4 FUNDAMENTOS E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
4.2 CAMPOS DE INVESTIGAÇÃO E SUJEITOS DA PESQUISA
4.2.2 Processo de seleção dos professores sujeitos da pesquisa
4.2.2.1 A escolha da professora da prefeitura do Recife
O primeiro sujeito que selecionamos para a nossa pesquisa foi uma professora da prefeitura do Recife. Neste subitem, apontamos, com base na conversa inicial que tivemos com ela, as razões que nos levaram a escolhê-la. Procuramos, para tanto, seguir os tópicos enumerados no roteiro do Apêndice A, já comentado anteriormente. Não discorremos detalhadamente sobre as respostas que foram dadas a cada questão, mas apenas destacamos aquelas que foram decisivas para a nossa escolha.
No que diz respeito à descrição geral da prática, a professora afirmou enfocar nos gêneros textuais, especialmente em questões relacionadas à estrutura e à funcionalidade. Explicou que planeja a prática em torno de sequências didáticas que contemplem os três eixos de ensino (leitura, análise linguística e produção de texto, geralmente nessa ordem). Para a escolha dos conteúdos a serem trabalhados, ela leva em consideração a Política de Ensino da Rede Municipal do Recife14, mas não segue a grade curricular proposta à risca. A professora afirmou que suas sequências didáticas partem quase sempre da leitura de um ou mais textos, seguida da discussão
13
A Prova Brasil é uma avaliação de larga escala direcionada a alunos concluintes do primeiro e segundo segmentos do ensino fundamental, realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC). As provas avaliam o desempenho dos estudantes em língua portuguesa e matemática, com foco respectivamente em leitura e resolução de problemas. Informações sobre a Prova Brasil podem ser encontradas no portal digital do MEC: <http://portal.mec.gov.br/prova-brasil>.
14 A Política de Ensino da Rede Municipal do Recife é o documento curricular que regula as escolas de ensino
fundamental (primeiro a nono ano) da prefeitura do Recife. Foi publicado em 2015 e elaborado com a colaboração de professores da rede. Pode ser encontrado na íntegra no portal online da Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Educadores do Recife Professor Paulo Freire: <http://www.recife.pe.gov.br/efaerpaulofreire>.
oral acerca de questões que considere relevantes para a interpretação dos textos: inicia pela temática e questões mais globais e segue para aspectos pontuais, dentre eles recursos linguísticos empregados pelo(s) autor(es) na escrita dos textos. Após essa primeira etapa, prossegue para o momento que chamou de “sistematização linguística”, e, por fim, propõe a produção de um texto do gênero que tenha sido trabalhado ao longo da sequência e sua reescrita após uma primeira avaliação.
O livro adotado pela escola em que a professora trabalha é “Português: Linguagens”, de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães (Atual Editora). Segundo a professora, o livro didático não guia o seu planejamento nem a sua prática, embora ela o considere um apoio pedagógico. Ela costuma utilizar mais constantemente os textos contidos no livro (dada a impossibilidade de reproduzir cópias de outros textos para os alunos com alguma frequência) e as atividades de leitura. Quanto ao eixo dos conhecimentos linguísticos, a professora considera que o livro transita entre uma abordagem mais tradicional da gramática e a perspectiva da análise linguística voltada para a produção de sentidos em textos. Ressalta como ponto positivo o fato de o livro não trazer os conceitos prontos para o aluno, mas propor questões que o levem à sua construção. Considera um bom livro, e, embora não tenha participado da escolha do material na escola onde acompanhamos sua prática (era o seu primeiro ano naquela instituição), escolheu o mesmo livro na outra escola da prefeitura do Recife em que trabalhava até o ano anterior.
Ao ser questionada sobre sua prática quanto ao eixo da análise linguística, a professora, além de relatar um pouco de sua atividade docente, demonstrou conhecimentos acerca das discussões acadêmicas no campo do ensino de língua materna. De imediato, fez uma crítica a uma situação que considera um equívoco comum no que se refere à análise linguística: quando a chamada “gramática contextualizada” esconde o uso do texto como pretexto para o ensino de gramática tradicional. Afirmou que “a gramática está para o texto, assim como o texto está para a gramática” e que, para o eixo da análise linguística, ela tem o objetivo de levar o aluno a “compreender os mecanismos, os recursos linguísticos utilizados num texto”, mas que também recorre a conceitos gramaticais e práticas de ensino tradicionais quando considera que se trata de noções relevantes para a aprendizagem do aluno. Deixou claro, ainda, que não prioriza o domínio da nomenclatura gramatical ao avaliar o desempenho da turma, apesar de não negar-lhe esse conhecimento.
Diante da aparente preocupação da professora em articular análise linguística e leitura, pedimos que ela nos trouxesse um exemplo concreto de sua prática. Ela, então, nos relatou um trabalho que havia realizado com uma turma de nono ano na escola municipal em que tinha atuado anteriormente sobre os processos de adjetivação no gênero crônica. Após a leitura coletiva e a interpretação oral, a professora localizou junto aos alunos os adjetivos e locuções adjetivas presentes no texto e propôs que fosse feita uma nova leitura, agora descartando essas palavras e expressões. Em seguida, ela solicitou que os alunos comparassem as duas leituras realizadas e procurou refletir com a turma sobre os efeitos de sentido que os adjetivos provocavam no texto. Depois, apresentou outras crônicas à turma a fim de que os alunos as analisassem conforme as reflexões que haviam feito em relação ao primeiro texto. E, por fim, fez um trabalho de sistematização de conhecimentos sobre os adjetivos. Acreditamos que o trabalho descrito pela professora atendia plenamente aos propósitos da pesquisa e que nos traria dados para uma análise produtiva acerca de nosso objeto de investigação.
Quanto ao último tópico de nosso roteiro (Apêndice A), percebemos que se tratava de uma professora com vasta experiência profissional, uma vez que atuava como docente da escola básica há mais de vinte anos e já havia trabalhado tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio, em escolas públicas (do estado de Pernambuco e da prefeitura do Recife) e privadas. Em relação à formação acadêmica, a professora, além da graduação em letras, havia cursado especialização e mestrado – ambos na área de linguística – e demonstrava bastante interesse pela produção acadêmica sobre ensino de língua. Afirmou que tinha o hábito de comprar e ler livros da área e que tinha planos de fazer doutorado em educação. Fez referência a alguns estudiosos do ensino de língua materna – sobretudo a Irandé Antunes – com quem teve contato em encontros de formação continuada promovidos por uma escola privada onde trabalhou durante vinte e cinco anos.
Na escola em que realizamos as observações, a professora trabalhava com turmas de sexto, sétimo e oitavo ano. Como afirmamos anteriormente, não tínhamos considerado necessário restringir as séries das turmas nas quais realizaríamos a pesquisa, mas nosso intuito era o de acompanhar duas turmas da mesma série. Assim, como o professor da prefeitura de Jaboatão dos Guararapes trabalhava apenas com turmas do sétimo ano, optamos por acompanhar a prática da professora da prefeitura do Recife também no sétimo ano. Eram duas as turmas dessa série em que a professora atuava. Ela sugeriu que a pesquisa fosse realizada com o grupo de melhor
desempenho, porque, no outro, havia muitos alunos com dificuldades relacionadas à consolidação da alfabetização – o que fazia com que seu trabalho fosse bastante diferenciado nesta turma.