1. O Mundo do Direito
1.2 A dimensão temporal nos processos jurídicos
Os processos de homicídio e tentativa de homicídio são materiais densos, não apenas pelo número de páginas, mas principalmente por serem repletos de minúcias e simbologias. Há, neles, uma simultaneidade de quadros temporais. Utilizando os termos de Gould (1991), podemos pensar os processos jurídicos enquanto seta e ciclo do tempo, dependendo da perspectiva adotada. Ao tomá-lo como um “caso único”, o processo pode ser visto como
... uma seqüência irreversível de eventos que não se repetem. Cada momento ocupa sua posição distinta numa série temporal, e o conjunto desses momentos, considerados na seqüência apropriada, narra uma história de acontecimentos que se ligam uns aos outros e se movem numa direção definida (idem: 22)
Dessa forma, a seqüência das fases de um processo de homicídio (boletim de ocorrência do crime – instauração do inquérito policial – denúncia do Ministério Público – audiências e interrogatório – pronúncia – interrogatório do réu – sentença) é uma narrativa
linear em que a idéia de aperfeiçoamento se faz presente. A passagem do tempo é tida como uma passagem evolutiva: caminha-se a um desfecho tido como justo, racional, civilizado. O tempo, neste caso, é seqüencial, irreversível, progressivo e diacrônico - uma seta.
Porém, tomados em conjunto, os processos são formados por ciclos que se repetem, como partes de uma estrutura maior englobante e acima das singularidades dos eventos. “O ciclo do tempo pode referir-se a uma estrutura imanente ou à permanência verdadeira e imutável (...) ou a ciclos recorrentes de eventos separáveis que se repetem exatamente” (idem: 24). Nesse caso, a passagem do tempo se dá não a partir de uma seqüencialidade e direção, mas a partir da repetição de certas atividades consideradas vitais – no caso dos processos, as suas fases, apontadas acima, iguais para todos, independentemente das particularidades do crime cometido. E é justamente dessa estrutura em comum que o discurso jurídico retira a sua legitimidade.
O processo jurídico pode ser pensado, assim, tanto em uma dimensão sincrônica quanto diacrônica. Além de ter uma estrutura própria, ou seja, um arcabouço de normas, princípios e uma linguagem específica ao Direito Penal, o processo jurídico é um conjunto de representações e visões de mundo, expressos, por exemplo, nos depoimentos de testemunhas, vítimas e réus, além das narrativas de advogados e promotores. Ao agir “em nome da salvaguarda da forma e dos valores supremos da sociedade” (BALANDIER, 1982:10), refletindo sobre “grandes questões da humanidade”, tais como a moral, a condição de pessoa, a normalidade, a raça, o gênero, a classe, o certo e o errado, o Direito Penal acaba por ser, para usar uma expressão de Lévi-Strauss sobre a estrutura dos mitos, uma “máquina de suprimir o tempo”, já que lida com temas transcendentais, posto que atemporais – “os valores supremos da sociedade” ou, segundo Schritzmeyer (2001), “os dramas básicos da existência humana”. Diante disso, o crime em si, o acontecimento, perde importância, é esvaziado: a sincronia faz-se ouvir.
Porém, enquanto narrativa seqüencial das fases dos autos - do crime à sentença final -, o processo jurídico incorpora a diacronia em seus meandros. O crime enquanto evento, apesar de ser o “tempo curto”,
anexa um tempo muito superior à sua própria duração. Extensível ao infinito, liga- se, livremente ou não, à toda uma corrente de acontecimentos, de realidades subjacentes, e impossíveis, parece, de destacar desde então uns dos outros (BRAUDEL, 1978:45).
Ao julgar um crime, os atores jurídicos lançam mão de histórias de vida e recorrem à infância de vítimas e acusados a fim de trazer símbolos, comportamentos, informações que legitimem as suas narrativas. O crime, em si, perde importância. O que importa é o “caráter” dos sujeitos envolvidos – enquanto a acusação tenta traçar um perfil social negativo do réu, a defesa usa do mesmo recurso, porém de maneira inversa, tentando desqualificar a vítima.
