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A DEFESA DE UMA TEORIA INTENSIONAL DO INFINITO

Demonstrac ¸˜ ao, generalidade e negac ¸˜ ao

A DEFESA DE UMA TEORIA INTENSIONAL DO INFINITO

A defesa de uma teoria intensional do infinito ´e possivelmente o aspecto mais ilustre das considera¸c˜oes de Wittgenstein sobre a matem´atica nas PhBm. Vale relembrar, desde o

in´ıcio, que o adjetivo “intensional” deixa de caracterizar – como na discuss˜ao acerca da teoria das classes – a propriedade de uma extens˜ao ser dada intensionalmente por um conceito, e passa a caracterizar a propriedade de uma lei que n˜ao imp˜oe limites para a sua aplica¸c˜ao sucessiva. Essa ausˆencia de limites de uma lei j´a ´e, segundo Wittgenstein, raz˜ao suficiente para que n˜ao possamos falar, neste caso, de uma totalidade:

Contudo, parece agora que o quantificador n˜ao tem sentido para n´umeros. Quero dizer: n˜ao se pode dizer “(n)ϕn”, precisamente pois “todos os n´umeros naturais” n˜ao ´e um conceito delimitado. Mas, ent˜ao, tampouco se deveria dizer que de uma asser¸c˜ao sobre a essˆencia dos n´umeros se segue uma asser¸c˜ao geral. / Mas, nesse caso, parece-me que n˜ao se pode, absolutamente, empregar a generalidade – todos etc. – na matem´atica. N˜ao h´a “todos os n´umeros”, simplesmente porque existem infinitos.∗

Na ´ultima observa¸c˜ao do cap´ıtulo XI, Wittgenstein alega que o car´ater com- pletamente determinado do sentido de uma proposi¸c˜ao matem´atica est´a vinculado `a exigˆencia de que, se h´a uma vari´avel na proposi¸c˜ao, todos os valores da vari´avel devem estar completamente determinados†. A insistˆencia, no cap´ıtulo XII, de que n˜ao h´a,

na aritm´etica, um discurso sobre a totalidade dos n´umeros tem, por consequˆencia, o fato de que, em uma proposi¸c˜ao matem´atica, n˜ao pode ocorrer nenhuma vari´avel que “percorra” tal totalidade. A proposi¸c˜ao ´e finita; ´e s´o deste modo que ela pode ter um

sentido completamente determinado.

A solu¸c˜ao de Wittgenstein para apresentar a generalidade na aritm´etica ´e veicul´a- la por meio de uma indu¸c˜ao (uma lei): “A generalidade na aritm´etica ´e apresentada por meio de uma indu¸c˜ao. A indu¸c˜ao ´e a express˜ao para a generalidade aritm´etica”‡.

Devido ao fato de que uma indu¸c˜ao n˜ao ´e uma proposi¸c˜ao, ela n˜ao assere a verdade ou a falsidade de uma generalidade, mas apenas mostra a possibilidade de se dar um passo a mais. Em uma conversa com o c´ırculo de Viena, Wittgenstein deixa claro o car´ater n˜ao assertivo (n˜ao proposicional) de uma indu¸c˜ao:

Um enunciado sobre todos os n´umeros n˜ao ´e apresentado por meio de uma proposi¸c˜ao, mas por meio da indu¸c˜ao. A indu¸c˜ao, todavia, n˜ao pode ser negada, tampouco afirmada, pois ela n˜ao assere nada. Portanto: onde um enunciado est´a presente, ele pode ser negado. E onde uma constru¸c˜ao n˜ao pode ser negada, ´e porque n˜ao h´a a´ı nenhum enunciado. O princ´ıpio do terceiro exclu´ıdo certamente n˜ao vale – e, na verdade, simplesmente porque n˜ao se trata aqui de proposi¸c˜oes.§

A possibilidade de dar um passo a mais se apresenta, na matem´atica, como uma possibilidade da nota¸c˜ao, e sua realiza¸c˜ao est´a sujeita a todas as limita¸c˜oes

PhBm, XII−126a-b .

