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2.1.4 – A Escola Clássica e o comando do mar

Por outro lado o pensamento naval britânico, Lord Fisher134 ou de Julian Corbett135, mantinham uma linha relacional entre as questões do poder naval, a guerra ao comércio marítimo e as necessidade de sobrevivência económica da Grã-Bretanha.

No caso de Lord Fisher existiu o reconhecimento da importância da nova arma, o submersível, e como esta poderia ser uma ameaça para a Armada Britânica. No entanto, também não pensou na arma submarina como uma arma de guerra ao comércio marítimo. No caso de Julian Corbett, em 1911, este reconhecia que a

134John Arbuthnot "Jackie" Fisher (1841-1920), 1º Barão Fisher, foi um estratega naval e Almirante da Royal Navy. Como 1º Sea Lord, em 1904, foi um dos responsáveis pela modernização da Armada Britânica nos anos anteriores à Grande Guerra.

135Sir Julian Stafford Corbett (1854-1922) ,foi um estratega naval britânico sendo o seu livro mais famoso Some Principles of Maritime Strategy. Era amigo pessoal do Almirante Jackie e teve após o final da Grande Guerra a incumbência de escrever a história oficial das operações britânicas navais na Grande Guerra.

87 evolução tecnológica tinha trazido grandes diferenças quanto às necessidades navais e estava ciente que numa futura guerra naval iriam existir grandes problemas ao nível do comércio marítimo.

Primeiro, Julian Corbett considerava que com a Declaração de Paris de 1856, a abolição da Guerra de Corso diminuiria o impacto destrutivo da guerra ao comércio marítimo, já que grande parte dos ataque a navios mercantes antes da Declaração de Paris eram efectuados por corsários. Considerava que mesmo que parte de uma marinha comercial inimiga fosse convertida em de navios auxiliares armados (raiders), o número dessas unidades seria muito menor do que o número de corsários que existiam nos dias da “Guerre de Course”.

Segundo, Julian Corbett considerava que após a passagem da marinha à vela para a marinha a vapor, se tinha tornado impraticável dispensar guarnições para ocupar os navios capturados, indo neste sentido ao encontro do pensamento de Théophile Aube.

Terceiro, Julian Corbett reconhecia que o desenvolvimento das comunicações sem fios (TSF) tinham colocado em desvantagem os atacantes dos navios comerciais. De facto os navios comerciais tinham a possibilidade de comunicar a posição do seu atacante, permitindo que outros navios na zona fugissem, ou que um navio de guerra amigo que se encontrasse próximo o auxiliasse. Julian Corbett concluiu que apesar dos novos desenvolvimentos tecnológicos terem trazido mais capacidade e novas soluções para se efectuar a guerra ao comércio marítimo, esses mesmos desenvolvimentos tinham trazido também novas dificuldades na manutenção de uma estratégia de guerra ao comércio marítimo.

Na prática colocava em causa o enfoque de Alfred Mahan na procura de uma batalha decisiva, já que era evidente que uma marinha com capacidade militar inferior tenderia a evitar um confronto directo. O verdadeiro enfoque deveria ser o bloqueio dos portos comerciais inimigos e isto representaria a expressão máxima de um poder naval, sendo que a finalidade última seria sempre levar a população do inimigo a

88 procurar uma solução de paz, mesmo reconhecendo que era uma estratégia a longo prazo136.

A tecnologia tinha trazido uma nova natureza de assimetria à guerra naval, o que fez Julian Corbett reconhecer a que a visão clássica mahanistas de comando do mar estava em causa, após ter tomado conhecimento do afundamento dos cruzadores Aboukir, Cressy e Houge no Mar do Norte em menos de 60 minutos por um submarino alemão, causando mais de 2.500 mortos, um número superior ao número de mortos na Batalha de Trafalgar137.

Tal como Théophile Aube foi influenciado por Sébastien Le Prestre, Marquês de Vauban (1633-1707), quanto às vantagens económicas e militares em converter o objectivo naval de domínio do mar, para um objectivo de guerra ao comércio marítimo, Alfred Mahan (1840-1914) foi influenciado por Antoine-Henri, Barão Jomini138 (1779-1869).

O pensamento do Barão Jomini, como o do prussiano Carl Clausewitz (1870- 1831), foram inspirados nos acontecimentos das Guerras Napoleónicas (1803-1815). O Barão Jomini apresentou uma análise da guerra em termos geométricos e introduziu termos ainda hoje utilizados como linhas estratégicas e pontos chave. A sua teoria de combate era simples e baseada na concentração de forças em momentos decisivos, dando ênfase às linhas de comunicação na retaguarda, e ainda abordou questões práticas sobre logística e da marinha de guerra.

Via a guerra como uma arte e não como uma ciência, porque compreendeu a

136 Nicholas A. Lambert, Planning Armageddon: British Economic Warfare and the First World War, UK London, Harvard University Press, 2012, p.3.

137 Julian S. Corbett, Principles of Maritime Strategy, Vol. 1,UK London, Longmans 1921, p.182. 138Antoine-Henri, Barão Jomini (1779-1869) foi um oficial suíço que serviu no exército francês de Napoleão e mais tarde no exército da Rússia. As suas ideias foram seguidas na Academia Militar de West Point, nos Estados Unidos da América, com grande influência durante a Guerra Civil Americana (1861-1865). O seu grande trabalho sobre teoria militar teve uma enorme divulgação através da Europa. Depois de retirado da vida militar regressou ao activo na Rússia como General, tendo sido professor na academia militar russa em São Petersburgo. Em 1828 teve parte activa como oficial de estado-maior na Guerra Russo-Turca (1828-1829) e mais tarde como consultor do Czar Nicolau I na Guerra da Crimeia (1853-1856).

