A Escola Militar da Praia Vermelha, a qual na época era chamada de
"Tabernáculo da Ciência", onde atuava Benjamin Constant, ancorava seus ensinamentos no Positivismo. Nesse lugar as ideias positivistas floresceram no final do período imperial.
A passagem abaixo ilustra a popularidade de Benjamin Constant, entre os estudantes, também chamados de "jovens científicos" dentre os militares:
No final de maio de 1888, Benjamin fora promovido a tenente-coronel após, permanecer quase treze anos como major. Nos dias de aula, costumava ir à paisana para a Escola Militar, trocando de roupa e vestindo o uniforme militar na casa do porteiro, antes de entrar no edifício. No dia 8 de junho, ao trocar-se, descobriu que os alunos haviam substituído as divisas de major pelas de tenente-coronel e trocado seu boné por um novo. Ao seguir para a Escola, nova surpresa o aguardava. Desde o portão de entrada até a sala de aula, Benjamin teve de passar por entre fileiras de alunos que lhe jogavam pétalas de rosas. A sala de aula estava completamente lotada, e os alunos deram três rodadas de vivas e palmas acompanhadas de manifestações de apreço. Muito surpreso, Benjamin Constant agradeceu, profundamente emocionado, a manifestação. Ao sair da sala, foi abraçado por todos os alunos, num raro gesto de intimidade entre os ocupantes de posições hierárquicas tão desiguais.
As homenagens ainda não haviam acabado. Ao deixar a Escola, acompanhado por todos os alunos, entre vivas e palmas, Benjamin teve que tomar o escaler privativo do comandante, que os próprios alunos haviam solicitado e que fizeram questão de tripular na viagem até a praia de Botafogo. Como coroamento das homenagens dos alunos por sua promoção, Benjamin Constant ainda recebeu de presente, poucos dias mais tarde, um exemplar, ricamente encadernado, da Synthése Subjetive de Comte, encerrado num estojo com a inscrição do lema positivista em letras douradas: "O Amor por princípio, a Ordem por base, o Progresso por fim" (CASTRO, 2000, p.43-44).
Esse cenário estava no horizonte de Honorio Decio da Costa Lobo, mas é Nilo Cairo, seu sobrinho, que nele ingressará.
Temos registro da matrícula de Nilo Cairo na Escola Militar do Rio Grande do Sul. Em 06 de janeiro de 1892 é publicada em Diário Oficial da União sua transferência para a Escola Militar do Rio de Janeiro (DIARIO OFFICIAL, 06.01.1892, p.3).
Nilo Cairo não tinha vocação para a vida militar, embora tenha sido um bom aluno. Simultaneamente cursou a Faculdade de Medicina. Não encontramos fotos de Nilo Cairo trajando uniforme militar, além de só fazer referências à vida militar em sua produção bibliográfica, quando cita a Escola Militar como a origem de seu pensamento e de sua formação positivista.
Ora, se tomarmos a premissa acima de que Nilo Cairo não tinha vocação militar, o que justificaria seu esforço para graduar-se na Escola Militar?
Sodré (2010, p.214-215) nos oferece uma resposta. Em História Militar do Brasil, comenta que desde o império a Escola Militar "era o acolhimento único dos elementos sociais menos favorecidos que pretendiam ascender". Se no tempo do império o militar era pouco valorizado, após a Guerra do Paraguai e a Proclamação da República o exército passou a "personagem" importante da política brasileira.
A Escola Militar era gratuita e para ela afluíam pessoas que não tinham condições de custear os estudos na Escola Politécnica.
Podemos afirmar que Nilo Cairo sentia, como todos os jovens que buscavam a Escola Militar da Praia Vermelha, uma "necessidade imperiosa de estudar, de adquirir uma soma ampla de conhecimentos, de estabelecer as fundações de uma cultura de nível superior" (SODRÉ, 2010, p.215).
