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A Democracia Global: um intento impossível?

No documento A democracia radical global. (páginas 108-117)

Capítulo II – Modelos de Democracia Global

2.5 A Democracia Global: um intento impossível?

Um debate paralelo acerca dos modelos de Democracia Global é aquele no qual se discute sobre a sua capacidade de realização. Afinal, os protótipos desenvolvidos de fato levam em conta sua aplicação prática? De acordo com críticos (KEOHANE, 2006; SCHEWELLER, 1999; DAHL, 2003), ainda que um Governo Global fosse desejável, ele não seria compatível com as condições necessárias para a governança democrática, visto que o espaço internacional teria características muito distintas do espaço nacional (KOENIG-ARCHIBUGI, 2011). Desse modo, um Estado Mundial seria impraticável.

Koenig-Archibugi (2011) tratou de elencar os cinco principais argumentos que, segundo ele, são invocados para negar a possibilidade da Democracia Global. São eles: (a) a democracia só é possível em um Estado; (b) a heterogeneidade cultural no mundo é um obstáculo intransponível para a democracia; (c) a maior parte do mundo é muito pobre para permitir o surgimento de instituições democráticas; (d) a democracia no âmbito global não poderia funcionar devido às enormes diferenças nas condições econômicas do mundo; (e) o mundo é muito grande para permitir o estabelecimento de instituições democráticas.

A ideia de que a democracia só seria possível dentro de um Estado sustenta-se pela necessidade de haver algo como um “monopólio efetivo da força para proteger os direitos dos cidadãos e a capacidade de extrair recursos para executar esta função” (KOENIG-ARCHIBUGI, 2008, p.15). Além disso, por razões históricas, a democracia

moderna sempre esteve relacionada ao Estado, fazendo com que muitos autores associem “naturalmente” o governo democrático a um espaço territorial delimitado, legitimamente reconhecido e detentor de poder coercitivo.

Sobre este argumento, é preciso esclarecer que a vinculação entre democracia e Estado não é necessária, mas puramente contingencial; logo, outras instituições não estatais podem adquirir essa forma. Quanto a isto, Koenig-Archibugi (2008) aponta o exemplo da União Europeia, a qual não é uma forma política estatal e nem possui poder coercitivo militar ou de força, mas pode ser considerada como democrática.

A própria forma moderna de Estado é uma contingência histórica e que, como foi mostrado, teve mais o efeito de separar que de unir as pessoas. Logo, talvez a ausência de uma forma estatal em âmbito global seja uma verdadeira vantagem para o Governo Democrático Mundial. Além do mais, como diremos no último capítulo, as novas formas de tecnologias hoje disponíveis tornam possível pensarmos muito além dos atuais arranjos políticos, pois permitem ultrapassar as fronteiras políticas e unir diretamente todo mundo com todo mundo.

Sobre a ideia de que a homogeneidade cultural (étnica, linguística ou religiosa) seria um obstáculo para a democracia, Koenig-Archibugi (2011) observa que a literatura contrária à ideia de um Governo Global sustenta que certa uniformidade seria indispensável ao desenvolvimento de comunicação, confiança e solidariedade entre os cidadãos. As diferenças, em contrapartida, aumentariam a probabilidade de orientações de valores divergentes, tendo um impacto negativo sobre as instituições democráticas. Em um Estado nacional, mesmo as diferenças existentes internamente são administradas a partir de identificação e valores nacionais, os quais têm prevalência sobre valores regionais e locais, diferentemente da Democracia Global.

Em Estado-nação ideal-típico, cidadãos compartilham uma identidade cultural que corresponde aos limites existentes do Estado; homogeneidade cultural é ativamente promovida pelas instituições públicas; e uma estrutura unitária do Estado é mais comum, mas os arranjos federais são possíveis. Por outro lado, no Estado ideal-típico cidadãos nacionais são ligados a mais de uma tradição cultural, mas são leais a, e se identificam com, as instituições do Estado; o Estado

reconhece e acolhe mais de uma identidade cultural e étnico-cultural gerido-as democraticamente em vez de suprimir; e o Estado é normalmente organizado ao longo de linhas federais (KOENIG-ARCHIBUGI, 2008, p.16).