89 influência do factor humano e como tal considerava que deviam ser utilizados os meios humanos mínimos para manter o menor número de baixas possíveis. Este ensinamentos de Jomini foram ensinados por Dennis Mahan, pai de Alfred Mahan, na Academia Militar Americana de West Point, antes da Guerra Civil Americana, o que influenciou a geração de oficiais da união e confederação, e em particular Alfred Mahan. Será o princípio estratégico de concentração de forças de Jomini139, que levará Alfred Mahan a defender o princípio de comando do mar numa guerra, em especial curta e geograficamente restrita, entre a Grã-Bretanha e a França onde o factor decisivo seria choque naval e a guerra ao comércio marítimo se manteria num plano secundário.

Alfred Mahan conceptualizava a acção da marinha de guerra como um instrumento político, no sentido de poder naval como uma continuação da diplomacia, e que este podia privilegiar o acesso a mercados estrangeiros, ou ser impulsionador do comércio marítimo140. A estratégia de Alfred Mahan passava pela concentração de couraçados para formar uma esquadra de combate, considerando a existência das restantes categorias de navios como secundárias. A partir da concentração desses meios preconizava a destruição do inimigo num confronto definitivo. Já quanto ao bloqueio próximo considerava-o como uma manobra para obrigar a esquadra inimiga a sair do porto e a dar combate, e não como uma forma de guerra ao comércio marítimo. O objectivo da sua doutrina seria sempre a de travar combate com a força naval inimiga e não de atacar a marinha comercial inimiga.

As suas ideias foram expressas nos livros The Influence of Sea Power upon History, 1660–1783, publicado em 1890, e The Influence of Sea Power upon the French Revolution and Empire, 1793–1812, publicado em 1892, não só influenciaram a corrida naval de 1898 a 1914, entre a Grã-Bretanha e a Alemanha, mas também e

139 Antoine Henry Jomini, The Art of War, UK Londres, Greenhill Books, 1992, p.70.

140 Cf. O Contra-Almirante António Silva Ribeiro, O artigo serviu de base à apresentação efectuada, sobre o mesmo tema, no XI Simpósio de História Marítima, realizado em 28 de Novembro de 2009, na Academia de Marinha.

90 em muito o desenvolvimento naval dos Estados Unidos da América141 e do Japão. A este autor sobre estratégia naval é relevante adicionar o autor britânico Julian Corbett142 (1854-1922), que publicou o livro, Some Principles of Maritime Strategy, em 1911, que ainda é uma leitura obrigatória para os interessados em história naval.

A grande diferença de pensamento estratégico naval entre Julian Corbett e Alfred Mahan encontra-se na ênfase que dão à importância do combate naval, sendo que Julian Corbett dá uma maior importância à interligação da guerra no mar e na terra, ou seja, uma maior importância à defesa das vias de comunicação, enquanto Alfred Mahan dá uma maior importância a grandes batalhas decisivas. Para Julian Corbett a batalha naval não era um fim em si próprio, mas um objectivo para defender as vias de comunicação, afastar o inimigo do caminho, e não uma procura sistemática da destruição das esquadras inimigas como em Alfred Mahan.

Tabela 6 - Comparação de doutrinas navais

Barão Jomini Alfred Mahan Julian Corbett Marquês Vauban Barão Grivel Théophile Aube França X X X Rússia X América X Grã-Bretanha X Pré Paris 1856 X X Pós Paris 1856 X X X X Guerra de Corso X Combate Decisivo X X X

141Para o desenvolvimento da marinha de guerra americana terá contribuído o Presidente Theodore Roosevelt (1901-1909), que mesmo antes de chegar à presidência e, ainda, como Secretário da Marinha (1897-1898) seguiu a doutrina de Alfred Mahan no planeamento de construção naval. Já como presidente deu início à construção de uma marinha de guerra potente e tecnologicamente avançada que colocou os Estados Unidos da América entre as grandes potências navais. Exemplo de demonstração de poder naval foi viagem à volta do mundo que uma esquadra americana executou (white fleet) entre 1908-1909, como demonstração do seu poder perante outras nações.

142Julian Stafford Corbett (1854–1922). Historiador naval britânico, professor no Royal Naval War College.

91

Combate de Atrição X

Guerra ao Comércio X X

Ataque Costeiro X X

Bloqueio Naval X X

Defesa das Vias

Comunicações X

Apoio Terrestre X

A teoria de Julian Corbett compreendia vários níveis de comando do mar, desde geral a local e desde permanente a temporário, sendo que defendia a destruição física de unidades mercantes e militares inimigas, e a utilização de bloqueios navais, no interesse da manutenção das vias de comunicação abertas ao comércio. Será sim uma nova introdução doutrinaria a introdução da ideia de operações conjuntas entre exército e marinha, como forma de maximizar o poder de combate britânico, como reconheceu no exemplo histórico das operações conjuntas de Wellington com a Royal Navy na Península Ibérica, durante a Guerra Peninsular (1807-1814). As teorias navais de Julian Corbett são ainda hoje estudadas e os conceitos permanecessem com alguma actualidade para o debate sobre o comando do mar e as capacidades navais geoestratégicas.