Ibid., XI−122g.

ibid., XII−129c .

materiais a que um c´alculo efetivo, digamos, no papel, est´a sujeito. A infinitude da indu¸c˜ao, no entanto, n˜ao se sujeita a estas limita¸c˜oes, pois ela n˜ao se contrap˜oe `a finitude. O infinito, afirma Wittgenstein, “n˜ao concorre com o finito. Ele ´e aquilo que essencialmente n˜ao exclui nada finito”∗. O infinito, diz o autor, ´e uma flecha e n˜ao

um comprimento†. ´E a interpreta¸c˜ao de um infinito como uma grandeza que leva `a

confus˜ao entre uma impossibilidade l´ogica e uma impossibilidade emp´ırica: ´e dito que uma s´erie infinita poderia ser inspecionada completamente por Deus e que apenas n˜ao pode ser inspecionada por meio das limita¸c˜oes humanas (Frege‡), quando, na verdade,

uma s´erie infinita, vista como uma totalidade que foi efetivamente inspecionada termo a termo, ´e um contrassenso.

Esta diferen¸ca categorial do “infinito” em rela¸c˜ao ao “finito” far´a Wittgenstein tra¸car uma distin¸c˜ao entre dois sentidos da palavra “poss´ıvel”. Quando se diz que “´e poss´ıvel que este livro esteja sobre a mesa”, isto significa que faz sentido dizer que o livro realmente est´a sobre a mesa, mas quando se diz que “infinitas coisas podem se encontrar nesta dire¸c˜ao”, isto n˜ao significa que faz sentido dizer que h´a efetivamente infinitas coisas que est˜ao nesta dire¸c˜ao, mas que faz sentido, para cada n´umero particular, dizer que este n´umero ´e o n´umero de coisas que est˜ao nesta dire¸c˜ao. Isto ´e, o “poss´ıvel” no caso finito se refere ao sentido de uma proposi¸c˜ao finita; j´a o “poss´ıvel” no caso infinito se refere ao sentido de uma s´erie de proposi¸c˜oes finitas, mas n˜ao ao sentido de uma proposi¸c˜ao infinita.

O primeiro tipo de possibilidade, como vimos anteriormente, se deixa mostrar por meio de uma efetividade no plano do simbolismo: a situa¸c˜ao poss´ıvel ´e descrita pela linguagem, e isto mostra a sua possibilidade. J´a o segundo tipo de possibilidade n˜ao se deixa mostrar de modo an´alogo, pois isso exigiria a realiza¸c˜ao de infinitos atos simb´olicos independentes. Este tipo de possibilidade deve se mostrar como uma possibilidade da nota¸c˜ao:

O que significa dizer que uma mancha no espa¸co visual pode ser dividida em 3 partes? Pode significar certamente apenas que uma proposi¸c˜ao que descreve uma mancha dividida deste modo tem sentido. (...) / Em contrapartida, a divisibilidade infinita – ou melhor ilimitada – n˜ao significa que h´a uma proposi¸c˜ao que descreve uma linha dividida em infinitas partes, pois esta proposi¸c˜ao n˜ao existe. Esta possibilidade n˜ao ´e, portanto, indicada por meio de uma efetividade do signo, mas por meio de outro tipo de possibilidade do pr´oprio signo.§

PhBm, XII−138b.WAi, p. 121.

Cf. Frege: Grundgesetze der Arithmetik, V II, p. 129 (§125): “...die Folge braucht, solange

sie besteht, nie mehr als jene drei Terme zu enthalten und w¨are doch eine unendliche, wenn jene

M¨oglichkeit gen¨ugt. Besteht sie? F¨ur einen allgem¨achtigen Gott, ja; f¨ur einen Menschen, nein”.

´

E precisamente este tipo de possibilidade infinita, presente no sistema decimal como uma possibilidade de interpola¸c˜ao entre dois sinais, que interessou a Wittgenstein (como vimos no Cap´ıtulo 2 deste estudo) no momento da apresenta¸c˜ao do espa¸co visual.

