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Capítulo IV O Destacamento de Trabalhadores por conta de outrem para outro Estado

2. Legislação aplicável ao Destacamento

2.2. A Diretiva 2014/67/U.E do Parlamento Europeu e do Conselho de 15 de maio de

A Diretiva 2014/67/UE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 15 de maio de 2014, respeitante à execução da Diretiva 96/71/CE, antes aflorada, relativa ao destacamento de trabalhadores, no âmbito de uma prestação de serviços, foi elaborada com o propósito de resolver as deficiências de interpretação e aplicação prática dos conceitos e regras de procedimento, associados ao destacamento. Os objetivos fundamentais desta Diretiva são os seguintes: i) definir um conjunto de elementos factuais de controlo destinados a avaliar a veracidade de um destacamento de trabalhadores, clarificando a noção de destacamento; ii) prevenir e sancionar eventuais abusos e evasões às regras aplicáveis, conforme disposto no seu artigo 4.º; iii) melhorar o acesso à informação detalhada sobre as condições de trabalho e emprego (artigo 5.º), nomeadamente a identificação dos trabalhadores a destacar, o período de destacamento (início e fim), o local e a natureza da prestação de serviços; e iv) melhorar e reforçar a cooperação administrativa e troca de informação entre os diferentes Estados Membros.

Os elementos criteriosos em questão têm um valor indicativo na avaliação global a efetuar por parte das autoridades competentes dos países de acolhimento, para

118 É uma Diretiva constituída por 51 considerandos e 26 artigos. Também é conhecida por “diretiva de

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determinar se se trata de um verdadeiro destacamento. Por uma questão de cautela, rigor e interdependência, os critérios não podem ser considerados de forma isolada, implicando sim, uma avaliação global de todos os elementos factuais que caracterizam as atividades realizadas por uma empresa no Estado-Membro em que está estabelecida e, caso necessário, no Estado-Membro de acolhimento, bem como, credenciam o vínculo contratual dos trabalhadores a essas entidades empresariais. No geral, esses elementos são factos relacionados com a execução do trabalho, a situação do trabalhador, a subordinação e a remuneração do trabalhador, sem prejuízo do modo como a relação é caracterizada em qualquer disposição, seja ou não de natureza contratual, eventualmente, acordada entre as partes. Referir, ainda, que esta avaliação “fiscalizadora” direcionada às condições do trabalhador e ao efetivo e substancial exercício de atividade desenvolvida pelas empresas deve ser adaptada a cada caso em concreto, atendendo às especificidades da situação em averiguação.

Esses elementos factuais a avaliar encontram-se, especificamente, estabelecidos no artigo 4.º desta Diretiva e caracterizam-se da forma seguinte:

 Avaliação direcionada às empresas destacantes - caracterização da atividade substancial no Estado Membro de origem e não meramente administrativa ou de gestão (n.º 2):

i) “(…) local onde estão situadas a sede social e a administração da empresa, onde esta tem escritórios, paga impostos e contribuições para a Segurança Social e, se for caso disso, nos termos do direito nacional, onde está autorizada a exercer a sua atividade ou está filiada em câmaras do comércio ou organismos profissionais;

ii) “(…) local de recrutamento dos trabalhadores destacados e a partir do qual os mesmos são destacados;

iii) “(…) legislação aplicável aos contratos celebrados pela empresa com os seus trabalhadores, por um lado, e com os seus clientes, por outro;

iv) “(…) local onde a empresa exerce o essencial da sua atividade comercial e onde emprega pessoal administrativo;

v) “(…) número de contratos executados e/ou o montante do volume de negócios realizado no Estado-Membro de estabelecimento (…)”

 Avaliação direcionada aos trabalhadores destacados – concretização do seu trabalho no Estado Membro de acolhimento (n.º 3) – elementos factuais:

vi) “(…) trabalho é realizado por um período limitado noutro Estado-Membro; vii) “(…) data em que tem início o destacamento;

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viii) “(…) trabalhador é destacado para um Estado-Membro diferente daquele no qual ou a partir do qual desempenha habitualmente as suas funções,

ix) “(…) trabalhador destacado regressa ou deve retomar a sua atividade no Estado- Membro a partir do qual foi destacado após a conclusão do trabalho ou da prestação de serviços na origem do destacamento;

x) “(…) natureza das atividades;

xi) “(…) despesas de viagem, alimentação ou alojamento são asseguradas ou reembolsadas pelo empregador que destaca o trabalhador e, se aplicável, é incluído o modo como essas despesas são asseguradas ou o método de reembolso;

A melhoria do acesso à informação das condições de trabalho e emprego estabelecidas na Diretiva anterior (art.º 3.º), bem como do reforço da assistência mútua e recíproca entre cada Estado Membro também se encontram previstas e definidas por esta Diretiva. Exige-se uma informação “(…) clara, transparente, exaustiva e facilmente acessível à distância e por via eletrónica (…)” (art.º 5.º) sobre as condições laborais e sociais, incluindo as matérias de saúde e segurança no trabalho, as convenções coletivas de trabalho, as remunerações salariais mínimas e seus elementos constitutivos, o método de cálculo das remunerações e, quando pertinente, os critérios de classificação das diferentes categorias salariais. No âmbito da cooperação administrativa está previsto uma postura de colaboração mais estreita entre os estados Membros, no que diz respeito a respostas a pedidos de informação, de verificações, de supervisões, de controlos119 e de inspeções, bem como, de intercâmbios entre funcionários, formações, entre outras, que garantam o cumprimento efetivo das obrigações estabelecidas nas Diretivas.

