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3 A CRIANÇA COM CEGUEIRA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: O CONTEXTO E A COSNTRUÇÃO DA IDENTIDADE E AUTONOMIA

3.3 CONTEXTO: BRONFENBRENNER E A TEORIA BIOECOLÓGICA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO

3.3.2 A escola como um microcontexto de desenvolvimento

A escola de Educação Infantil é considerada um importante contexto para o desenvolvimento global das crianças e um espaço de socialização privilegiado, pois “propiciam o contato e o confronto com adultos e crianças de várias origens socioculturais, de diferentes religiões, etnias, costumes, hábitos e valores, fazendo dessa diversidade um campo privilegiado da experiência educativa” (BRASIL, 1988, p. 11). Nesse espaço, podem-se oferecer situações pedagógicas intencionais que visam possibilitar condições para a aprendizagem e o desenvolvimento da criança.

Então, as creches e pré-escolas são imprescindíveis para a construção da autonomia e de valores sociais, o aprendizado do convívio com as diferentes culturas, identidades e singularidades, sendo fundamental ressaltar que esses aprendizados ocorrerão mediante as interações e a brincadeira.

Tanto as interações quanto o brincar propiciam a criança o desenvolvimento das suas capacidades: cognitiva, motora, afetiva, ética, estética, de relação interpessoal e de inserção social. Ao brincar, seja de forma espontânea ou dirigida pelo adulto, a criança passa a

conhecer seu próprio corpo, o espaço físico e social, além de identificar as pessoas com as quais convive e assim possa conquistar sua autonomia e construir sua identidade. (KISHIMOTO, 2010).

A partir da brincadeira que ela poderá aprender conceitos, regras, normas, valores. Terá oportunidade de aprender conteúdos conceituais, atitudinais e procedimentais nas mais diversas áreas do conhecimento, pois serão proporcionados estímulos para o desenvolvimento das linguagens oral, escrita, musical, plástica e matemática.

Essas experiências são fundamentais para qualquer criança. Para as crianças com deficiência visual, o espaço escolar é de extrema importância, pois muitas “podem chegar à escola com pouca ação funcional, com medo ou dificuldade para deslocar-se no espaço, correr nas brincadeiras e jogos corporais” (BRUNO, 2006, p. 36). Segundo a autora, isso ocorre em função da superproteção das famílias que temem que a criança se machuque.

Além disso, a inclusão escolar das crianças com deficiência visual desde a Educação Infantil tem um papel fundamental na construção de suas identidades, valorizando o reconhecimento das diferenças individuais visando à superação do preconceito e dos estigmas sobre esses sujeitos. Portanto, as análises feitas pelo presente estudo fundamentam-se na concepção de que “[...] a identidade individual plena só se dá no reconhecimento da pessoa como membro de um grupo maior, inclusivo.” (LOPES, 1996, p. 128).

De acordo com Brandão (1986), as crianças com deficiência precisam vivenciar a escola comum, afinal o ser humano somente poderá se reconhecer como sujeito único na relação com os outros, diferentes dele. Tal afirmação é reforçada por Bruno (2006) ao constatar que a criança precisa do outro para tomar consciência de si. São nas relações e interações estabelecidas entre as pessoas de sua família, com os profissionais de Educação, colegas na escola, enfim, com os diversos contextos em que está circunscrita que a criança desenvolve suas potencialidades e se estrutura como pessoa.

Contudo, a maneira como é tratada a questão da diversidade nas instituições de Educação Infantil pode favorecer a valorização nas crianças de suas características étnicas, físicas, intelectuais e culturais, ou pelo contrário, ampliar a discriminação e os estereótipos. De acordo com o RCNEI (BRASIL, 1988, p. 13):

[...] o modo como os traços particulares de cada criança são recebidos pelo professor, e pelo grupo em que se insere tem um grande impacto na formação de sua personalidade e de sua auto-estima, já que sua identidade está em construção.

Ainda segundo o referido documento, a aceitação das diferenças individuais pelo grupo é positiva, uma vez que estarão aprendendo a complexidade e diversidade que constituem o ser humano e a própria sociedade.

Para Vigotski (1994), é por meio das interações sociais e da sua inserção na cultura que o sujeito toma consciência de si mesmo e, assim, conseguirá compreender a posição que ocupa nas diversas relações que estabelece. Apesar de ser no seio familiar que a criança aprende seus primeiros modelos de como agir com os outros, de como ser independente, e nesse processo ir construindo o seu “eu”, é papel da escola também oferecer oportunidades para as crianças conviverem umas com as outras, firmarem suas identidades e conquistarem aos poucos sua autonomia.

Autores como Amiralian (2004), Brandão (1986) e Bruno (2006) destacam que a construção da identidade de qualquer criança, inclusive daquelas com deficiência visual, depende da qualidade da relação, interação, da possibilidade de conviver, de trocar experiências com o grupo. Nesse contexto, a escola se apresenta como um espaço privilegiado de construção de conhecimentos, em que as práticas sociais precisam ser ressignificadas e reconstruídas com vistas a acolher todas as crianças, todavia “a condição de deficiência passa a ser a única pela qual a pessoa passa a ser reconhecida e da qual se apropria” (AMIRALIAN, 2004, p. 26). Portanto, cabe ao professor conduzir sua prática pedagógica de modo a valorizar a diversidade e o respeito às diferenças.

3.3.2.1 A escola e o sentimento de pertença

A Educação Infantil deve reconhecer as particularidades individuais e fortalecer o sentimento de pertencimento da criança ao grupo, tais ações contribuem para a aceitação de si mesmo e do outro. “O sentimento de pertença nos permite identificar qual é o nosso grupo e saber quem são aqueles que podem compreender as nossas dificuldades e alegrias.” (AMIRALIAN, 2004, p.26).

Pertencer significa, a priori, ser reconhecido e aceito, assim um dos grandes desafios que surge com a inclusão é a mudança atitudinal, pois ficam evidentes as dificuldades da sociedade, da comunidade escolar em assumir formas de acolher a diversidade e lidar com a diferença significativa de cada criança.

É através do sentimento de pertencimento que as crianças podem legitimar suas identidades em seus diferentes contextos de convivência, principalmente na escola. Para Castro (2011, sp), “pertencer significa partilhar características, vivências e experiências com outros membros das comunidades de pertencimento, desenvolvendo sentimento de pertença.” Portanto, quando a criança é identificada como parte integrante de um grupo específico, seja de parentesco, escolar entre outros, ela passa a ser reconhecida como pertencente àquela cultura.

A identidade individual e do grupo é construída nas relações sociais, em um processo de identificação, diferenciação, ou seja, no reconhecimento das diferenças e semelhanças de cada sujeito envolvido. Considera-se, então, que a escola deve “desempenhar o papel de firmar e estimular o que nos une e de diminuir o que nos distancia ou nos afasta.” (SACRISTÁN, 2002, p. 110). Nessa perspectiva, é fundamental que a Instituição de Educação Infantil proporcione um ambiente acolhedor para que cada criança reconheça sua importância, o seu papel, de modo a valorizar sua característica identitária como também possa perceber o que a torna singular no seu grupo.