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A Escola Behaviorista ou de Condicionamento

No documento Arthur Janov - o Grito Primal (páginas 182-185)

As técnicas de condicionamento estão ganhando sempre maior popularidade entre terapeutas, especialmente nos hospícios e nas universidades. Sem qualquer tentativa para explorar a vasta literatura nessa área, eu apenas discutirei por alto o método de condicionamento. A ideia principal é que os problemas emocionais são o resultado de adversas condições de educação. Diz-se que a neurose é fruto da falta de instrução. Assim, por motivos de recompensa ou punição, neurótico aprende certas reações ou hábitos impróprios e eles tendem a se tornar mais fortes com o tempo. Andrew Salter, em seu livro Condition Reflex Therapy, afirma:

A falta de ajustamento é falta de condicionamento e a psicoterapia é o recondicionamento. Os problemas do indivíduo são o resultado de suas experiências sociais, e quando modificamos as suas técnicas de relações sociais, nós também modificamos a sua personalidade. Não queremos dar ao indivíduo um conhecimento estratificado de seu passado a que chamamos "sondagem".

O que desejamos é dar-lhe um conhecimento reflexo de seu futuro a que chamamos "hábitos".

Essa afirmação de Salter parece representar a opinião geral de muitas escolas de condicionamento, embora haja entre elas muitas diferenças. Essencialmente parece ser que aprendemos a ser felizes aprendendo os hábitos emocionais, da mesma forma que aprendemos a ser infelizes. Esse método depende muito de como as pessoas funcionam. Um funcionamento adaptativo, eficiente e produtivo seria um índice de saúde emocional. Já discuti antes o funcionamento, mas torno a afirmar que ele pouco informa quanto aos sentimentos da pessoa ou tampouco se ela sente enquanto está funcionando. Pacientes que sempre funcionaram muito bem em termos de posição, status, e renda, diziam que se sentiam "mortos" e que tudo que faziam era desprovido de sentido, pois apenas movimentavam-se. Assim, embora eles pudessem haver sido mecanizados na infância por duas máquinas de condiciona- mento — seus pais — que premiavam o comportamento neurótico e puniam o "bom'', a Dor que isso produzia não pode ser destruída pela alteração da rota do sintoma ou do comportamento superficial. Na minha opinião, ela não desaparecerá com uma modificação na saída.

São inúmeros os exemplos que podemos citar da terapia de condicionamento. Um deles é um hospício que adotou o seguinte método para os alcoólatras: Montam um bar e toda vez que um paciente bebe um gole recebe um choque elétrico doloroso e a corrente vai aumentando até que ele cuspa fora a bebida em uma bacia que está na sua frente, e então a corrente é desligada. A ideia é colocar um certo "mau" comportamento ao lado de um estímulo desagradável e com isso expulsando o hábito indesejável.

Uma outra variação de condicionamento negativo é mostrar uma série de cartões a um grupo de homossexuais. Em alguns deles há fotografias de homens nus. Toda vez que um deles vira um desses cartões logo recebe um choque. Espera-se que a vista de homens nus torne-se então dolorosa e desagradável o bastante para evitar o homossexualismo. Na Inglaterra já se tentou um método de condicionamento positivo com homens homossexuais. Faziam com que eles se masturbassem até o ponto de ejaculação, e nesse momento exato surgia uma fotografia de mulher nua. Com isso esperava- se associar com as mulheres o prazer sexual expulsando-se as anteriores tendências.

Essas experiências são baseadas na presunção que as pessoas aprendam novos hábitos por associações agradáveis ou desagradáveis. Embora se possa

considerar como razoável presumir que as pessoas pratiquem as coisas que são premiadas e cessem as que não são, esse método omite o dinamismo que está por trás do hábito neurótico. No caso do homossexual, por exemplo, parece que não se leva em conta a tremenda negação do amor e a grande necessidade de carinhos. Em lugar disso o paciente é castigado para não ter o que quer, e isso só serve para aprofundar a neurose. Eu penso que as técnicas de condicionamento só trarão aumento de tensão e talvez sintomas mais sérios.

Não acredito que se deva tratar as doenças cuidando apenas dos sintomas. Para tratar da neurose nós precisamos cuidar das necessidades. A tensão também não é levada em consideração nos métodos de condicionamento.

O método Primal é diferente dos outros. Em lugar de encarar os temores da pessoa como entidades, a Terapia Primal acredita que o medo está na pessoa.

A Terapia Primal cuida de processos internos ao passo que os métodos de condicionamento só cuidam do comportamento ostensivo. Assim um medo atual é considerado pela Terapia Primal como emanando de alguma coisa histórica. Quando se trata de fobia, a Terapia Primal indica que o sentimento, que pode ser o medo neste caso, é sempre real enquanto o contexto é simbólico. A pessoa pode ter medo não realmente de altura, por exemplo, mas de alguma coisa que não compreende. A terapia de condicionamento trataria do sintoma apresentado, que era o medo de alturas, e tentaria fazer com que a pessoa ficasse mais tranquila em tais situações. A Terapia Primal tenta mostrar a ligação certa com o medo. Eu creio que é essa ligação que elimina o medo generalizado e a necessidade de procurar substitutos.

Implícito em alguns dos métodos de condicionamento temos a presunção que o homem seja mais ou menos uma máquina cujo comportamento pode ser fixado ou modificado por manipulação externa sem a intervenção da consciência. As técnicas de exercícios na vida escolar ou militar parecem ser uma extensão dessa filosofia. A ideia é que a neurose pode ser alterada permanentemente mesmo que a pessoa não imagine o que possa ter feito nascer o seu comportamento irracional ou as condições que puseram um fim a ele. Além de discordar em terreno psicológico, eu quero me ocupar da proliferação e aceitação das atuais técnicas de condicionamento. Essa ideia de considerar os seres humanos como simples unidades que podem ser manobradas de qualquer forma faz parte de um Zeitgeist, parte da desumanização do homem, onde os sentimentos, os propósitos e a inteligência são apenas considerações secundárias na ânsia de se conseguir resultados. Eu acho que o tratamento mecânico dos seres humanos faz parte da doença atual e é o que causou originalmente a neurose. O meu medo é que a psicologia possa ser absorvida pela mecanização social generalizada onde os efeitos sintomáticos sociais e pessoais, como os protestos estudantis, são eliminados por técnicas de punição sem que ninguém se preocupe em indagar a razão.

lembrar sempre que os seres humanos possuem a história de suas vidas.

Talvez parte do problema esteja no fato das técnicas de condicionamento terem funcionado em animais e que daí foram extrapoladas para os homens, sem levar em consideração que eles não são animais.

Acho que a teoria do condicionamento teve uma importante função na história da educação e da psicologia, ou seja, na área da instrução. É certo que há determinadas condições que facilitam ou inibem a instrução e seria bom se tivéssemos uma teoria para isso mostrando como as pessoas aprendem, sob que condições, em que idade. Não creio, porém, que o ensino possa fazer justiça à complexidade do processo neurótico. As necessidades são tanto físicas como mentais, e não vejo como elas podem ser ignoradas e ainda assim permitir que alguém sinta estar realmente fazendo alguma coisa pela neurose. Eu vejo o processo neurótico como totalmente psicofísico, ao passo que o processo da instrução é primordialmente mental. Assim, as manipulações do sistema mental apenas não podem qualitativamente alterar o sistema, psicofísico.

No documento Arthur Janov - o Grito Primal (páginas 182-185)