Aquilo que h´a de infinito, neste caso, est´a expresso nas regras para a manipula¸c˜ao da nota¸c˜ao, e nenhum outro tipo de infinito pode ocorrer na matem´atica. O infinito ´e, portanto, regrado, obedece `as leis do simbolismo e s´o se apresenta mediante estas leis. Esta teoria do infinito ´e tamb´em chamada de “teoria das prescri¸c˜oes (Vorschriften)”.

Nas PhBm, Wittgenstein combate constantemente uma teoria do infinito que pretende ser mais geral que a teoria das prescri¸c˜oes. Uma teoria que procura descrever a infinitude ao inv´es de apresent´a-la. Uma teoria extensional do infinito concebida ao modo de uma teoria intensional (descritiva) das classes. Esta teoria ´e chamada de “teoria dos agregados” ou “teoria dos conjuntos”. Para Wittgenstein, esta teoria n˜ao se manifestava no trabalho de um ou outro autor, mas era um fenˆomeno generalizado da pr´atica matem´atica de sua ´epoca: “a matem´atica est´a toda infestada de modos de express˜ao da perniciosa teoria dos conjuntos”∗. ´E poss´ıvel encontrar, no entanto,

algumas referˆencias espec´ıficas a problemas e a autores que estariam vinculados a esta pr´atica, e.g., i) Dirichlet, e sua defini¸c˜ao de fun¸c˜ao; ii) Dedekind, e sua defini¸c˜ao de

conjunto infinito‡; iii) Cantor, e sua an´alise do continuum§; iv) Russell, e sua defini¸c˜ao

da rela¸c˜ao de ancestralidade¶.

Um curto excurso hist´orico nos permitir´a compreender melhor algumas das cr´ıticas de Wittgenstein `a teoria dos agregados. Procuraremos esclarecer, `a luz de certos desenvolvimentos hist´oricos da matem´atica no s´eculo XIX, a oposi¸c˜ao wittgensteiniana entre “apresenta¸c˜ao” (Darstellung) e “descri¸c˜ao” (Beschreibung). Esta oposi¸c˜ao ´e de fundamental importˆancia para se compreender a cr´ıtica apresentada `a teoria dos conjuntos. Com efeito, um dos pilares desta cr´ıtica ´e a recusa de que a matem´atica tenha um conte´udo descritivo, de que ela descreva “objetos matem´aticos”; ao inv´es disso, ela deve apresent´a-los. O termo “apresenta¸c˜ao” tamb´em ´e importante, pois ele ser´a utilizado como sinˆonimo do termo “constru¸c˜ao” (Konstruktion)k. Como alguns

int´erpretes afirmam que Wittgenstein defende uma esp´ecie de construtivismo em sua filosofia da matem´atica deste per´ıodo, a oposi¸c˜ao entre estas duas no¸c˜oes ´e fundamental para compreender o sentido e o alcance deste construtivismo. Por fim, esta oposi¸c˜ao

PhBm, XV−173g.

Cf. WWK, p. 102: “Mit dem Dirichletschen Funktionbegriff f¨angt die Mengenlehre an”.

Cf. PhBm, XV−171k: “Es ist ja auch die Dedekindsche Definition einer unendlichen Menge eine

solche die das Unendliche beschreiben will ohne es darzustellen”.

§Cf. ibid., XV−171i: “Die Frage w¨are dann eigentlich: L¨aßt sich das Kontinuum beschreiben? Wie

es Cantor und andere versucht haben”.

Cf. ibid., XV−170b: “So macht es Russell mit R, er wickelt den Begriff ein, so daß seine Form

verschwindet”.

kComo, por exemplo, em WAi, p. 111: “Es ist ja nicht so, daß die Beschreibung eine Zahl von

tamb´em est´a vinculada ao que o autor chama de “experimento aritm´etico”∗. Segundo

Wittgenstein, a obten¸c˜ao de um n´umero por meio do resultado de um experimento seria “a descri¸c˜ao, n˜ao a apresenta¸c˜ao de um n´umero”†.

