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A Controladoria

No documento 02.ModeloRiscoRetorno (páginas 37-45)

Com a já presente globalização dos mercados, política e geograficamente

agrupados em blocos como Mercosul, União Européia e Nafta, o que se espera a

curto e médio prazos é uma maior integração comercial entre os países, com

repercussão até mesmo na unificação de padrões e princípios contábeis. Essa

integração comercial, em face do esperado aumento no volume de transações, reflete

e certamente continuará refletindo com maior intensidade a necessidade de

aprimoramento de controles, visando ao adequado monitoramento dos riscos que

permeiam suas transações.

É tão forte a marca da globalização dos mercados que, atualmente, uma

instituição financeira brasileira já consegue colocar Eurobonds e Euronotes no

A Controladoria precisa acompanhar essas mudanças, e suas funções

precisam ser acrescidas de outras, focando a atenção também no monitoramento das

variáveis que impactam o negócio, as quais são altamente regulamentadas nos

aspectos contábil e fiscal, o que as torna plenamente passíveis de identificação,

mensuração e adequada divulgação a seus usuários.

Os aspectos ligados à identificação e mensuração dos riscos das transações

carecem, no entanto, de maior análise. Isso se dá pelo diferente enfoque sob o qual

cada instituição interpreta os riscos a que se expõe, quer por aspectos culturais, quer

por estrutura acionária, quer pela complexidade na interpretação dos modelos

matemáticos, quer pela dificuldade na plena identificação das transações que formam

as posições de riscos dessas instituições.

7.1 As funções clássicas da Controladoria

Definir a atividade da Controladoria em instituições financeiras e em

corporações não financeiras não é tarefa muito fácil, uma vez que ela assume

atividades diferentes dependendo da cultura e dos costumes das corporações. Por

exemplo, em certas corporações, a Controladoria não tem como uma de suas

atividades o controle orçamentário, que fica como uma unidade separada.

As funções básicas de Controladoria, segundo Willson, Roehl-Anderson e

Bragg (1995:22-23)7, são:

1 – Planejamento: Estabelecimento e manutenção de um plano integrado de operações de curto e longos prazos, consistente com as metas e objetivos da companhia, analisado e revisado quando necessário, comunicado a todos os níveis da gerência, utilizando sistemas e processos instalados adequadamente; 2 – Controle: Desenvolvimento e revisão de padrões para avaliação da

performance e para prover linhas gerais e suporte aos membros da gerência afim de assegurar comparação dos resultados realizados com estes padrões, considerando informações financeiras e informações não-financeiras;

7

WILSON, James D., ROEHL-ANDERSON, Janice M., BRAGG,Steven M. Controllership: The Work of the Managerial

3 – Relatórios: Preparação, análise e interpretação dos resultados financeiros para utilização da gerência no processo decisório, proporcionando análise das informações com referência aos objetivos da companhia. Preparação de relatórios para autoridades reguladoras, acionistas, instituições financeiras, clientes e para o público geral;

4 – Contabilidade: Desenho, estabelecimento e manutenção da Contabilidade geral e de custos para toda a companhia, registrando adequadamente todas as transações financeiras nos Livros, de acordo com os príncipios contábeis e controles internos, com flexibilidade suficiente para prover informações essenciais requeridas pela gerência para planejar e controlar adequadamente os negócios da companhia;

5 – Outras responsabilidades: Relacionamento com Auditores externos, investidores, órgãos reguladores; responsável pela área tributária e programas de segurança, entre outros.

Nagakawa (1987:2)8, ao descrever o papel do controller contribui para o

entendimento da função de Controladoria:“(…) cabe ao controller a tarefa de projetar,

implementar, coordenar e manter um sistema de informações capaz de atender

adequadamente as necessidades informativas do processo de planejamento e

controle da empresa”.

Em trabalho realizado na disciplina Controladoria Avançada, Brito, Gomes e

Ornelas (1996)9, descrevem a atividade de Controladoria como “um processo

dinâmico de gestão de identificação, mensuração, informação e decisão sobre os

eventos econômicos de interesse de todos os gestores, que perpassa todos os níveis

hierárquicos da organização”.