São nas histórias familiares que os atores jurídicos e os psiquiatras vão buscar vestígios, comportamentos, simbologias, para construírem a figura do doente ou do louco13. Recorrer à infância é uma estratégia fundamental para a relação médico-paciente, bem como juiz-réu. É pelo poder da memória através da verbalização dos sentimentos e das lembranças que a doença começa a ser delineada. É, enfim, a partir do vivido, do real, que o imaginário e as fantasias da loucura vêem à tona.14
Isso fica muito claro com a descrição dos casos clínicos de Freud (1997), nos quais suas pacientes, sobretudo mulheres consideradas histéricas, são incentivadas a falar sobre o passado. O mesmo ocorre nos relatos de vítimas, acusados e testemunhas nos processos judiciais. A fim de legitimarem suas narrativas, promotores, advogados e peritos psiquiátricos recorrem a um tempo memorial, seja por histórias de vida ou por exames psiquiátricos, para alcançarem uma
série de outras coisas que não são o delito mesmo, mas uma série de comportamentos, de maneiras de ser que (...) são apresentadas como a causa, a origem, a motivação, o ponto de partida do delito. De fato, na realidade da prática judiciária, elas vão constituir a substância, a própria matéria punível (FOUCAULT, 2001: 19).
O passado é tido, assim, como
... uma reserva de imagens, de símbolos, de modelos de ação; permite empregar uma história idealizada, construída e reconstruída segundo as necessidades, a serviço do poder presente. Este gere e assegura seus privilégios colocando em cena uma herança (BALANDIER, 1982:7).
13 Para a idéia da doença como um construto da relação médico-paciente, ver Showalter (2004).
14 A relação entre o real e o imaginário é muito interessante para pensarmos as estratégias discursivas tanto no
âmbito da psiquiatria quanto no do jurídico. O que parece estar em jogo é uma derivação causal do segundo em relação ao primeiro. Tal mecanismo se mostra eficiente para a legitimação de seus discursos e, por conseguinte, de uma relação de poder, simplificando a complexidade dessa relação: o real e o imaginário não são causa e conseqüência, mas coexistem como fios entrelaçados em uma rede. Uma relação linear entre real e imaginário faz parte de uma valorização do poder da memória e da linguagem: recorre-se a cenas vividas para alcançar ou interpretar as fantasias. Uma visão contrastante a isso pode ser encontrada em Das (2007), a qual, a partir de uma reflexão sobre a violência contra mulheres na Índia, mostra como, para essas mulheres, não lembrar, ou seja, não verbalizar essa violência, é o que permite a elas a superação, o emponderamento – aqui, não falar é a estratégia produtiva e eficaz, diferentemente das sociedades ocidentais em que falar é a regra.
Não é contra a lei ser infiel, não ser boa dona de casa, ser desequilibrado afetivamente ou ter distúrbios emocionais, mas essas normas não escritas possuem um peso significativo no discurso jurídico sobre os crimes em família. A lei, em si, perde o significado – o relevante não é tanto o aparato jurídico mas a conduta moral e o padrão ético. Dessa forma, ser infiel não é contra a lei mas é contra uma certa moralidade – e isso é o mais importante quando se fala em família. Passa-se, assim, do ato à conduta, do delito à maneira de ser, recorrendo, para isso, à infância de vítimas e acusados na tentativa de mostrar como “o indivíduo já se parecia com o seu crime antes de o ter cometido” (FOUCAULT, 2001: 24). A infância se torna, assim, “uma armadilha de pegar adultos” (idem: 387).
Ao lançarem mão de histórias de vida para reconstruírem o tempo das vidas dos réus, os atores jurídicos querem constatar se houve ou não repetição de comportamentos social e legalmente recrimináveis. Assim, “quanto mais longos os intervalos entre um ‘mau’ comportamento e outro, melhor para a defesa. Quanto mais constantes e repetitivas as atitudes consideradas socialmente reprováveis, melhor para a acusação” (SCHRITZMEYER, 2001: 104). Ao fazerem isso, acionam uma temporalidade marcada por idas e vindas, um movimento pendular de alternações e paradas, uma seqüência descontínua de experiências. Os discursos jurídicos projetam-se para o passado e para o futuro: evoca-se a “justiça” tanto para o que já se consumou quanto ao que está por vir. Reparação, de um lado, prevenção, de outro (SCHRITZMEYER, 2001).
