• Nenhum resultado encontrado

2.1 DANÇA DO PASSADO QUE SE FAZ PRESENTE

2.1.1 A Dança como Contato: uma cena improvisada

A nova dança de ação deve nascer do povo que teve que dominar um continente, abrir miríades de caminhos através das florestas e planícies, vencer as montanhas, construir torres de aço e de vidro (HUMPHREY apud BOURCIER, 2001, p. 270).

Uma das fundadoras da Escola Moderna Americana, DorisHumphrey inaugurava experiências sobre a relação entre a música, o ritmo e a representação coreográfica com diversas oscilações de corpo acreditando que o ritmo motor é gerado pela reação do corpo no espaço e que o símbolo das forças que agem contra o homem é o peso, portanto, cair e se refazer constituem a própria essência do movimento.

Isso que Humphrey acreditava para a dança americana nos leva a pensar nos princípios da improvisação: a dança que vem de um coletivo, a interação de corpos que se dá através do peso, a espontaneidade de um movimento natural, movimentos que partem da investigação de um estilo próprio.

Tal aproximação de Humphrey permeia a improvisação em contato no sentido de desenvolver constantemente novas possibilidades de movimento a partir da leitura da intenção, direção, eixo gravitacional e inúmeras percepções como um possível ‘estilo’ de dança que trabalha basicamente com os princípios das leis do movimento corporal, associados aos recursos do funcionamento do sistema neuropsicomotor por meio da conexão do sujeito com seus próprios processos de ligação sensória com o mundo.

O momento de uma força sobre um ponto, o produto da intensidade dessa força pela distância entre o ponto e a direção da força possibilita variações de tempo. Fisicamente, segundo suas leis, a noção do envolvimento da força vital de um sólido girando em torno de um eixo provoca o momento de inércia de cada ponto do material sólido, é o produto da massa do ponto considerado pelo quadrado da distância entre ela e o eixo de rotação. Nesse entendimento o centro de um intérprete-criador pode ser o eixo de outro e vice-versa modificando as suas emoções, seus ritmos e seus gestos. Logo o movimento dos corpos em contato tece-se a uma unicidade de movimentos resultando na osmose entre os corpos.

O movimento de colaboração surge de um processo de aprendizado, em que, ao tentar mover-se, partindo de outro corpo, cria-se um ambiente de partilha movido por uma sintonia entre dar e receber num diálogo que se dá através da escuta corporal, constantemente nos levando a refletir sobre conceitos como hierarquias e lideranças, dominantes e dominados, gêneros e biótipos. O contato-improvisação tende a minimizar ou até mesmo anular essas diferenciações. O que poderia ser visto como um erro torna-se potencialmente um espaço para novas criações; logo, a beleza não está na plasticidade da forma ou virtuosismo técnico, mas, no grau de intensidade com que os corpos possam interagir.

Figura 28: Projeto de Extensão Vértice ETDUFPA Fonte: Higor oliveira

Novas conexões surgem da necessidade de dialogar com os acontecimentos atuais, o que gera não apenas novos movimentos, mas, atitudes e pensamentos, ideologicamente construídos dentro do contexto social no qual o contactista está inserido. Convenções vêm sendo derrubadas; pode-se observar homens e mulheres desempenhando os mesmos papéis principalmente no contato-improvisação de movimentos aéreos, no qual mulheres levantam homens naturalmente, ou mesmo quando corpos caem e se refazem em estado de equilíbrio e desequilíbrio, permitindo-se cruzar informações e permanecerem criativos e em estados de atenção no jogo.

O movimento está no homem, seus gestos se encontram em seu corpo, por isso a necessidade de expressar-se com naturalidade ao falar e andar agregando gestos que são desvelados a partir dos pontos de vinculação com a vida que o rodeia. Uma mobilização em descoberta do ritmo mais interno que há na via de comunicação de um corpo com outro, um movimento que nunca terá um fim em si mesmo, mas que desliza entre criação e transmissão com o meio. Assim, como afirma María Fux, “a dança está no homem, em qualquer homem da rua, e é necessária desenterrá-la e compartilhá-la” (FUX, 1983, p. 39).

O encontro em contato vai se materializando com ou sem música, apenas pela atração permanente de uma comunicação não verbal e pelo impulso criativo

extremamente significativo em cada descoberta. Perguntas são geradas a cada superfície de contato, uma coleta de informações sobre quem me toca ou quem eu toco, como linhas de encontro e desencontro, um conhecimento entre perguntas e respostas, saltando em direção ao ato criativo.