Porém, Sodré (2010, p.215) lembra que a Escola Militar não era exclusivamente procurada por aqueles sem recursos econômicos, reconhecendo a existência de grande número de alunos provenientes de famílias com recursos, mas enfatiza que
"sempre houve número, maior do que se pode talvez supor, que abraçavam a vida
militar por ser a forma mais prática e mais eficaz de satisfazer a necessidade íntima de estudar e aprender, de desenvolver e aparelhar a inteligência". O autor ainda cita o depoimento de um ex-aluno da escola:
A Escola Militar era o caminho aberto diante de mim para continuar a estudar, fazer um curso superior e, incidentemente, entrar numa carreira que, embora não me seduzisse, me asseguraria estabilidade na existência. Nos primeiros dias de 1903 assentei praça e matriculei-me (SODRÉ, 2010, p.215).
Nilo Cairo, premido pelas circunstâncias, passou pela vida militar, na qual se tornou engenheiro militar e bacharel em matemática e ciências físicas, para chegar à medicina.
Jurandyr Manfredini, em discurso de 1930, o qual será discutido mais adiante, cita "o patologista, o médico, o professor, o engenheiro, o agricultor, o zootécnico", dedicando boa parte de seu discurso ao professor, ao médico e ao filósofo, mas não enfatiza o militar (MANFREDINI, 1974).
Tomemos então a formação militar de Nilo Cairo como porta de entrada ao positivismo, como estratégia econômica para a realização do curso de Medicina. Sua permanência no exército será de 1892 a 1911, quando é reformado, provavelmente pelas sequelas de um acidente de que fora vítima, durante exercícios militares.
Apesar de se atribuir pouca ênfase à sua vida militar, não podemos desprezar a influência da sua formação e carreira militar na concepção de sociedade e luta pela instalação da Universidade do Paraná.
Encontramos registros referentes ao período de 1892 a 1893 de sua aprovação nos exames em disciplinas como Noções Concretas de Ciências, História Geral, História do Brasil, Álgebra, Geometria (DIARIO OFFICIAL, 18.12.1892, p.6;
17.11.1893, p.5; 18.01.1893, p.7; 19.01.1893, p.8).
Em 1894, inicia, na Escola Militar, formação superior, no "curso geral".
Nesse ano foi comissionado no posto de 2.o tenente de artilharia (DIARIO OFFICIAL, 16.08.1894, p.2).
Quando 2.o tenente de artilharia, Nilo Cairo esteve embarcado, a serviço da Marinha, durante a Revolta da Armada. Em 1894, Nilo Cairo teria "desembarcado" e se apresentado à Repartição de Ajudante-General do Ministério dos Negócios da Guerra. A participação de Nilo Cairo, oficial do exército, em navios da marinha mostra
a colaboração entre as duas armas, no período em que se deu a chamada Revolta da Armada (DIARIO OFFICIAL, 02.09.1894, p.11).
No "3.o ano do curso geral da Escola Militar da Capital Federal" Nilo é aprovado nos exames das cadeiras de Física, Noções de Metereologia e Química (DIARIO OFFICIAL, 09.01.1897).
Em 1898, conclui o 4.o ano do "curso geral" sendo aprovado nas cadeiras de Biologia e Sociologia (DIARIO OFFICIAL, 06.01.1898, p.10)
Os anos seguintes serão, ainda, mais intensos, pois se encaminhará, na Escola Militar, para o "curso especial" e integrará o quadro de alunos da Faculdade de Medicina e de Farmácia do Rio Janeiro.
Assim, em 1899, no Externato do Ginásio Nacional, inicia os Exames Gerais de Preparatórios, que o levam, no final do ano, a iniciar a sua formação médica (DIARIO OFFICIAL, 27.01.1899, p.13; 28.01.1899, p.13; 16.12.1899, p.10;
31.12.1899, p.9; 10.01.1900, p.10; 11.01.1900, p.11).
Termina a 1.a série médica em 11 de janeiro de 1900 (DIARIO OFFICIAL, 13.01.1900, p.9).
Sucedem-se, em 1900, os exames de Anatomia e Histologia referentes à 2.a série médica (DIARIO OFFICIAL, 11.02.1900, p.7; 13.02.1900, p.13; 15.02.1900, p.11; 16.02.1900, p.13).