Recorrer à infância para legitimar um discurso jurídico onde o que está em jogo é a condenação ou absolvição de alguém é um exemplo emblemático de como a memória se dá por lampejos políticos. O passado aparece não enquanto continuidade do presente, mas como uma imagem a ser retida enquanto experiência que faz sentido. Assim como no processo de montagem, no qual peças diferentes se juntam para formar um todo semelhante, o passado, em sua distância no tempo e no espaço, vem à tona por trazer algo que tem um efeito político no presente, como uma identificação de experiências (TAUSSIG, 1993). No caso dos atores jurídicos, recorrer ao passado do réu e/ou da vítima é uma tentativa de sair vitorioso.
Ao aliar o tempo curto do evento (no caso, o crime) ao tempo longo da estrutura do Direito Penal e da memória enquanto recurso analítico, o processo jurídico pode ser
pensado segundo o conceito braudeliano de “dialética da duração”, em que há a oposição entre o instante e o tempo lento a escoar-se. As poucas horas de um crime podem desencadear anos e mais anos de investigação por um processo jurídico15. Como lidar com esse descompasso entre o “tempo curto” do evento e o “tempo longo” da estrutura é, segundo Braudel (1978), um dos grandes desafios das Ciências Humanas e Sociais.
Como o próprio nome sugere, o processo jurídico conecta história e estrutura, ação e norma. Enquanto relação, uma não se sobrepõe à outra; estão, antes, em diálogo. Na tentativa de desconstruir uma visão estática e dicotômica entre estrutura e história, Sahlins (2003) pensa uma imbricada na outra: assim, o evento é uma junção entre acontecimento e significado, assim como a estrutura é um objeto histórico. Do mesmo modo que a relação cria a ação, a ação também cria a relação, ou seja, a cultura é tanto historicamente reproduzida na ação (sujeitos agem de acordo com uma ordem cultural própria) quanto é alterada historicamente (seres-humanos repensam seus esquemas culturais quando postos em prática). Essa dialética entre cultura e história permitiu incorporar a diacronia na estrutura e compreender, assim, a lógica das instabilidades culturais – suas ambigüidades e contradições.
Ciente de todas as diferenças, o processo jurídico também tem como princípio estrutural o contraditório, ou seja, ter, pelo menos, duas versões conflitantes, dadas pela defesa e acusação, para um mesmo fato. Trata-se, como dito acima, de disputas em torno da verdade, em que ambigüidades e conflitos dão um caráter dramático, teatral e lúdico aos processos e julgamentos, além de delinearem um campo de poder.
Personagens e dramas são criados e apresentados aos jurados, em duas versões básicas – a da acusação e a da defesa -, com vistas a que, no silêncio imposto a cada um, eles se identifiquem com a versão que lhes parecer mais verossímil e dêem seu veredicto. É um jogo de persuasão (SCHRITZMEYER, 2001: i).
A lógica do contraditório é um elemento central do discurso jurídico. É preciso lançar mão de dicotomias, polaridades e isso não é uma mera disputa de argumentos entre advogados e promotores, mas o que constitui a própria legitimidade do direito. Uma decisão jurídica pode ser anulada se for constatado que não se respeitou o princípio do contraditório. Essa obrigatoriedade do contraditório leva a exageros, excessos, ironias, caricaturas nas falas dos personagens jurídicos. Para que a narrativa jurídica seja eficaz, é preciso que
15 Os processos pesquisados por mim que tiveram todas as seqüências de uma instrução penal levaram, em
vítima e acusado estejam em lados opostos, nem que para isso seja precisa forjar situações que chegam a ser hilárias. Por exemplo, no estudo de Corrêa (1983), para “provar” que a esposa era adúltera e justificar, assim, o crime do marido que a matou, o advogado lança mão da quantidade de pares de sapato da vítima, a freqüência das trocas de roupa, o tempo gasto em salões de beleza para, ao final, concluir que a vaidade “excessiva” dessa mulher era incompatível com as suas posições de esposa e mãe de família, sugerindo haver “algo a mais”.
1.3 Conceitos-chave do Direito Penal: culpabilidade, imputabilidade e