• Nenhum resultado encontrado

Capítulo I Problematização

3. A diversidade de «Paradigmas» de entendimento do «social»

A complexidade e a diversidade de entendimentos sobre a realidade social conduziram à produção intensa de paradigmas teóricos que valorizam distintas dimensões da vida social, sempre de forma dicotómica e fragmentada. Oposições como material/ideal, objetivo/subjetivo ou coletivo/individual incitaram a olhar o mundo e a sociedade de uma forma fragmentada, determinando as escolhas do campo da investigação. A oposição indivíduo-sociedade permaneceu como uma das bases dicotómicas entre as teorias mais interacionistas e mais sistémicas.

Contudo, segundo Guerra (2002), o confronto entre os diferentes modos de pensamento, ao ser tido por muitos teóricos como hostil para a compreensão e explicação de fenómenos sociais complexos, obrigaram a “novas sínteses que reconciliassem Marx com Weber”, permitindo à sociologia uma «utopia pragmática», capaz de lidar com a complexidade dos novos fenómenos sociais. Acrescenta a autora, que esta crise dos paradigmas científicos, que acompanharam as crises civilizacionais nos finais do século XX, conduziu à situação atual de recusa das dicotomias e à procura de novos fundamentos teóricos capazes de reorientar o conhecimento sociológico (Guerra, 2002, p.20).

Ainda assim, na visão de Guerra (2002), permanecem na reflexão do conhecimento sociológico questões epistemológicas, teóricas e metodológicas que, à semelhança das discussões tradicionais, continuam a ser colocadas, embora agora com novas configurações e complexidades, designadamente: a relação entre o ator e o sistema; a relação entre a ciência e o senso comum; articulação entre a história e a vida quotidiana; a indução e a dedução nas formas de conhecimento; a relação entre teoria e ação.

Estas e outras dicotomias têm vindo a ser alvo de tentativas de reconciliação, isto é, de uma tentativa de organização dos pressupostos epistemológicos, teóricos, éticos e metodológicos, que têm vindo a dar corpo à teoria da ação, induzindo a “um profundo questionamento da

26

prática científica”, colocando em causa duas conceções – “a do mundo social e da ciência”, e a “do sujeito e do papel do cientista na mudança social” (Guerra, 2002, p. 21).

Na realidade o que se tem verificado é que uma parte substancial da teoria sociológica tem analisado a realidade social a partir de dois níveis - o primeiro é o da ação e da interação social, e o segundo é o da estrutura e do sistema social -, ainda que tenha havido algumas tentativas de articulação.

Cohen (1976) propõe que a teoria sociológica tem que ser capaz de, em primeiro lugar, explicar ou sugerir maneiras por que os fenómenos sociais têm as características que possuem; em segundo lugar, de fornecer ideias para a análise dos complexos processos e acontecimentos sociais; e em terceiro, auxiliar na construção de modelos da maneira pela qual as estruturas e os sistemas sociais funcionam.

Um dos principais de argumentos de Cohen (1976, pp. 252, 253) assenta na ideia de que ao se “desmistificar” grande parte do que é discutido a propósito da ação social, interação, estruturas e sistemas sociais, torna-se possível “explicar ou sugerir maneiras de explicar por que razão os sistemas sociais persistem e mudam, por que variam nas suas características”, sem que para isso se tome partido nas discussões em torno do confronto entre diferentes modelos explicativos da sociedade – os modelos «estrutural-funcionais», «integração ou consenso» e «conflito-coerção».

Ao admitirmos a compreensão e a análise das dinâmicas de um determinado sistema social – os Cuidados Continuados Integrados -, da sua estrutura e da ação estratégica dos atores que nela interagem, num contexto explícito de mudança e ao admitirmos colocar o seu contributo para ação social, do ponto de vista da sociologia, impõe-se-nos a necessidade de questionar o campo da mudança social e, por conseguinte, refletir sobre a análise da articulação complexa entre o sistema e os atores.

Na verdade, ao problematizarmos o campo paradigmático onde se foram desenvolvendo as teorias da mudança social, podemos identificar três importantes paradigmas.

O paradigma holista, de inspiração filosófica, que integra as teorias estrutural-funcionalistas e funcionalistas, definindo a mudança social como um produto de fatores, causas, processos e estruturas de caráter coletivo que dominam os atores individuais.

