ampliação do acesso à justiça

A França é um país conhecido por receber imigrantes advindos das mais diversas culturas. Foi notório o fluxo de imigração de poloneses, espanhóis, italianos e portugueses durante os períodos de crise política deflagrada pelas ditaduras instaladas ao longo da segunda guerra mundial, a que se somou a fuga de chilenos, brasileiros e outros sul-americanos perseguidos pelas ditaduras militares, já nos anos

setenta. Intelectuais do mundo inteiro obtiveram asilo político no país, para onde convergiram obras artísticas e acadêmicas de grande qualidade. O ciclo prosseguiria com a independência das colônias francesas e o ônus social daí decorrente e, ainda, com as crises econômicas, que importariam para a França a mão de obra oriental e africana para a execução dos serviços braçais. A presença inglesa no país, deve-se ressaltar, remonta aos tempos da revolução industrial, com a importação do savoir- faire pelos franceses, desprovida da perspectiva de melhoria de vida pelo imigrante inglês.

A riqueza cultural obtida na França a partir da convergência de povos de variadas etnias no mesmo território nem por isso permitiu efetiva miscigenação, que se evidencia pela formação de grupos preocupados em preservar sua cultura de origem. Juridicamente, portanto, a França tem se apresentado como um grande centro de estudo de Antropologia Jurídica, em razão da coexistência de diversos sistemas jurídicos autóctones, não oficializados, mas nem por isso menos efetivos. Não sem razão, duas das especializações da Justiça civil são as chamadas justiças de paz, que incluem os Tribunais de Instância e as jurisdições de proximidade. Estas últimas, embora não possuam poder jurisdicional, se encarregam de resolver os litígios possíveis através de meios alternativos, em especial a mediação e a conciliação.

Ainda se discute a verdadeira natureza das jurisdições de proximidade, consideradas por alguns como mera extensão dos Tribunais de Instância, cuja criação se deu com o objetivo de atenuar o excesso de processos nestes últimos, no que foram bem sucedidas (VERICEL, 2009, p. 40). Os juízes de proximidade são encarregados de solucionar amigavelmente litígios cuja monta não ultrapasse quatro mil euros. Os Tribunais de Instância, por sua vez, dispõem de competência para o julgamento das causas não solucionadas pelo juiz de proximidade, que também se estende a causas civis, de natureza pessoal ou real, envolvendo o valor compreendido entre quatro mil

e dez mil euros. A doutrina costuma classificar em quatro as diferentes matérias sujeitas à apreciação dos Tribunais de Instância e das jurisdições de proximidade: contratos, responsabilidade civil, relações de trabalho/proteção social e propriedade de bens (VERICEL, 2009, p. 37). Especificamente sobre as jurisdições de proximidade, Métarie constatou a resistência a seu reconhecimento enquanto direito do jurisdicionado, consequência de seu evidente poder derrogatório das normas oficiais de Direito (2004, p. 135), para concluir:

Um aspecto primordial é que ele se pronuncia sempre, qualquer que seja a matéria em questão, em favor do jurisdicionado e sobretudo sob o aspecto qualitativo, reagrupando suas expressões geográfica, temporal, cultural, em torno da noção de acesso a um serviço e não mais a um poder. Isso implica, na prática, uma disponibilidade real de diversas faculdades teoricamente oferecidas, obtenção de informações, atendimento nas repartições, assistência judiciária... cuja prestação defeituosa é particularmente prejudicial nas jurisdições de primeira instância. No entanto, parece que ainda não podemos considerar essa proximidade judiciária como um verdadeiro direito do usuário, em razão da impossibilidade de aplicar à matéria em questão uma norma cujo desrespeito será sancionado. (tradução nossa). 48

Esse poder derrogatório das normas oficiais não precisa ser juridicamente reconhecido, embora ocorra de fato quando uma lide é solucionada pela mediação ou pela conciliação. No contexto francês, resolver um litígio sem o julgamento propriamente dito de uma autoridade francesa permite emergirem soluções nem sempre oferecidas pelo ordenamento jurídico francês. Tem-se, portanto, especialmente para os imigrantes, relevante mecanismo de ampliação do acesso à

48 No original Un aspect primordial est qu`il s`énonce toujours, quel que soit lê domaine en causa, en faveur

du justiciable et plutôt sur le mode qualitatif, regroupant ses expressions géographique, temporelle, culturelle..., autour de la notion d`accessibilité à un service et non plus de soumission à un pouvoir. Cela implique, en pratique, une disponibilité réelle des diverses facultés théoriquement offertes: obtention des renseignements, accueil dans les greffes, secours de l`aide judiciaire... dont la réalisation défectueuse est particulièrement préjudiciable dans les juridictions de première instance. Cependant, il apparaît que l`on ne peut guère considérer cette proximité judiciaire comme un veritable droit de l`usager, attendu l`impossibilité de fixer en la matière une norme dont serait sanctionné l`irrespect .