No mesmo mês de fevereiro de 1900, Nilo Cairo está recebendo as notas de seus exames na Academia Militar. O diário oficial, sob o cabeçalho de Escola Militar do Brasil, apresenta os resultados dos exames finais prestados pelos alunos do
"1.o ano do curso especial", relativamente ao ano de 1899 nas cadeiras de Geodesia;
Preparação para o Exercício da Guerra no que concerne à missão do Estado-Maior;
Mineralogia, Geologia e Botânica; Teoria e Desenho de Cartas Geográficas. O aluno foi aprovado em todas as cadeiras citadas (DIARIO OFFICIAL, 15.02.1900, p.13).
Ao final do ano de 1900, Nilo Cairo, na Faculdade de Medicina e de Farmácia do Rio de Janeiro, se submete aos exames práticos da 3.a série médica nas cadeiras de Fisiologia, Anatomia Patológica, Fisiologia Patológica e Patologia Geral, sendo aprovado em todas (DIARIO OFFICIAL, 23.11.1900, p.10; 24.11.1900, p.10;
29.11.1900, p.10; 12.02.1900; 06.12.1900, p.19; 08.12.1900, p.10; 20.12.1900, p.7;
21.12.1900, p.11; 22.12.1900, p.7).
Na Escola Militar do Brasil (Academia Militar), já nos exames finais do 2.o ano do curso especial, relativamente ao período de 1900, é aprovado nas cadeiras que tratam de Resistência dos Materiais, Estabilidade das Construções, Grafística, Mecânica Aplicada às Máquinas, Hidráulica, Pontes, Estradas, principalmente em relação à arte da guerra, Administração Militar, Arquitetura, Desenho, e Estereotomia (DIARIO OFFICIAL, 19.02.1901, p.6).
O Diário Oficial nos primeiros dias de 1902 registra a transferência de Nilo Cairo, então 2.o tenente, do 1.o batalhão de engenharia para o 5.o regimento de artilharia, "atento o seu estado de saúde" (DIARIO OFFICIAL, 04.01.1902).
Em 31 de outubro de 1903, Nilo Cairo entrega a Brito Silva, subsecretário da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, a tese Similia Similibus Curantur, a qual não foi aprovada, sendo seguida de outra, em 1904, intitulada O Pé Equino, desta vez aprovada. Ainda em 1903 publica, nos Anais de Medicina Homeopática do Instituto Hahnemanniano do Brasil, o artigo Positivismo e Homeopatia.
Todo o exposto sugere que Nilo Cairo da Silva cursa a Academia Militar e, por não se contentar com o curso geral, busca o curso especial que lhe dará a habilitação como "bacharel em matemática e ciências físicas e engenheiro militar", a qual ostentará sempre que assina a autoria de seus livros. Ademais, encontra energia para concluir a Faculdade de Medicina.
Está construído o militar positivista e o médico, fiel às suas origens e capaz, agora, de traçar uma trajetória que nos próximos anos será de intensa atividade na homeopatia. Logo parte para Curitiba, onde se envolverá intensamente com a fundação da Universidade do Paraná. As suas origens e esses anos iniciais de formação serão determinantes nas suas escolhas.
Eu chego ao fim desse calvário intelectual curvado ao peso de uma imensa cruz talhada nos mais acerbos desenganos e com a fronte cingida, não já de espinhos, o que seria muito menos doloroso, porém das mais amargas e cruéis decepções (CAIRO, 1903, p.5).
São expressões que tiradas do contexto em que foram escritas, bem poderiam mostrar uma peregrinação com muito sofrimento. A frustração dramatizada por Nilo Cairo refere-se, porém, ao que encontrou na Faculdade de Medicina. Uma vez formado pela Academia Militar, desejava ter encontrado também na Faculdade a ciência positiva, mas afirma que encontrou a "ausência completa de doutrinas
científicas" e "ausência de princípios na aplicação" da arte da medicina31 (CAIRO, 1903, p.5).