O segundo paradigma integra as teorias que adoptaram o chamado paradigma acionista. Segundo os seus postulados, a mudança social é o produto das ações individuais e dos seus

27

efeitos de agregação, desejados ou não, previstos ou não, criticando a visão determinista do paradigma holista.

Um terceiro paradigma como forma de ultrapassar a essa visão dicotómica da realidade, procurando combinar as teorias dos dois paradigmas anteriores. Esse novo paradigma designado por «integrado» inclui as teorias de síntese, sobre as quais a maior parte das teorias atuais analisa os processos de mudança. Conforme afirma Guerra, esta tentativa de integração “tem vindo, em simultâneo com a abertura dos campos profissionais às ciências sociais e da procura de matrizes teóricas de suporte à ação, a dar corpo no que poderemos chamar de «teoria da acção»” (Guerra, 2002, p. 20).

Importa, contudo, lembrar que a sociologia nasceu dentro dos referenciais teóricos do holismo, perspetivando a mudança social como produto de leis históricas e da verificação de que certos fatores ao atuar sobre as partes constitutivas dos sistemas sociais iriam produzir novas totalidades sociais.

Como já tivemos oportunidade de referir, a sociologia herdou da filosofia um certo número de “paired concepts” (Corcuff, 1997, p. 17), tendo sido fortemente marcada pela oposição entre o coletivo e o individual, a sociedade e o indivíduo. A valorização do coletivo em Émile Durkheim ilustra este debate que ainda hoje se recorre. As Regras do método sociológico de Durkheim (2010) é o exemplo clássico que nos propõe a ideia do coletivo (ou social) distinto do individual (dependente da psicologia), em que o social constitui uma entidade específica e a sociedade concebida como um sistema formado pela sua associação, traduzindo uma realidade que tem as suas próprias características:

É, pois, na natureza da própria sociedade que deve procurar-se a explicação da vida social. Efetivamente, concebe-se que, por ultrapassar infinitamente o indivíduo, tanto no tempo como no espaço, ela esteja em condições de impor-lhe as maneiras de agir e de pensar que a sua autoridade consagrou. (Durkheim, 2010, pp. 128-135).

Tal remete-nos, desde logo, para a seguinte «regra» que se impõe ao sociólogo: “A causa determinante de um facto social deve ser procurada entre os factos sociais antecedentes e não nos estados de consciência individual” (Durkheim, 2010, pp. 128-135).

A problemática da mudança social enquadrada no paradigma holístico é também perspetivada por Durkheim (1893), a partir da teoria da diferenciação das sociedades. Perante a questão fundamental “Como é que uma colecção de indivíduos pode constituir uma sociedade? Como é que os indivíduos podem realizar essa condição de existência social que é um consenso?”,

28

Durkheim responde pela distinção entre duas formas de solidariedade que, por sua vez, correspondem a duas formas extremas de organização social: a solidariedade dita mecânica e a solidariedade dita orgânica. Segundo o pensamento durkheimiano, a solidariedade mecânica é uma solidariedade por semelhança, o que significa que ao dominar esta forma solidariedade na sociedade, os indivíduos assemelham-se porque experimentam os mesmos sentimentos, porque aderem aos mesmos valores. Neste sentido, a sociedade é coerente na medida em que os indivíduos ainda não se diferenciam. Por oposição, o autor designa de orgânica a uma solidariedade assente na diferenciação dos indivíduos por analogia com os órgãos do ser vivo, que preenchendo cada um uma função própria, e não se assemelhando, são todos de igual modo indispensáveis à sobrevivência da sociedade e, por conseguinte, é porque são diferentes que se realiza o consenso. A ideia da passagem de uma solidariedade onde reina a simplicidade para uma solidariedade complexa e diferenciada são temas fundamentais que fazem parte da teoria geral desenvolvida pelo autor na sua obra Da Divisão do Trabalho

Social (Durkheim).

Auguste Comte, com a sua obra A lei dos três estados, (Comte, 1825) ajudou a compreender a mudança social, influenciando bastante as ideias de Durkheim5. Comte perspetiva as ações individuais como fenómenos residuais, na medida em que os indivíduos singulares não tinham força para alterar o curso da história, pois o único sujeito da história era a Humanidade, o "Grande Ser". Para o autor, é impossível compreendermos o estado de um fenómeno social particular se o não situarmos no todo social.