7.2 A Controladoria com ênfase em riscos de crédito e de mercado

Exceto pela atividade referente à elaboração do orçamento, as funções clássicas

de Controladoria descritas na página anterior e nesta página registram e analisam

informações econômico-financeiras referentes a eventos já realizados. Mesmo a

atividade referente à elaboração do orçamento baseia-se geralmente em eventos

passados como fonte de projeção de valores.

Como uma de suas atividades, a área de Controladoria procura analisar o retorno

de determinada transação realizada. Preocupa-se em avaliar um evento ocorrido, ou

seja, qual o resultado obtido.

Neste ponto, esta tese tem como objetivo alterar este conceito. A Controladoria

deve migrar da análise do retorno obtido para a análise do retorno em condições de

risco e alocação de capital. Esta migração altera este conceito de se preocupar

somente com o retorno porque:

- Ao se analisarem os riscos envolvidos na carteira ou título que gerou

determinado retorno, pode-se determinar a qualidade deste retorno;

- Ao se saber a qualidade do retorno, obtêm-se informações importantes

referentes aos próximos retornos, ou seja, pode-se conhecer melhor o

quantum em risco do retorno obtido, contribuindo com informação qualitativa, até mesmo com características preditivas;

- Conhecendo-se os retornos sobre os riscos e o capital utilizado, torna-se

possível maximizar os recursos alocados, reduzindo o volume com transações

não rentáveis sob esse prisma e aumentando o volume com transações mais

rentáveis, sempre observando os limites de riscos disponíveis.

Esta reorientação da atividade de Controladoria, incorporando a análise do risco

à do retorno e alocação de capital, procura melhor posicionar a instituição no tempo,

por meio do fornecimento de informações de melhor qualidade, contribuindo para uma

instituição melhor orientada e mais competitiva.

Nestas condições, a Controladoria incorpora novas dimensões ao universo do

controle do risco. Isto quer dizer que, dado o fato de que o risco é inerente às

operações de uma instituição financeira, é absolutamente necessário identificar, suas

também a alocação de capital, simultaneamente com a necessidade geral a todas as

empresas, de gerar retorno sobre os investimentos realizados.

Esta tridimensionalidade da Controladoria das instituições financeiras é

fundamental e vai alterar a forma e o conteúdo de:

1 – Coleta de dados:

- dados a respeito do uso dos recursos (custos e receitas);

- dados a respeito do risco na utilização de recursos.

2 – Preparação dos demonstrativos financeiros

- devem incorporar medidas de risco, ao lado das medidas de

rentabilidade;

3 – Análise de desempenho

- devem prover medidas simultâneas, bidimensionais de retorno e

risco em cada produto e linha operacional do banco.

Num primeiro passo, a Controladoria precisa criar processos para identificar,

mensurar e divulgar as informações referentes às posições com riscos de crédito e de

mercado. Como órgão que tem acesso às informações globais, a Controladoria tem

melhores condições para desenvolver e implantar esses processos que se

desenvolvem em etapas, conforme se observará no capítulo 2.

Os aspectos matemáticos dos modelos, importantes no processo de

mensuração de riscos, serão citados e comentados nesta tese, porém a exploração

matemática destes modelos não é aqui objeto de estudo. A discussão destes

modelos ocorrerá no sentido de se entender seu funcionamento, como ferramenta

para melhor mensuração e compreensão dos riscos envolvidos.

Faz-se também importante o domínio de: como monitorar os riscos de

É neste contexto que esta tese se desenvolve, contribuindo para que a

Controladoria, com base no melhor conhecimento e monitoramento dos riscos de

mercado e riscos de crédito, entenda os riscos que a instituição está assumindo,

possibilitando o advento de medidas preventivas a fim de, até mesmo, resguardar a

boa continuidade da instituição.

A Controladoria é aqui concebida como a área mais adequada e oportuna para ser a responsável pelo sistema de controle de riscos, porque é um órgão neutro o suficiente para julgar com independência e porque, tendo acesso às informações gerais, a consolidação e validação dessas informações são facilitadas.