Sem dúvida, a homogeneidade cultural é um fator que favorece qualquer processo de decisão política e constitui-se como um desafio aos modelos globais de democracia. No entanto, ela é uma condição que contribui para as instituições democráticas, mas não que as condiciona. Sobre isso podemos destacar a enorme heterogeneidade em países como Suíça, Bélgica, Canadá, Espanha e Índia, onde as instituições democráticas não apenas funcionam apesar das diferenças, mas são estimuladas por elas (KOENIG- ARCHIBUGI, 2008).

Conforme destaca Costa (2003), o intercâmbio entre culturas favorece a pluralização cultural (...), as trocas materiais e simbólicas e a condensação e difusão de novos estilos de vida e novas visões de mundo (COSTA, 2003). De fato, falar em homogeneização cultural e na tentativa de preservá-la em instituições políticas é, em si mesmo, um intento antidemocrático. A democracia é dinâmica e não se presta à estabilização permanente e nem a determinismos, assim como a cultura. Ambas são dinâmicas e funcionam a partir de provocações e mudanças, além de serem oxigenadas por elas.

De fato, a tentativa de homogeneizar a cultura e de institucionalizar um modelo cultural na política pode ser vista como um duplo homicídio. A uniformização cultural é um elemento que facilita a tomada de decisões, mas ela deve ser considerada como uma situação contingente, a qual pode e deve ser constantemente desafiada e substituída por novas estabilizações temporárias. Consequentemente, a heterogeneidade pode dificultar a estabilização de instituições democráticas, mas não as inviabiliza, apenas constitui-se como um desafio para elas.

Conforme salienta Wendt (2003, p. 526-527), “enquanto uma maior fragmentação é, em certo sentido, um passo atrás, também é uma condição prévia para avançar, uma vez que é somente quando a diferença é reconhecida que uma identidade maior pode ser estável”. Se um Governo Global fosse pensado a partir de uma homogeneidade

previamente constituída, teríamos o problema da uniformização; mas se partirmos da ideia de que um universal compartilhado deverá surgir a partir das próprias diferenças, então teremos um governo verdadeiramente democrático.

As narrativas que afirmam que a democracia não seria possível para países pobres sustentam que há um limite econômico mínimo necessário para o surgimento de instituições democráticas. De fato, se cruzarmos os dados entre o grau de consolidação democrática entre países e seu índice interno de desigualdade social, facilmente constataremos que os países com democracias mais consolidadas são, via de regra, também os mais igualitários internamente em termos econômicos.

Contudo, isso não significa que a democracia em nações desiguais não seja possível. Koenig-Archibugi (2011) analisou vários estudos a este respeito e concluiu que, em contraste, há inúmeros países pobres e subdesenvolvidos que exibem instituições democráticas. É verdadeiro sobre a ligação entre a pobreza e democracia o fato de que o baixo desenvolvimento econômico tem sido observado como um fator importante de explicação para golpes políticos. Assim, a pobreza seria um desafio à manutenção e à consolidação da democracia, mas não impede sua emergência.

De forma semelhante, a desigualdade no âmbito global também seria um fator crucial para o impedimento do desenvolvimento e consolidação de instituições democráticas mundiais. A desigualdade econômica tende a dificultar a realização na prática dos princípios democráticos, visto que os grupos economicamente mais favorecidos costumam também dirigir as instituições políticas, controlando o fluxo de direitos e das mudanças sociais.

Entretanto, isso também não significa que a desigualdade de poder impediria a emergência de instituições mundiais democráticas. Na verdade, esse argumento pode ser usado de modo favorável à criação de um Governo Global, pois, sem ele, a desigualdade hoje existente tende a se manter perpetuamente. De acordo com Walzer (2010, p.55), “mesmo que todos os Estados fossem repúblicas, como Kant esperava que

fossem, a federação ainda seria total ou parcialmente oligárquica se a distribuição de recursos existente fosse inalterada”. Assim, enfrentar o problema das desigualdades entre Estados é uma condição necessária para um Governo Global, além de ser uma das razões de sua necessidade.