Foi no Curso de Filosofia Positiva que Comte (1825) fundou a chamada ciência nova, a sociologia, a qual, ao afirmar a prioridade do todo sobre o elemento e da síntese sobre a análise, tem por objeto de estudo a história da espécie humana. Conforme refere Raymond Aron (1994), “seria uma ciência sintética”, uma “ciência que partiria das leis mais gerais, das leis fundamentais da evolução humana”, “uma maneira de pensar que caracteriza as diferentes etapas da humanidade, e a etapa actual e final será marcada pela generalização triunfal do pensamento positivo” (Aron, 1994, p. 87).

O pensamento de Karl Marx (1818-1883) deu-nos outra forma de conceber a mudança social através de uma análise e uma compreensão da sociedade capitalista no seu funcionamento

5 Através da visão holista da realidade social, Durkheim influenciou, por sua vez, o pensamento de sociólogos, como Levi-Strauss, Merton,

Blau, Baudrillard (estruturalistas clássicos), Parsons (funcionalista), Goffman (interaccionista), Luhmann (neo-evolucionista) e, mais recentemente, Pierre Bourdieu (estruturalista).

29

atual, na sua estrutura presente, na sua transformação necessária. Nas palavras de Aron (1994), “Marx coloca no centro do seu pensamento a contradição aos seus olhos inerente à sociedade moderna a que dá o nome de capitalismo”, explicando que o dado maior da sociedade do seu tempo era constituído pelas contradições internas da sociedade capitalista e da ordem social ligada ao capitalismo. No cerne da análise sociológica está, portanto, o contributo da permanência dos modos de produção dominantes para a reprodução das estruturas das classes sociais e das relações de dominação de umas classes sobre as outras, com a luta de classes a assumir a função de motor da transformação e da mudança social (Aron, 1994, p. 145).

Sendo a máxima do holismo privilegiar o todo em detrimento das suas partes, isto é, da aceitação do “postulado segundo o qual o indivíduo, sendo produto das estruturas sociais, pode ser negligenciado na análise” (Corcuff, 1997, p. 19), a compreensão da mudança social pode ser alcançada por meio de argumentos de natureza estrutural ou sistémica, uma vez que a mudança social é produzida pela estrutura ou pelo sistema social.

A tónica que o pensamento durkheimiano punha sobre o coletivo desencadeou reações no sentido de considerar os elementos individuais na análise sociológica. Tais reacções deram lugar a críticas vindas de vários sociólogos desde Max Weber, passando por Luckmann e Berger e assumindo a sua forma radical com aquilo que Raymond Boudon e outros sociólogos apelidam hoje de individualismo metodológico:

para explicar qualquer fenómeno social – quer ele revele da demografia, da ciência política, da sociologia ou de qualquer outra ciência social particular, é indispensável reconstruir as motivações dos indivíduos envolvidos no fenómeno em questão e apreender esse fenómeno como resultado da agregação dos comportamentos individuais ditados por essas motivações (Boudon, 1986, p.19).

Boudon (1986) põe em relevo alguns dos principais debates metodológicos que caracterizam a sociologia desde as suas origens, como agência/estrutura, compreensão/explicação, objetivismo/subjetivismo, entre outros, entendidos por si não mais como dualismos cujos termos são inconciliáveis e incomensuráveis, mas como simples oposições nas quais os polos opostos são analiticamente diferenciados e relacionados.

Ao adotar o princípio do individualismo metodológico, Boudon (1986) pronuncia-se contra os determinismos sociais exagerados, considerando que todo o fenómeno social deve ser concebido como o resultado da agregação das ações individuais. De acordo com a sua conceção de individualismo metodológico, os fenómenos sociais devem ser explicados a

30

partir das ações dos indivíduos. Porém, estas ações não ocorrem num «vácuo social», mas são socialmente indexadas, diferenciando assim individualismo de atomismo. O autor, ao se fundar no paradigma weberiano e na análise da filosofia da história de Simmel, procura justificar a centralidade do individualismo metodológico para uma análise adequada da realidade social. Assim, e de forma sintetizada, o individualismo de Boudon baseia-se nos seguintes axiomas: “o átomo da análise sociológica é o ator individual; a racionalidade dos atores é complexa; os atores estão incluídos em sistemas de interacção que fixam os constrangimentos aos comportamentos individuais” (Boudon, 1986, p.19).

