3.1 “Poesia e Música de Acção”
3.2 A descoberta da polifonia num meio erudito
A entrada de Carlos Guerreiro no Coro da Incrível Almadense em 1972 e o contacto com o Coro da Juventude Musical Portuguesa foram determinantes no seu percurso porque corresponderam à descoberta de um universo musical radicalmente diferente daquele a que estava habituado nos ambientes que frequentava em adolescente. Carlos descobriu a Polifonia ao mesmo tempo que entra num meio erudito que, apesar de amador, tinha uma orientação no sentido da realização de repertório erudito, escrito para ser cantado por profissionais. Contacta diretamente com a música escrita, com obras de compositores renascentistas, com as obras de Fernando Lopes- Graça e fica “deslumbrado”: “Onde eu acho que comecei a encontrar o fio da minha meada foi quando eu entrei para o Coro da Almada, para o Coro da Incrível Almadense” (entr. Carlos Guerreiro 2014). Os dois coros, porque tinham o mesmo Maestro nessa altura, “eram praticamente coros irmãos” (Ibid.), sendo muitos os trânsitos entre Lisboa e Almada semanalmente por parte dos membros do Coro.
Nunca tive uma relação muito regular, mas algumas vezes fiz isso, vinha aos ensaios também do Coro da Juventude porque o repertório era praticamente igual, o Maestro era o mesmo e eu sentia-me bem entre aquela malta, sentia-me mais velho, pelo menos, e mais culto e mais interessante.E foi nesse contacto com essa gente que eu comecei a reformular as minhas
escolhas, os meus gostos e as minhas opções musicais. Para já, através do Coro, comecei a ter contacto com coisas que me eram completamente desconhecidas e que fiquei a adorar, como o repertório coral do Renascimento, até algum repertório medieval. Evidentemente nós fazíamos dois tipos de repertórios, fazíamos repertório estrangeiro, onde cantávamos coisas da Renascença e o repertório português onde só cantávamos coisas do Lopes-Graça, os arranjos do Lopes-Graça, todo aquele repertório que a gente sabe, das recolhas que ele fez com o Giacometti, enfim. A partir daí, a minha fasquia musical em termos de qualidade e de gosto começou a subir, comecei a ficar mais exigente (Ibid.).
A sua entrada para o Coro da Incrível Almadense determinou de alguma forma um período de transição na sua vida:
Deixei de cantar as minhas baladas contestatárias, (.) Comecei a achar que o meu caminho da música poderia ser outro, não sei qual. Nessa altura, as transformações são grandes num período desses, estamos sempre a tomar outras opções e a substituir as antigas. A coisa manteve-se assim até ao 25 de abril (Ibid.).
Guerreiro refere que o Coro o levou a reformular conceitos, tornando-o mais exigente, levando-o a “subir a fasquia” em termos de “qualidade musical”, pelo contacto com as pessoas mais “cultas” musicalmente e mais velhas:
“. esse pessoal do Coro da Juventude era malta muito informada musicalmente, era malta muito vivenciada, através do Luís Pedro Faro, do Francisco d'Orey. Tinham perspetivas musicais que eu desconhecia completamente, encaravam a música de outra forma.”(Ibid.).
É notório o orgulho de Carlos quando destaca o nível de execução alcançado pelo Coro de que fazia parte e a forma como isso foi determinante para ele:
E nós ensaiávamos muito e chegámos a ser o melhor coro amador em Portugal, chegámos a cantar com o Coro do Lopes-Graça e com o próprio a assistir, na Academia dos Amadores de Música. A partir daí começaram-se a fazer as primeiras opções de qualidade, em relação à música (Ibid.).
Carlos Guerreiro foi seguindo os mesmos caminhos calcorreados por músicos que ele considera as suas “referências”, mas admite ter sido muito influenciado por estas pessoas mais velhas e mais “cultas” que conheceu através do Coro da Incrível Almadense.
E eu hoje às vezes, em entrevistas que dou para a rádio e coisas assim, falo, e as pessoas batem muito nessa tecla, porque toquei com o Zeca Afonso, porque toquei com o Sérgio,
porque toquei com o Zé Mário, porque toquei com essa gente toda e as pessoas acabam por ir buscar as minha referências a esses. Mas eu quando penso melhor, as minhas referências vêm muito mais de trás e as pessoas que preparam no fundo este terreno todo por onde eu fui andando foi de facto o Francisco d'Orey, foi o Luís Pedro Faro, foi o Domingos Morais, tudo pessoas que eram mais velhas do que eu e que já tinham um trajeto anterior disso. Claro que depois, com muito orgulho passei, digamos, de discípulo a elemento da equipa e depois tivemos, a partir de certa altura, tivemos um caminho (Ibid.).
Carlos explica como aconteceu o seu primeiro encontro com Domingos Morais34:
O Domigos Morais foi uma pessoa muito importante na minha vida, mas não pelo Coro. Não pelo Coro, mas sim pela Incrível. O Domingos dava ateliers de guitarra e de flauta na Incrível e eu inscrevi-me logo. Foi o Domingos que me ensinou a ler música, a tocar guitarra por música, a tocar flauta.” (Ibid.).
Através desta instituição almadense, Carlos teve oportunidade de aprofundar conhecimentos num domínio que o fascinava desde sempre: a música. Nunca tendo frequentado um curso oficial de formação musical, Carlos refere ter tido sempre a atitude de ir aprendendo aquilo que lhe interessava, à medida que precisava (Ibid.). Outro aspeto a considerar neste novo universo onde Carlos tinha acabado de penetrar, é a origem urbana dos membros do Coro da Juventude Musical Portuguesa – “eram de Lisboa” – e a idade – “eram mais velhas” –, que acabam por ser conferentes de “poder” e “legitimidade” para o Carlos que vivia num meio “provinciano”, em Almada.
Todas estas pessoas que eu reportava como a minha referência no Coro da Incrível eram um bocadinho mais velhas do que eu, não muito, hoje podemos dizer que somos praticamente da mesma idade, mas haverá assim uma diferença de seis ou sete anos entre alguns e eram pessoas por quem eu tinha uma grande consideração porque eu na altura tinha 18 anos e eles já tinham 20 e tais, alguns já estavam na tropa, alguns já tinham saído da tropa. E vinham do Coro da Juventude Musical Portuguesa e esse Coro da Juventude Musical Portuguesa era de gente mais velha, eram de Lisboa. Na altura ser de Lisboa ou ser de Almada fazia uma grande diferença. Almada era província praticamente, ainda hoje se nota essa diferença (entr. Carlos Guerreiro 2014).
Assim legitimada a instituição que lhe oferecia a formação “que ele queria”, Carlos abriu-se de um modo muito especial a este universo, deixando-se marcar indelevelmente, pois esta parte da formação dele vai acompanhá-lo até hoje, sendo a polifonia um aspeto fundamental do trabalho atual no âmbito, por exemplo, dos
Gaiteiros de Lisboa.