Para além de prever a tramitação dos processos de incumprimento das obrigações estabelecidas, com a respetiva aplicação de sanções administrativas e|ou coimas, dos procedimentos dos pedidos de cobrança e de notificações, a Diretiva dispõe ainda de um conjunto de mecanismos eficazes que possibilitam aos trabalhadores destacados, em

119 A este propósito, de acordo com o disposto no seu artigo 9.º, os Estados Membros podem impor

medidas de controlo e requisitos administrativos, desde que, justificáveis e proporcionais, não acarretando elevados gastos para as empresas. Podem impor, assim, aos prestadores de serviços a elaboração de uma declaração informativa necessária ao controlo a efetuar no local de trabalho, que contenha os seguintes dados: i) a identidade do prestador de serviços; ii) a identificação clara dos trabalhadores destacados; iii) a duração do destacamento (data de início e fim); iv) o endereço do local do trabalho; v) a natureza dos serviços que caraterizam o destacamento. Podem, ainda, exigir que sejam conservados e|ou exibidos os contratos de trabalho (em princípio traduzidos), os recibos de retribuição, os registos de tempos de trabalho com indicação do início, do fim e da duração do tempo de trabalho diário, e comprovativos do pagamento de salários ou cópias de documentos equivalentes, durante todo o período de destacamento, num local acessível e claramente identificado no território do Estado- Membro de destacamento e à pessoa nomeada para a intermediação.

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circunstancias de viciação legal, poderem apresentar diretamente as queixas contra a sua entidade empregadora e, num nível superior, instaurar processos judiciais ou administrativos também no Estado Membro de acolhimento, sempre que tenham sofrido perdas ou danos em resultado do incumprimento das regras, podendo abonatoriamente intervirem no seu apoio determinadas associações, sindicatos ou outras organizações (artigo 11.º).

Muito recentemente, a 30 de maio de 2017, através da Lei n.º 29/2017120, esta Diretiva comunitária é transposta para a ordem jurídica interna, sendo aplicável às situações de destacamento de trabalhadores em território nacional e às situações de destacamento de trabalhadores para outro Estado Membro, por prestadores de serviços estabelecidos em Portugal, abrangidas pelos artigos 6.º a 8.º do Código do Trabalho.

Tentando diminuir os constrangimentos à livre circulação de trabalhadores na U.E., este diploma vem elencar um conjunto de critérios de verificação das situações de destacamento temporário em Portugal, por parte das autoridades com competência na área da inspeção laboral, por forma a caracterizar o tipo de trabalho, as remunerações auferidas, as condições de trabalho e sociais do trabalhador destacado, bem como, as empresas prestadoras de serviços e suas atividades, validando a veracidade do destacamento em Portugal (artigo 4.º). Para o efeito, deve existir um acesso fácil à informação nesta matéria, através do sítio oficial na Internet ou por outros meios adequados, criando-se, assim, pontos de contacto para a disponibilização e divulgação desta informação. A cooperação administrativa e assistência mútua entre Portugal e os Estados Membros, garante do princípio da igualdade de tratamento dos trabalhadores destacados e suas famílias na proteção dos direitos laborais e sociais, torna-se com este diploma obrigatória, ficando reforçados os deveres de articulação de informação e atuação no âmbito do Sistema de Informação do Mercado Interno.

Por último, como se verifica, as Diretivas abordadas não se aplicam às matérias relacionadas com as obrigações contributivas, no âmbito da Segurança Social, sendo tais matérias endereçadas para outros instrumentos jurídicos europeus, nomeadamente os regulamentos comunitários relativos à coordenação dos sistemas nacionais de Segurança Social, que, de seguida, se irão descrever e abordar. Importa, mais uma vez,

120 Publicada no Diário da República n.º 104/2017, Série I de 2017-05-30. Acesso em 2017/06/20 em http://data.dre.pt/eli/lei/29/2017/05/30/p/dre/pt/html

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realçar o postulado que a Lei de Bases da Segurança Social, no seu artigo 25.º, vem estabelecer na relação europeia do Estado português com os seus congéneres europeus, nomeadamente, ao nível dos sistemas de Segurança Social, que se traduz na vinculação do Estado à coordenação europeia, incumbindo-lhe a tarefa de promover “(…) a celebração de instrumentos de coordenação sobre a Segurança Social com o objetivo de garantir a igualdade de tratamento aos beneficiários que exerçam atividade profissional ou residam no respetivo território relativamente aos direitos e obrigações (…)”. (LBSS, art.º 25),em prol da igualdade, justiça e liberdade europeias. Vejamos, de seguida.

2.3. O Regulamento (CE) 883/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho de 29