Figura 29: Jam session no Projeto cena na 5 ETDUFPA Fonte: Arquivo Pessoal da Pesquisadora

A escuta do ritmo interno leva a um som harmônico que produz uma sinergia, como se esses corpos já se conhecessem muito antes do primeiro contato. Quanto mais perceptivos estivermos, mais teremos possibilidades de intensificar a investigação de movimento e mais prazeroso será o contato. Criar, transformar e transformar-se são impulsos infinitos no movimento de quem pratica, como o pintor ao fazer os primeiros rabiscos em sua tela; a cada nova forma, novos impulsos são gerados, e ele aprende a entregar-se a sua própria criação. Não há quem ensine e quem aprenda, os corpos desenham e pintam no ar, formam novas imagens, produzem novas telas.

Figura 30: Jam session no Encontro Internacional de contato Improvisação SP-2011 Fonte: Arquivo Pessoal da Pesquisadora

O pensamento coletivo é propulsor de uma dança coletiva valorizada e interpretada dentro de um sistema de igualdades que possibilita ações e decisões subjetivas unificando o papel de diretor- criador- intérprete-bailarino em cada pessoa de uma só vez. Ela tem a liberdade de realizar inferências no momento da atuação; pode ser que em dado momento um desses papéis esteja mais implícito na raiz dos gestos diante do que está sendo vivenciado naquele instante.

Segundo Barba (2010), é possível classificar os gestos em quatro tipos: os gestos sociais, que tratam das relações dos homens entre si; os gestos funcionais, desenvolvidos na vida cotidiana principalmente no que refere ao trabalho diário; os gestos rituais, aqueles que culturalmente provêm das religiões, e os gestos emocionais, que correspondem às traduções imediatas de nossos sentidos individuais. Marcel Mauss classificaria os gestos em técnicas corporais inerentes ao ser humano e Eugenio Barba em ações cotidianas e extra-cotidianas.

A improvisação pode ser entendida como a criação de materiais, um processo que dá vida a uma sucessão de ações físicas ou vocais partindo de um texto, de um tema, de uma personagem, de imagens,

associações mentais ou sensoriais, de um quadro ou de uma melodia, de lembranças, episódios biográficos ou fantasias (BARBA, 2010, p. 62).

O autor e diretor de teatro italiano, ao referir-se à improvisação, afirma que seu valor só é atribuído se ele reutilizá-la em sua totalidade, como um fragmento de tecido vivo a ser inserido no complexo organismo de um espetáculo.

Para Barba, o termo improvisação cobre três procedimentos bem diferentes: as ações físicas ou vocais partindo de associações diversas; tem-se, assim, improvisação como sinônimo de variação, ocorrendo geralmente quando o ator desenvolve um tema ou uma situação alternando e entrelaçando materiais já conhecidos e incorporados dando a impressão de ser “espontâneos” e assumem significados diferentes segundo as variações, as combinações, as sucessões, o ritmo e os contextos.O terceiro procedimento a improvisação quer dizer individuação, possibilidades de interpretação com matizes diferentes a cada experimentação.

Durante o processo de criação, o pensamento criativo flui em saltos, logo não podendo ser retilíneo, unívoco e pré-visivel.

Improvisar: entrar no território que você não domina. Como criar esse território: condições concretas, premissas, regras, fatores materiais que não permitem usar espontaneamente (mecanicamente) a própria experiência. Há uma memória que nos obriga a repetir(sem que tenhamos consciência disso); e uma memória que ajuda a evitar a repetição (precisa de toda a nossa consciência). (BARBA, 2010, p. 268).

A improvisação está nos atos da vida que não permitem ensaios, eles simplesmente acontecem e são dança. Está em nossas relações cotidianas em constantes trocas com o outro e com o ambiente; um tocante-tocado a nos envolver naturalmente, despertando percepções e sensações que nos levam a estímulos transitórios, ricos de possibilidades criativas já existentes; quando estimulada, expressa a pessoalidade de cada interlocutor cênico.

Figura 31: Aula do Projeto de extensão Vértice Fonte: Arquivo Pessoal da Pesquisadora

As criações baseadas no contato-improvisação não têm a pretensão de fixar movimentos nem tornarem-se passos a serem repetidos intencionalmente e/ou exaustivamente, mas ampliar possibilidades de um processo de comunicação permanente que se dá entre os participantes.

O dançarino, a platéia, o músico e o coreógrafo atuam diferenciadamente dentro de um sistema de percepção com níveis diversos de atenção. Cada um, instintivamente, priorizará um aspecto de composição que lhe dará mais conforto e estímulo a ser visto e analisado. Cada um terá um olhar aprofundado daquilo que mais se assemelha. São questões de interesses e afinidades, por mais que todos eles estejam condicionados à mesma cena.