Apresentac¸˜ao × descric¸˜ao: a cr´ıtica `a teoria dos conjuntos

H´a poucas evidˆencias textuais, no Tractatus, da distin¸c˜ao, bastante operante no per´ıodo

intermedi´ario, entre os conceitos de “apresenta¸c˜ao” e “descri¸c˜ao”. A t´ıtulo de exemplo, a proposi¸c˜ao ´e caracterizada como sendo a “descri¸c˜ao de um estado de coisas”§ e ela

tamb´em apresenta este estado de coisas. H´a apenas um aforismo em que ambos os

termos aparecem em contraste expl´ıcito. Na parte do livro reservada ao esclarecimento das “proposi¸c˜oes da l´ogica”, Wittgenstein afirma: “As proposi¸c˜oes l´ogicas descrevem a arma¸c˜ao do mundo, ou melhor, apresentam-na. N˜ao ‘tratam’ de nada”k. A ´ultima

senten¸ca parece sugerir que a oposi¸c˜ao entre descri¸c˜ao e apresenta¸c˜ao pode ser entendida do seguinte modo: disciplinas como a l´ogica e a matem´atica, ao contr´ario das ciˆencias da natureza, n˜ao “tratam” de nada e, por este exato motivo, n˜ao podem ser propriamente descritivas, j´a que n˜ao haveria nada para descrever, nada que poderia ser chamado de seu objeto de estudo (´e por isso que elas devem cuidar de si pr´oprias). Por outro lado, as ciˆencias da natureza tratam de seus respectivos objetos “de fora” e ´e por isso que s˜ao informativas, quando verdadeiras. A fun¸c˜ao, ent˜ao, de disciplinas como a l´ogica e a matem´atica, segundo o Tractatus, seria a de apresentar a “arma¸c˜ao do mundo”, i.e., as rela¸c˜oes de verdade entre proposi¸c˜oes com sentido e as rela¸c˜oes de substituibilidade m´utua entre express˜oes simb´olicas.

Nas PhBm, isto continua sendo verdadeiro: a matem´atica n˜ao trata de nada (ao menos n˜ao enquanto uma descri¸c˜ao externa de seus objetos): ela ´e, como diz o autor, uma atividade, e n˜ao uma teoria. Ao contr´ario do Tractatus, no entanto, n´umeros e, em geral, os elementos do c´alculo passam a caracterizar estruturas l´ogicas, passam a compor, de modo essencial, o sentido da proposi¸c˜ao. Os n´umeros naturais, alega Wittgenstein, s˜ao “uma forma dada na realidade por meio de coisas”∗∗. Enquanto formas,

eles n˜ao podem ser descritos, mas apenas apresentados††. Os s´ımbolos matem´aticos s˜ao

Este v´ınculo ser´a exposto com detalhes no pr´oximo Cap´ıtulo deste trabalho.

PhBm, XVIII−196a (grifo nosso).

Embora estejamos utilizando a tradu¸c˜ao de Luis Henrique Lopes dos Santos para as cita¸c˜oes desta

obra, alteramos, a fim de manter a uniformidade do texto, a tradu¸c˜ao de “darstellen” para “apresentar” (ao inv´es de “representar”).

§Tractatus, aforismo 4.023 (grifo nosso).

Cf. p. ex., o aforismo 4.031: “Pode-se dizer sem rodeios: esta proposi¸c˜ao apresenta tal e tal

situa¸c˜ao – ao inv´es de: esta proposi¸c˜ao tem tal e tal sentido”. Cf. tb. o aforismo 4.1: “A proposi¸c˜ao apresenta a existˆencia e a inexistˆencia dos estados de coisas”.

kTractatus, aforismo 6.124 (grifo nosso). ∗∗PhBm, X−113a.

certamente reais, efetivos, mas n˜ao interessa `a matem´atica descrevˆe-los, e sim trabalhar com eles, e para isso ela precisa, de acordo com suas regras, constru´ı-los. Na aritm´etica de n´umeros naturais, por exemplo, essa constru¸c˜ao pode ocorrer em diversos sistemas de apresenta¸c˜ao (nota¸c˜ao com tra¸cos, sistema decimal etc.), com a condi¸c˜ao de que todos estes sistemas tenham a mesma multiplicidade, isto ´e, com a condi¸c˜ao de que eles possam ser traduzidos um no outro, substitu´ıdos um pelo outro. ´E importante que nenhum destes sistemas se torne o objeto da considera¸c˜ao do saber matem´atico, j´a que, deste modo, ele j´a n˜ao seria apenas uma ferramenta para o c´alculo, mas um componente essencial de sua apresenta¸c˜ao. Para utilizar uma met´afora wittgensteiniana, ele n˜ao seria mais um servo, mas passaria a compor a sociedade∗.