Ressaltando a importância do adequado controle dos riscos de mercado,

Carvalho (1996:1-2)10 cita em sua tese de doutorado o caso do banco inglês Barings

plc, que deixou de honrar compromisso de cobertura de margem de operações na bolsa de futuros de Cingapura:

O inusitado da situação resulta de uma combinação de fatores adversos que se exponencializaram: a) o banco de investimentos britânico Barings plc, ali referido como "venerável" (por certo em reconhecimento a seus 233 anos de existência até sucumbir naquela data), entrará em colapso sob o peso de perdas avaliadas em US$ 1,3 bilhão , decorrentes de operações no mercado de opções do ativo "índice", conhecido no mercado especializado como "Nikkei 225", na modalidade "straddle"; b) o operador ("trader", no jargão do setor) um funcionário categorizado, na faixa etária de 28 anos, condutor das negociações que levaram ao mencionado desfecho, aparentemente agia, conforme notícias veiculadas em alguns órgãos da imprensa de diversos países, com autonomia e poderes para esse nível de risco, tanto da parte de seus superiores na Organização quanto da Bolsa SIMEX, à qual competia monitorar e supervisionar tais transações pela sua função auto-reguladora de mercado; c) os sócios do Banco Barings plc revelaram-se publicamente " surpresos" com o nível de risco assumido e as perdas acumuladas que acabaram por provocar o colapso da Instituição; d) um membro da firma de consultoria em tecnologia Comtex Systems, de Nova York, menciona que "Barings esteve quase a ponto de instalar um sistema de computador que poderia ter prevenido o desastre, mas abandonou o plano quando este lhe pareceu muito caro"; e) o referido consultor concluiu, no artigo mencionado, que Barings "simplesmente não dispunha de adequado controle de risco operacional em Singapura”.

10

Já Tostes (1997:19)11 cita em sua tese de doutorado que:

Em 1992, o presidente do Federal Reserve Bank manifestou sua preocupação sobre os riscos causados pelos instrumentos derivativos e a habilidade em compreender o que os operadores faziam. Em conseqüência, várias pesquisas foram realizadas. O relatório que causou maior impacto foi a revisão efetuada pelo Grupo dos 30 (G30), contendo recomendações aos participantes do mercado financeiro. A insegurança das autoridades se devia a três fatores: a correta avaliação das posições assumidas, sua evidenciação nas demonstrações financeiras e, ainda, "outra preocupação existente é que esses instrumentos financeiros (derivativos) têm se desenvolvido tão rapidamente que os Princípios Contábeis Geralmente Aceitos (PCGA) não têm sido capazes de acompanhá-los.

Santana (1995)12 relacionou alguns casos de prejuízos referentes a riscos de

mercado (prejuízos com instrumentos financeiros):

a) Procter & Gamble +/- US$ 102 milhões = mercado futuro de taxa de juros. Ações paralelas = acionistas x P&G ("hedge" x especulação) e P&G x Banco Trust (não informa todos os riscos);

b) Kashima Oil +/- US$ 1,5 bilhão = "swap" de taxa de câmbio yen x dólar; c) Metallgesellshaft +/- US$ 900 milhões (quase falência) = contratos futuros de petróleo;

d) Banco Barings = (quebra) = futuro de índices de ações do mercado japonês (Nikei);

e) México = instabilidade econômica. Capitais de curto prazo (na maioria especulativos) utilizados para financiar consumo.

As lições dos desastres são:

- para os administradores das instituições financeiras: a necessidade

de implantação de um sistema unificado de gestão de risco;

- para os regulamentadores das instituições financeiras: a

necessidade de impor regras sobre limites de risco a serem

assumidos pelas instituições, a fim de evitar riscos sistêmicos e

Ao disponibilizar um Balanço Patrimonial segregando os riscos de mercado,

um outro Balanço Patrimonial segregando os riscos de crédito, ambos conciliados

com o Balanço Patrimonial Contábil, espera-se estar também contribuindo para a

melhoria dos controles e melhor evidenciação da instituição aos seus usuários

No documento 02.ModeloRiscoRetorno (páginas 37-45)

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