Não devemos nos esquecer que a desigualdade entre as nações, mantida intacta pelas atuais instituições internacionais, tem sido a principal causa de guerra. Fala-se sempre da desigualdade de “poder”, como se este último não estivesse diretamente ligado à questão econômica. Os países mais poderosos do mundo e seus investidores são responsáveis por quase toda a pobreza do restante do mundo, e pior ainda, eles lucram com ela. Eles ditam as regras financeiras, os juros sobre financiamentos - que nas últimas décadas endividaram praticamente todos os países do terceiro mundo - e são também aqueles que produzem e vendem armas, incentivando as rivalidades entre grupos locais por estas serem “lucrativas”.

Não parece existir, no presente momento, nenhuma outra alternativa para equalizar as desigualdades sociais mundiais e cancelar a extrema pobreza, senão a criação de um governo supranacional. Não há razão para imaginarmos que aqueles que detêm o poder político e econômico nos dias de hoje iriam, voluntariamente, renunciar sua posição. Isto ocorre justamente, porque não existe ainda um sentimento de pertencer ao globo antes de pertencer a uma nação, e a inversão dessa lógica é a condição necessária para que um Governo Global democrático possa surgir.

O argumento da extensão territorial tem, segundo Koenig-Archibugi (2011), duas diferentes dimensões. A primeira dimensão seria o problema do encolhimento da influência política de cada cidadão individual em um sistema de Governo Mundial. A segunda diz respeito à capacidade de instituições democráticas de funcionarem em dimensões espaciais mundiais. Assim como no caso do argumento da dimensão estatal, essa premissa está baseada na ideia de que o Governo Mundial reproduziria exatamente as instituições atualmente existentes, o que não é necessariamente verdade.

Não é possível prever o nível da capacidade para o funcionamento efetivo de instituições democráticas globais, e nem o grau de influência dos cidadãos, simplesmente porque elas nunca existiram. Se a possibilidade e a qualidade de uma democracia dependessem do tamanho de um território, como acreditava-se antes da modernidade, os dados não mostrariam que muitas nações que estão entre as democracias mais consolidadas do mundo são formadas por países com grandes dimensões espaciais.

Além disso, os instrumentos tecnológicos que dispomos hoje fizeram com que qualquer distância pudesse tornar-se curta. A internet modificou completamente a nossa percepção espacial. Podemos admitir que a questão territorial pode ser um empecilho para a Democracia Global somente porque também admitimos que grande parte do mundo ainda permanece em regimes não democráticos, e não porque nos falta criatividade ou meios de governar o mundo.

Cabe, ainda, mencionar a importante distinção feita pelo próprio Koenig-Archibugi (2011, p.09) entre “as condições que parecem ser positivas associadas à probabilidade de democracia ou à qualidade da democracia, por um lado, e as condições que devem estar presentes para que a democracia possa ocorrer”. Desse modo, pode-se distinguir os aspectos desejáveis e os imprescindíveis. Para este autor, há diversas características que podemos apontar como positivas para a democracia, entretanto, não há nenhuma que possamos considerar indispensável.

De fato, os pontos apresentados para mostrar que a Democracia Global não seria possível podem ser usados na direção oposta, ou seja, para mostrar porque ela é necessária. Por exemplo, a ausência de um Estado mundial faz com que o espaço global seja regulado por poderes ilegítimos. Consequentemente, por não haver nenhum ator global autorizado, o papel de regular acaba sendo feito pelos Estados mais poderosos não autorizados, tendo em vista os seus próprios interesses. Isso acarreta um aumento da desigualdade entre Estados e a manutenção da pobreza interna de vários países, as quais têm sido causas importantes de conflitos internos e externos.