justiça, na medida em que promove o reconhecimento dos direitos autóctones pelo Estado francês sem afetar a sistematização e a racionalidade do direito oficial de base romano-germânica. Para tanto, bastou a incorporação de formas alternativas de resolução de litígios, em relativização, por conseguinte, da necessidade de se dogmatizar ampla gama de normas autóctones de diversas origens e, em grande parte, divergentes. Farcy e Petit já se encontravam atentos ao valor da Justiça de paz na França (2003, p. 237):

Quer se trate de remodelar a organização judiciária ou de iniciar novas formas de justiça que atenuem a crença no contencioso, a justiça de paz retorna sempre como um modelo de proximidade, tanto no plano geográfico quanto no das modalidades de resolução de conflitos, privilegiando a conciliação e a mediação (tradução nossa). 49

Essa forma de tratamento do problema do pluralismo jurídico, cuja validade é sempre sujeita a questionamentos relativos à opção de manter oficializado tão somente o direito de raízes romanísticas, compõe fotografia fidedigna do que de fato ocorre na sociedade francesa. Os nacionais de outros países, embora ocupem o mesmo espaço que os franceses, mantêm verdadeiras ilhas culturais e resistem à miscigenação. O Direito francês, por certo, ao que revela resistência recíproca à cultura dos grupos de imigrantes, mantém a integridade de seu sistema, para o quê possibilita que tais ilhas emirjam dentro dessas duas especializações de sua Justiça civil: os Tribunais de Instância e das jurisdições de proximidade. Farcy e Petit identificaram, no âmbito das Justiças de paz, a aproximação entre o jurisdicionado e os direitos, de maneira socialmente relevante de decompor a complexidade simbólica do Direito oficial (2003, p. 329):

49 No original Qu`il s`agisse de remodeler la carte judiciaire ou d`initier de nouvelles formes de justice

permettant de faire face à la crue des contentieux, la justice de paix revient toujours comme un modèle de proximité, tant sur le plan géographique que sur celui des modalités du règlement des conflits, privilégiant conciliation et médiation .

A aposta da justiça de proximidade é inversa: ela visa à reduzir a distância entre tribunal e população, a limitar a distância simbólica desenvolvida por um direito complexo que demanda especialistas para que seja explicado e compreendido, e a suprimir o obstáculo da distância econômica induzida pelas custas judiciárias. Essas três proximidades são presentes na justiça de paz: ausência de custas (gratuidade das intimações), arbitragem e compromisso fundados menos sobre o direito que sobre a equidade com vistas a restabelecer o equilíbrio de interesses entre as partes, curto tempo para chegar ao pretório e rapidez na regulação(tradução nossa). 50

Putman, por sua vez, encontra-se atento ao risco de uma Justiça paritária ser reduzida à condição de não-direito pelos juristas tradicionais (2007, p. 257-258):

Não é necessário empurrar certos juristas num canto para fazê-los admitir (ou sugerir) que quanto mais uma justiça é internalizada, maior é a suspeita de criar uma zona de não direito. Sendo o grau zero da justiça e do direito a justiça que nós mesmos percebemos, a justiça individualista, toda a justiça que nos é dada por terceiros, em situação de alteridade reduzida, arrisca ser tratada como um modo de regramento de conflitos de uma juridicidade diminuída que, como consequência das garantias formais de uma justiça estatal o mais alheia possível, arrisca se revelar menos presente (tradução nossa). 51 Por outro lado, Tomé (2007, p. 139-140) já assinalou seria impossível a efetiva integração dos imigrantes nos países da União Europeia sem prévio

50 No original: Le pari de la justice de proximité est à l`inverse il vise à réduire la distance territoriale entre tribunal et populations, à limiter la distance symbolique développée par um droit complexe ayant besoin de spécialistes pour être expliqué et compris, et à supprimer l`obstacle de la distance économique induit par les frais de justice. Ces trois proximités sont bien presentes dans les justices de paix: absense de frais (gratuité des billets d`avertissement), arbitrage et compromis fondés moins sur le droit que sur l`éqüité visant à retablir l`equilibre des intérêts des parties, peu de temps passe pour aller au prétoire et rapidité du réglement.

51 No original Il n est pas nécessaire de pousser certains juristes dans leurs retranchements pour leur faire

dire (ou laisser entendre) que plus la justice est internalisée, plus elle est suspecte de créer une zone de non droit. Le degré zéro de la justice et du droit étant la justice que l on se rend soi-même, la justice em situation d ipséité , toute justice que l on se rend entre soi , em situation d alterité réduite, risque d être assimilée à um mode de règlement des conflits d une juridicité amoindrie, ou, par conséquent les garanties formellles de la justice étatique, qui se veut la plus externalisée, risquent de se révéler moins presentes .