O perigo de transformar o modo de apresenta¸c˜ao de um sistema no objeto da considera¸c˜ao do saber matem´atico motivou certos autores do s´eculo XIX a descon- siderar por completo o modo de express˜ao de certa classe de objetos matem´aticos para caracteriz´a-los t˜ao somente por meio de certas propriedades, por meio de uma descri¸c˜ao destes objetos. Estes autores passaram a priorizar, desde modo, a introdu¸c˜ao de “conceitos” fundamentais na matem´atica, tornando acess´orio o ato de fornecer um modo de express˜ao particular para os “objetos” que “satisfaziam” estes conceitos. Havia, por outro lado, autores que discordavam desta abordagem e que procuravam enfatizar a importˆancia de se fornecer um modo de express˜ao calculat´orio para estes objetos.

Esta oposi¸c˜ao ´e bastante n´ıtida quando se considera, por exemplo, a introdu¸c˜ao e o estudo de fun¸c˜oes de n´umeros complexos na Alemanha em meados do s´eculo XIX. O estudo deste dom´ınio do saber matem´atico se dividia segundo duas abordagens: a primeira, centrada na universidade de G¨ottingen, procurava estudar tais fun¸c˜oes independentemente de express˜oes anal´ıticas para elas, procurando descrevˆe-las por meio de propriedades de modo que elas fossem completamente determinadas por elas; a segunda, centrada na universidade de Berlim, priorizava o estudo da Darstellbarkeit destas fun¸c˜oes utilizando s´eries de fun¸c˜oes mais simples ou outras express˜oes anal´ıticas para elas. A primeira priorizava o aspecto conceitual da matem´atica, a segunda, o aspecto computacional. Matem´aticos como Riemann e Dedekind representavam a primeira, ao passo que a segunda era representada por Weierstrass e Kummer, em continuidade com o estilo de Euler. A primeira est´a intimamente associada `a cria¸c˜ao da teoria dos conjuntos e `a ideia de que conjuntos s˜ao primordiais para a fundamenta¸c˜ao da matem´atica†. Caracterizemos, primeiramente, mais de perto esta primeira abordagem.

Trataremos deste assunto com mais detalhes no Cap´ıtulo seguinte.

Cf. Ferreir´os: Labyrinth of Thought, p. xx: “The idea that sets constitute the foundation of

mathematics emerged very early, and Cantor was by no means the leading exponent of this view. Its strongest proponent as of 1890 was Dedekind, but I shall argue that Riemann was also an important voice advocating this position. Riemann took a significant step in the direction of introducing the language of sets, coupling this with the conception that sets are the basic objects of mathematics. There are good reasons to regard his early contribution as a significant influence on the early set-theoretical

Em sua disserta¸c˜ao inaugural de 1851, Bernhard Riemann procurou fundar uma nova teoria para a an´alise de fun¸c˜oes de vari´aveis complexas. A teoria buscava caracterizar estas fun¸c˜oes por meio de propriedades fundamentais, sem que para isso fosse preciso trabalhar com express˜oes anal´ıticas destas fun¸c˜oes. Segundo Riemann:

Os m´etodos anteriores para lidar com essas fun¸c˜oes se baseavam sempre em uma ex- press˜ao da fun¸c˜ao por meio da qual seu valor, para cada valor de seu argumento, ´e dado. Mostrou-se, atrav´es de nossa investiga¸c˜ao, que, em decorrˆencia do car´ater geral de uma fun¸c˜ao de uma grandeza vari´avel complexa, em uma defini¸c˜ao deste tipo, uma parte dos dados de determina¸c˜ao (Bestimmungsst¨ucke) ´e uma consequˆencia dos demais, a

saber, o montante de dados de determina¸c˜ao que foram reduzidos `aqueles indispens´aveis `a determina¸c˜ao [da fun¸c˜ao]. Isto simplifica essencialmente o tratamento destas. Por exemplo, para provar a identidade de duas express˜oes da mesma fun¸c˜ao, era geralmente necess´ario transformar uma na outra, isto ´e, mostrar que ambas coincidem para cada valor da grandeza vari´avel; agora, basta estabelecer a coincidˆencia de tais fun¸c˜oes para um montante muito menor de dados.