O campo do contato-improvisação pode ser visto como uma estrutura coreográfica aberta desenvolvida no ato da própria criação. Criar, em dança, é como poder ver pedaços de informações de nossas vidas em uma proposição cênica carregada de sensibilidades múltiplas, com conteúdos emotivos e intelectuais que

interligam diversas áreas do humano com as diferentes possibilidades da vida, gerando ações transformadoras, quantas vezes forem necessárias.

Nesse sentido, há um fluxo de mudanças em relação ao espaço, ao corpo, à forma, à dinâmica dos movimentos, que tornam o campo de atuação fértil para a criação. Cria-se uma nova dança, que estará em eterno fluxo contínuo de renovação, pois, diariamente, é possível desencantar um novo aprendiz que passará a ser investigador, intérprete e criador dos fatos reais acontecidos nele, com ele e para ele. É sua própria vida que estará em cena.

Estar em contato é, também, se permitir passar por diversos estados corpóreos nos vários níveis de exploração resultando em provocações de estímulos ao toque, a transferência de peso, rolamentos, deslocamentos de pesos, inventando e re-inventando entradas e saídas diante de soluções dadas à dança num momento da partilha daquela dança.

Contato improvisação faz-se com o corpo que temos e não com o corpo idealizado por uma técnica. Praticar o contato é mais do que movimentar-se livremente no espaço, é ter liberdade de movimentos e defendê-los ideologicamente diante da sua espontaneidade. Trata-se de uma unidade comum de valores e princípios presentes nessa prática, o que não se verifica tão facilmente nas outras formas de expressão da dança.

Jussara Muller afirmou que “a dança é aquela palavra que para cada um terá um significado diferente. Cada resposta terá o seu lado verdadeiro, mas, nenhuma pode se fechar como mais verdadeira, esbarra-se, portanto, em uma multiplicidade de resposta”. (MULLER, 2007, p.91) Assim como no contato tratam-se de realidades singulares, sempre dependerá do momento em que cada um se encontra. A verdade está no movimento que se acredita verdadeiro; são momentos de escolha, uma seleção prévia sem tempo para prever a seleção consciente, ela é da ordem do sensível.

Experienciar o contato é desvelar para outros nossas experiências subjetivas, e o outro ser capaz de compreender o relato e estabelecer relações com suas próprias experiências. Num dado momento vivenciado, quando me proponho a entrar em contato com outro corpo, abre-se um campo de possibilidades para perceber a sua história, buscando informações, conceitos e valores que, ao serem partilhados com os meus, juntos darão significado ao mundo. Trata-se da

incorporação de movimentos como fonte de sentidos que não se restringem apenas a uma dança, mas é para a vida.

Qualidades como presença, percepção do espaço, oposições, podem ocasionar a densidade, a resistência, a inteireza, provocando diversas expressões, carregadas ou não de algum significado. O significado que emana o movimento desvelará informações específicas importantes ao desenvolvimento do contato diante das qualidades. Na verdade, essa busca de informação é muito especifica e precisa ser escutada, pois ela vai ditar essa qualidade. Se a pessoa não se dispõe dar essas informações, meu contato não será aprofundado. O contato-improvisação tem um caráter extremamente plural. Traços inovadores para tentativa de uma nova dança que dão sinais de um diálogo com a vida cotidiana.

Ser sensibilizado pelo contato direto com o cotidiano é dar sentido as ações e atitudes que desvelam o nosso papel no mundo e estabelece nossas relações sociais como necessária para o aprendizado. “Aprendizagens do segredo de corpos misturados, pela sensação que forja a sapicência como faz a sagacidade da pele, essa veste que mede as relações imediatas com o aqui e o agora (MEIRA, 2003, p. 123).

Contextualizar os acontecimentos vividos é estabelecer relações diretas consigo mesmo, com o outro e com o lugar que está inserido, levando-nos a se (re) conhecer e (co) relacionar a diversidade de histórias e de contextos culturalmente construídos e que influenciam diretamente na criação, transmissão e apreciação da arte que estamos engajados, a dança, com seus signos reverberantes nos processos de criação, interpretação e contextualização com outras áreas do conhecimento. Volta-se o olhar, então, para os nossos primeiro contatos que já nos impregnam de linguagens, a casa, o contato de um lugar, de uma localidade, “um canto de mundo”, o cogito do sonhador, lugar da morada dos sonhos, de construção de singularidades, de encontros e (re)encontros constantes.

Documentos relacionados