1. PRODUÇÃO INDUSTRIAL DO ALUMÍNIO
1.3. A eletrointensividade da indústria do alumínio
A indústria do alumínio é uma consumidora eletrointensiva, pois apresenta em seu processo uma demanda em energia elétrica elevada.
A referida característica direciona a indústria do alumínio a buscar autonomia referente ao quesito energia elétrica, ou seja, assumir a condição de auto-produtor do insumo básico para o próprio processo produtivo. Como auto-produtor, a indústria recebe, por parte do governo, a concessão ou autorização para produzir energia elétrica destinada ao seu uso exclusivo.
O decreto “nº 2003, de 10 de dezembro de 1996 regulamenta a produção de energia elétrica por produtor independente e auto-produtor, e dá outras providências” (ANEEL, 1996). A indústria do alumínio tem investido na auto-produção, procura construir autonomia com relação ao insumo energia hidrelétrica. “A indústria do alumínio tem investido na auto-geração, na capacidade instalada de 5.110 MW em 14 usinas hidrelétricas” (ABAL, 2006: 27).
“A atual legislação, que considera todos os empreendimentos hidrelétricos como produção independente, deve ser revista. Ao retirar o caráter de serviço público que prevalecia antes da reestruturação do setor, no caso das usinas hidrelétricas, ela permite que o bem público representado pelo rio possa ser apropriado para responder a necessidade de natureza privada, no sentido estrito do têrmo. É o caso da auto-produção, concebido para assegurar a disponibilidade energética que é apropriado única e exclusivamente por uma empresa, em detrimento do interesse do publico” (BERMANN, 2003: ANO) Assim sendo, a pressão sobre o bem público, entendido como o rio, será proporcional a uma maior demanda em consumo de energia elétrica para alimentar a
indústria do alumínio. Isto é, a apropriação do bem público também significa a sua gradativa redução. Desta forma destacamos que a atual política energética oferece privilégios para a indústria eletrointensiva ao possibilitar o uso privado de um bem que é público. Afinal, o setor, cuja característica, é o elevado consumo de eletricidade, não trabalha com a possibilidade de criar mecanismos para reduzir as suas produções e clientela, pelo contrário, procurará sempre aumentar a sua cartela de clientes.
Gráfico 1.1: Produção primária de alumínio 2005 (Unidade: 1000 ton.) 133 120,9 134,9 132,4 137,8 132,3 137,2 136 131,8 137,1 132,8 137,6 110 115 120 125 130 135 140 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 meses P ro d u ç ã o d o a lu m ín io FONTE: ABAL (2006)
A pressão da indústria do alumínio para fazer uso privado do bem público, no caso um rio, será proporcional aos efeitos produzidos para famílias, comunidades e cidades que estiverem ocupando as margens dos rios para projetos de usinas hidrelétricas.
Adotando um modelo participativo de planejamento energético integrado ao planejamento industrial, o governo engaja a sociedade no esforço de conquistar padrões de qualidade de vida comparáveis aos de alguns países ditos desenvolvidos, com um consumo de energia consideravelmente menor. Isso favoreceria a utilização estratégica do parque gerador já instalado, de forma a aliviar a carga do sistema elétrico, afastando riscos de racionamento e ganhando tempo para que o risco financeiro do capital fosse restabelecido. Cálculos simples mostram que, se planejássemos com autonomia o uso do potencial hidrelétrico e, se adotássemos uma política industrial que desestimulasse a produção de eletrointensivos, reduzindo-os, as necessidades do consumo interno, a demanda de eletricidade, pelas próximas três ou quatro décadas, ficaria coberta praticamente só pela geração hidrelétrica, com pequenas complementações térmicas em algumas regiões (CARVALHO, 2002).
Entretanto as indicações apresentadas esbarram nos interesses do setor elétrico e na dinâmica atual da política energética que “ao liberalizar o setor elétrico ensejou promover uma inversão conceitual quanto ao caráter do fornecimento de energia elétrica, de
serviço público essencial para um commodity, isto é, uma mercadoria” (SAUER, et alli, 2003:99).
A transição do serviço público de energia elétrica para sua caracterização como mercadoria, e ainda, o uso privado do bem público, sinalizam a aproximação para uma política energética preparada para atender determinados setores produtivos em detrimento dos interesses da sociedade.