Uma teoria destas fun¸c˜oes, baseada nos fundamentos aqui estabelecidos, determinaria a configura¸c˜ao da fun¸c˜ao (i.e., seu valor para cada valor de seus argumentos) inde- pendentemente de um modo de determina¸c˜ao atrav´es de opera¸c˜oes de grandezas, de modo que, para o conceito geral de uma fun¸c˜ao de uma grandeza vari´avel complexa, s˜ao adicionadas apenas as caracter´ısticas necess´arias para determinar a fun¸c˜ao, e somente ent˜ao migra-se para as diversas express˜oes pelas quais a fun¸c˜ao pode ser fornecida.∗

Um importante pano de fundo para este passo inovador de Riemann ´e a evolu¸c˜ao do conceito de fun¸c˜ao na matem´atica. De um modo bastante conciso†, esta evolu¸c˜ao

ocorreu do seguinte modo: at´e o in´ıcio do s´eculo XVIII, uma fun¸c˜ao matem´atica era uma express˜ao anal´ıtica que determinava, para cada valor de seus argumentos, um ´unico valor. Euler, no entanto, j´a admitia fun¸c˜oes determinadas “por partes”, as quais ele chamou de descont´ınuas. A fun¸c˜ao, ent˜ao, era cont´ınua quando ela era dada por uma ´unica lei ou express˜ao anal´ıtica. Cauchy, em seu famoso Cours d’Analyse de 1821, definiu o termo “continuidade” de modo que esta caracter´ıstica aparecesse como uma propriedade da pr´opria fun¸c˜ao, independente de express˜oes anal´ıticas para ela. Matem´aticos como Fourier e Dirichlet propuseram que uma fun¸c˜ao deveria ser entendida simplesmente como uma correla¸c˜ao arbitr´aria entre dois conjuntos de valores, independentemente desta correla¸c˜ao seguir ou n˜ao uma lei comum. Ora, se fun¸c˜oes deveriam ser entendidas como correla¸c˜oes arbitr´arias independentemente de fun¸c˜oes anal´ıticas para express´a-las, elas deveriam ser determinadas pelas suas singularidades, pelas suas propriedades locais e globais que as diferenciassem – exceto talvez por uma constante – de outras fun¸c˜oes,

attempts of both Dedekind and Cantor”.

Bernhard Riemann: Gesammelte mathematische Werke und wissenschafilicher Nachlass, ed. por

M. Noether/W. Wirtinger, New York: Dover, 1953, pp. 38-9 .

Voltaremos a tratar, adiante, de mais alguns pontos importantes desta evolu¸c˜ao do conceito de

j´a que nem se sabia se havia ou poderia haver uma express˜ao anal´ıtica para elas∗. ´E

esse conjunto m´ınimo de caracter´ısticas da fun¸c˜ao, independentemente da apresenta¸c˜ao da fun¸c˜ao por meio de uma lei, que Riemann procurou prover.

A influˆencia de Riemann pode ser facilmente notada no seu colega mais jovem, Richard Dedekind, que via no trabalho de Riemann um modelo metodol´ogico a ser seguido. Em uma carta a R. Lipschitz, datada de 6 de outubro de 1876, Dedekind afirma:

Meus esfor¸cos na teoria dos n´umeros s˜ao direcionados a basear a investiga¸c˜ao n˜ao em formas acidentais de apresenta¸c˜ao ou express˜oes, mas em conceitos fundamentais simples e, atrav´es disto, – embora esta compara¸c˜ao talvez soe pretensiosa – alcan¸car neste dom´ınio algo similar ao que Riemann alcan¸cou no dom´ınio da teoria das fun¸c˜oes e, nesse