Assim, embora se diga que o espaço mundial seria anárquico por não haver um poder central, isso não significa que o espaço não seja governado por alguém. Atualmente, é o chamado poder hegemônico, formado por um pequeno número de países, que exerce a provisão de funcionar como poder mundial “sem legitimidade democrática, apenas preenchendo um vácuo político muitas vezes para sua própria conveniência” (ANDREU E RAHMAN, 2009, p.19-20).

Em um Governo Global democrático, ao contrário, não seria justificável supor que parte dos cidadãos do mundo, pertencentes às chamadas democracias maduras, pudessem escolher o destino de cidadãos de outras nações. Isso ocorre, por exemplo, nas ações de órgãos internacionais atualmente existentes que impõem acordos de condicionalidade a países que demandam ajuda.

Um exemplo disso são as fontes econômicas da ONU, em particular o Banco Mundial e o FMI que, segundo Andreu e Rahman (2009, p.20), foram mal utilizadas pelos EUA e aliados para “persuadir ou simplesmente intimidar os países que, na necessidade de empréstimos coletivos, ousaram discordar da maneira americana de administrar a provisão de certos bens públicos globais (paz e segurança)”.

Em um Governo Mundial, apenas as decisões tomadas de forma democrática poderiam se justificar. Isso afasta o risco de expandir para todo o mundo uma agenda que teria origem em uma cultura específica ocidental e que exprimiria preferências normativas dos Estados mais poderosos.

Além disso, de acordo com Walzer (2010, p.55), um Governo Mundial poderia colaborar para a equalização das desigualdades, “pois todos os Estados seriam incorporados na mesma estrutura constitucional, vinculados, por exemplo, pelos mesmos códigos de direitos sociais e políticos, e muito menos capazes do que hoje são de ignorar esses direitos”. Incluídos em um sistema mundial, mesmo os cidadãos de países não democráticos poderiam apelar sobre suas causas a tribunais federais.

Em suma, não há pré-requisito necessário para o funcionamento de um Governo Global democrático. Algumas características podem favorecê-lo, mas sua inexistência em certos contextos não deve nos desestimular a seguir em frente, mas, ao contrário, deve instigar nossa criatividade e poder de adaptação. Manter a ordem do cenário internacional como no presente apenas favorece uma pequena parcela do território global, prejudicando o planeta como um todo. Por esse motivo, a tarefa de construir uma Democracia Global não deve ser vista como um desejo futuro, mas como uma demanda urgente.

Considerações

O foco central deste capítulo foi a apresentação de alguns dos principais modelos de Democracia Global atualmente disponíveis e, especialmente, seus pressupostos centrais e críticas enfrentadas por eles. Adicionalmente, apresentamos a defesa de alguns autores que rejeitam pensar em termos de modelos ideais, mas que preferem falar em processos democráticos ou em uma governança global.

Dividimos didaticamente esses modelos em três categorias: 1) Democracia Interestatal; 2) Democracia Cosmopolita; 3) Processos Democráticos Globais. Esses modelos visam captar as mais diversas contribuições do campo da Democracia Global, embora não pretendessem esgotar todas as possibilidades, visto que a realidade sempre se mostra muito mais complexa e diversa. Nosso objetivo primordial foi levar o leitor por uma incursão no campo para ilustrar como a evolução no desenvolvimento de um paradigma da Democracia Global acompanha os mais diversos desenvolvimentos da política internacional de um modo geral, os quais não são engessados, mas podem, ainda, virem a se modificar.

Por fim, também apresentamos uma série de críticas advindas de autores, segundo os quais a Democracia Global não seria praticável. Quanto a elas, apontamos que não há uma situação ideal que seja requerida para o desenvolvimento de um Governo Democrático Mundial. Além disso, o fato da natureza das Relações

Internacionais ser diferente da natureza interna dos Estados não deve nos levar a pensar que isso inviabilizaria o surgimento de instituições democráticas; mas, ao contrário, devemos considerar o fato como incentivador para nossa inventividade.

Capítulo III: Elementos teórico-epistemológicos para a compreensão do

No documento A democracia radical global. (páginas 108-117)