Sob a influência do paradigma individualista, surgem as teorias acionistas que interpretam a mudança social como um produto dos agentes individuais, da sua subjetividade e inter- subjetividade. Segundo a perspetiva weberiana, a mudança social é entendida como o produto de uma infinidade de microacções individuais, que podem ser compreendidas, antes de se explicarem, com referência à ação dos sujeitos individuais. Nesta ótica, Boudon entende ser necessário descobrir o sentido que tem para um dado indivíduo a situação em que se encontra, dado que a alteração da situação pode ser por ele recusada, ainda que pareça acontecer uma melhoria da sua situação, em função das suas motivações e capacidades. A conclusão é a de que, perante um leque de escolhas restrito, os atores podem, com a sua não intervenção, anular as hipóteses de mudança. Para o autor, todos os fenómenos sociais são vistos como produto das atividades individuais, ou seja, a sequência do processo de mudança inicia-se com as ações individuais que produzem os designados efeitos de agregação e de composição (simples e complexos) que conduzem à mudança (Boudon, 1986).

Nas críticas que Boudon fez sobre os grandes paradigmas, o autor entende que o objeto da sociologia visa, mais do que predizer a mudança, entender a lógica de mudança dos sistemas de interação (Boudon, 1986).

Outro autor de relevo como George Simmel apreende os fenómenos sociais como resultado das ações dos indivíduos que são, consequentemente, produto dos processos mentais destes mesmos indivíduos. Por sua vez, esses processos mentais dependem quer das circunstâncias históricas, quer da condição ou ambiente em que os indivíduos se encontram. Este sociólogo julga que dar uma explicação para a ocorrência de um acontecimento ou fenómeno social é proceder à reconstrução da rede de círculos sociais a que o individuo está ligado. Para Manuel B. da Cruz, pese embora seja uma explicação aceitável, em termos práticos revela-se um

31

trabalho árduo e complexo, ou mesmo impossível, pela dificuldade de alcançar as motivações dos indivíduos para realizarem uma ação (Simmel, 1923, como referido por Cruz, 1995). Contudo, o paradigma da ação, ao apoiar-se na liberdade dos atores sociais, parece-nos ser mais aceitável do que o recurso ao paradigma holista. Ainda assim, dada a complexidade do real, há que ter algumas prudências pela dificuldade em precisar e clarificar alguns dos seus conceitos, nomeadamente o conceito de indivíduos. Ao falar-se de indivíduo, de que indivíduo estamos a falar? De ator individual ou colectivo?

Na verdade, para além da “dimensão intersubjectiva (relações entre os indivíduos) da realidade social”, “a dimensão intra-subjectiva, ou seja, a pluralidade das identidades que constituem um mesmo indivíduo, as suas múltiplas personalidades” é, para autores como o filósofo Michael Sandes (citado por Corcuff, 1997), ignorado pelo individualismo metodológico. “As novas sociologias” como invoca Corcuff insurgem-se contra o holismo e o individualismo procurando “aprender indivíduos plurais produto e produtores de relações variadas” 6 (Corcuff, 1997, p. 21).

Estas novas sociologias de que fala Corcuff reportam-se no fundo à tentativa de, nos últimos anos, muitos sociólogos procurarem estabelecer uma ligação entre o individualismo e holismo, no sentido de explicar e compreender aspetos inerentes às transformações e mudanças da sociedade.

Habermas (1987) contribuiu bastante neste sentido ao evidenciar que a mudança social deve ser compreendida como produto da conjugação entre ação comunicativa e ação estratégica. Para este efeito, baseia-se na teoria comunicacional que concebe a mudança social como mudança das formas comunicativas. O objetivo deste autor passou por construir uma teoria neomarxista (cuja intenção era produzir uma teleologia histórica da libertação da opressão, isto é, do poder do homem sobre o homem ou do capital sobre o trabalho) e normativa (ao admitir que as normas constituem a base de toda a mudança significativa).