A gula da indústria de alumínio ao consumir energia elétrica depende de capital fixo que ofereça condições para iniciar a atividade industrial eficiente. Alguns pesquisadores estimam o quanto consome a produção de alumínio por tonelada.
“O consumo energético da etapa de fundição da alumina para obtenção do alumínio primário se situa na faixa de 74,6-107,6 GJ por tonelada produzida, sendo que a energia elétrica requerida no processo atinge valores entre 15.000-16.000 kw/h por tonelada, dependendo da idade dos equipamentos e das condições de manutenção dos mesmos, fatores que condicionam o grau de eficiência energética do processo” (BERMANN, 2004: 70).
Os valores apontados são diferentes, porém próximos. “Para produzir 1 tonelada de alumínio a partir da bauxita são necessários 17.600 kW/h ou 17,6 MWh” (ORTH, 2005:14). “A ABAL estima um consumo de 15,1 MW para produção de 1 tonelada de alumínio para 2004” (ABAL, 2006:26).
Estimar o valor correspondente para o consumo de energia elétrica de uma indústria eletrointensiva requer considerações referentes à própria infraestrutura industrial disponível, a sua vida útil, a sua própria manutenção. São situações variadas que determinam a maior ou menor produção e a maior ou menor demanda por energia elétrica.
Um cenário de aumento da produção industrial eletrointensiva, naturalmente, provocará pressão pelo suprimento de energia elétrica. “O Comitê Coordenador de Expansão do Sistema Elétrico/Comitê Técnico para Estudos de Mercado estima para o setor industrial do alumínio um aumento para 27.000 MW/h em 2010, na oferta de energia elétrica” (CCPE e CTEM, 2001). Neste cenário, são consideradas as parcelas de empreendimento da geração termelétrica (inclusive a co-geração) e hidráulica, incluindo as parcelas de auto-produção das usinas com potência instalada de 50 MW. A estimativa do CCPE/CTEM nos leva a refletir sobre a pressão pela aquisição de propriedades para
construções de usinas hidrelétricas, os deslocamentos involuntários conseqüentes e a importância social das obras hidrelétricas exclusivas para geração de energia elétrica privada, destinada à indústria do alumínio.
A tabela 1.6 que se segue apresenta dados sobre os empregos gerados pela indústria do alumínio, comparando-os com o consumo de energia elétrica necessária para ativar e manter o processo de produção do alumínio.
Tabela 1.6. – Empregos, consumo energético, peso da massa salarial e participação dos gastos com energia segundo setores industriais selecionados: Brasil 2004
Setor Empregos(1) GWh Energia
Total Receita total Salário/ Gastos c/ energia/ Receita total
Alimentos e bebidas 1.148.563 19.851 17.552 5.46% 1.90% Alumínio primário 15.571 22.077 3.282 5,63% 9,03% Cimento 15.770 3.754 2.648 3,64% 7,43% Ferro ligas 9.796 7.659 1.563 4,14% 8.52% Papel e Celulose 44.676 14.098 7.299 4,75% 3,87% Produtos químicos 320.769 21.612 7.115 5,76% 2,33% Siderurgia 56.827 16.889 17.945 5,25% 5,10% Têxtil 280.296 7.776 1.186 10,55% 5,12%
(1) Para os setores alimentos e bebidas, cimento, produtos químicos e têxteis, os dados de emprego referem-se ao ano 2003
FONTE: Anuário Estatístico – MME (2005:91)
A condição intensiva em energia elétrica da indústria do alumínio não é acompanhada pela quantidade de empregos diretos criados pelo próprio setor. Os dados demonstram que a indústria do alumínio, entre as atividades produtivas eletrointensivas, é o que mais consome eletricidade, porém, este elevado consumo não é acompanhado pelo número de empregos gerados.
Também, vale destacar a seguinte questão: até que ponto interessa para a sociedade a produção industrial do alumínio, os seus km2 de terras submersas, os deslocamentos compulsórios populacionais provocados pelas obras hidrelétricas que geram eletricidades para a indústria do alumínio?
2. A PRESENÇA DA CBA NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO RIBEIRA DE