reconhecimento de seus direitos.52 A questão que se coloca, portanto, no âmbito do processo judiciário, é de saber se a manutenção das Justiças de paz pelo Estado, onde há o reconhecimento, embora não formalizado, dos direitos autóctones levados pelas partes, seria suficiente para possibilitar a vertente de integração dos imigrantes representada pelo acesso à justiça. A experiência francesa, ao menos em termos gerais e não sem várias dificuldades, tem sido considerada bem sucedida, segundo considerações da mesma autora (2007, p. 62):

Definitivamente, o caso da França nos levanta a possibilidade de um pacto de convivência entre cidadãos livres e iguais, baseada em valores comuns, e o exercício de um direito à imigração que permita essa livre vinculação a uma sociedade (tradução nossa).53

O problema da integração do imigrante é presente não apenas na França como em toda a União Europeia, que se depara com acentuado pluralismo. Juridicamente, os julgadores enfrentam a necessidade de ampliação de seu leque de fontes, e a experiência recente das Justiças de paz na França demonstra justamente a possibilidade de reconhecimento de direitos paralelos sem a perda de identidade jurídica própria do país destinatário do fluxo imigratório. A abertura para novas soluções parece ser inerente à concepção de pluralismo. Carulla e Sanz, ao analisarem as políticas judiciais de integração jurídica, constataram ser inevitável o reconhecimento de outras fontes, como decorrência do processo político por que passa a União Europeia (2006, p. 31):

52 Segundo Tomé (2007, p. 139- En suma, los jueces no son ajenos a la realidad económica y social que

caracteriza las sociedades contemporáneas y a la necesidad de que las decisiones que adoptan en sede judicial sirvan efectivamente para dar respuesta a los problemas que plantean los justiciables. Todo ello ha contribuido a la creación de una conciencia de que las decisiones judiciales deben arrojar luz sobre las reglas de juego, y de que esas reglas ya no se forman únicamente em sede nacional, comunitaria o internacional, sino que proceden de diferente fuentes y ordenamientos. En consecuencia, las doctrinas judiciales y los parámetros hermenéuticos también se globalizan o, en términos comunitários, también disfrutan de las libertades de circulación .

53 No original En definitiva, el caso de Francia nos plantea la posibilidad de un pacto para la convivencia entre

ciudadanos libres e iguales, de acuerdo en unos valores comunes, y el ejercicio de um derecho a la inmigración que permitiera esa libre vinculación a uma sociedad .

Em suma, os juízes não são alheios à realidade econômica e social que caracteriza as sociedades contemporâneas e a necessidade de que as decisões que adotam em sede judicial sirvam efetivamente para responder aos problemas que apresentam os jurisdicionados. Tudo isso tem contribuído para a criação de uma consci6encia de que as decisões judiciais devem lançar luz sobre as regras do jogo, e que essas regras já não se formam unicamente em sede nacional, comunitária ou internacional, já que procedem de diferentes fontes e ordenamentos. Em consequência, as doutrinas judiciais e os parâmetros hermenêuticos também se globalizam ou, em termos comunitários, também desfrutam das liberdades de circulação (tradução nossa).54

É importante frisar, contudo, que longe de ser uma Justiça para os imigrantes,o que seria inadmissível em tal sociedade ideologicamente fundada sobre a igualdade, segundo princípio do lema da Revolução Francesa, as Justiças de paz na França aplicam-se a causas de menor envergadura financeira ou a infrações de menor potencial ofensivo. Contudo, em virtude de sua origem mesma, logo se revelaria sua adequação à resolução de conflitos dentro de uma sociedade composta, em grande parte, por imigrantes. A jurisdição de proximidade está perto de ser extinta, mas os juízes de proximidade serão mantidos nos quadros dos Tribunais de Instância.55 Nos julgamentos a que a França respondeu no Tribunal Europeu, houve uma única reclamação voltada contra um Tribunal de Instância (caso Siegel), de que resultou sua condenação pelo não fornecimento de justiça em tempo razoável, tendo sido considerados excessivos os quatro anos e onze meses em que o processo teve curso.

54No original En suma, los jueces no son ajenos a la realidad económica y social que caracteriza las sociedades contemporáneas y a la necesidad de que las decisiones que adoptan en sede judicial sirvan efectivamente para dar respuesta a los problemas que plantean los justiciables. Todo ello ha contribuido a la creación de una conciencia de que las decisiones judiciales deben arrojar luz sobre las reglas de juego, y de que esas reglas ya no se forman únicamente em sede nacional, comunitaria o internacional, sino que proceden de diferente fuentes y ordenamientos. En consecuencia, las doctrinas judiciales y los parámetros hermenéuticos también se globalizan o, en términos comunitários, también disfrutan de las libertades de circulación.

55 A lei 2011-1862, editada em 13 de dezembro de 2011, dispõe sobre a extinção da jurisdição de proximidade, que ocorrerá em 1º de janeiro de 2013, incorporando suas funções e seus juízes leigos aos Tribunais de Instância.

No documento Acesso à justiça na França e no Reino Unido: perspectiva comparada no Tribunal Europeu de Direitos do Homem (páginas 88-96)