Alain Touraine (2005), com influências teóricas de natureza positivista, marxista e weberiana, destaca-se também pela sua abordagem da mudança social ao justificar que os movimentos

6

Esta ideia inscreve-se naquilo a que Corcuff (1997, p. 21) qualifica de problemática construtivista, defendo que a mesma não deve ser considerada “como uma nova «escola» ou uma nova «corrente»”. Na sua opinião, reporta-se antes a um espaço onde são refletidas e trabalhadas questões e problemas, recorrendo a mapas concetuais, a métodos aplicados e à própria relação que o investigador estabelece com o trabalho empírico. Segundo a perspetiva construtivista, “as realidades sociais são apreendidas como construções históricas e quotidianas dos atores individuais e colectivos” (p. 22).

32

sociais são o motor chave dessa mudança, apesar da dificuldade sentida em articular os sujeitos históricos com a mudança social concreta. Fala, por isso, da necessidade de um novo paradigma para compreender os problemas de hoje, especialmente os problemas culturais que “ganharam uma importância tal que o pensamento social tem de se organizar à sua volta” (Touraine, 2005, p. 9),

De notar outras referências teóricas como Giddens (1996), ao elaborar uma teoria da estruturação social em que permanece a subjectividade, e Bourdieu (1989) ao sublinhar e existência no mundo social de estruturas objetivas independentes da consciência e da vontade dos agentes capazes de orientar ou de constranger as suas práticas e as suas representações. Foi, contudo, com a reemergência do interesse pela vida quotidiana nos anos 80 que a polémica se desencadeou. A recusa da realidade ser interpretada de um modo linear e determinista apelou para a multiplicidade de fenómenos sociais e para a sua “não redutibilidade à interpretação a partir dos grandes quadros «estruturais».” Porém, o debate não recaía apenas na defesa de uma sociologia preocupada com as questões do quotidiano e das “pequenas coisas”, segundo Gofman e Maffesoli, mas também a importância do

equilíbrio da relação entre a análise das grandes forças sistémicas que historicamente formatam a nossa sociedade e análise da estratégica de actores que, em cada circunstância concreta, tem nas suas mãos o fermento da mudança (Guerra, 2006a, p. 14)

Esta tentativa de integração da estrutura e da ação também não está imune a críticas. Uma dessas críticas prende-se com a anulação do papel das ações individuais e da criatividade dos singulares sujeitos concretos.

Pierpaolo Donati (2007) escreve sobre a necessidade de se desenvolver uma sociologia relacional no sentido de se evidenciar o papel da cultura e estabelecer a ação dos sujeitos como fatores de compreensão da mudança social. A partir de uma teoria da relação social, este autor propõe a adoção do paradigma relacional - numa perspetiva de interrelacionar explicação e compreensão - através do seguinte raciocínio teórico: a partir de um determinado contexto de sujeitos em relação, observa-se a sua dinâmica relacional e obtém-se uma explicação que compreenda a mudança social como emergência de novas formas sociais. Na perspetiva de Donati, uma teoria da relação social incita-nos a encontrar um elemento ao mesmo tempo integrador e diferenciador na explicação e compreensão da mudança social, por outras palavras, uma teoria que seja uma expressão integradora de agentes (indivíduos em relação) e de estruturas ou mecanismos sociais (formas).

33

Na realidade, são várias a tentativas de reconciliação destes paradigmas que procuram entender vida social contemporânea através da relação entre o ator e o sistema. Giddens, Beck, Habermas, Crozier e Friedberg, entre outros anteriormente citados, são alguns dos mais recentes que tentam construir “teorias gerais na procura de um entendimento integrado das dinâmicas socias e da refundação daquilo a que Touraine chamaria uma teoria de acção” (Guerra, 2006a, p.13).

O recurso às teorias da ação pode não ser suficiente para satisfazer as necessidades da nossa análise sociológica, ainda que admitamos que a compreensão e a explicação da ação humana consiste na atribuição aos atores de capacidade para agir de modo não mecânico ou não estritamente racional. Quer dizer, na análise sociológica, reconhece-se que os atores individuais têm uma certa capacidade de iniciativa e de escolha, ou seja, são detentores de um tipo de capacidade que lhes permite algum distanciamento face ao sistema social. A propósito da capacidade de escolha, Percy S. Cohen (Cohen, 1976, p. 96) fala que onde “há escolha, existe uma maior possibilidade e também a necessidade de uma estratégia de acção”, explicando que havendo pouco possibilidade de escolha, quer seja em virtude da estrutura social, quer seja por causa das limitações ou possibilidades técnicas, as estratégias de ação