3 AMBIENTES VIRTUAIS DE APRENDIZAGEM E ESCRITA

3.4 A escrita: discussões preliminares

3.4.2 A escrita em uma concepção reflexiva Vygotskiana

A teoria Vygotskiana trabalha o aprendizado da linguagem levando em conta os contextos socioculturais para o desenvolvimento pleno do ser humano. Desse ponto de vista, a linguagem não apenas possibilita a comunicação humana, mas também permite a construção de um diálogo interno, o qual leva a uma abstração reflexiva.

Pensamento e linguagem é tema recorrente nessa teoria, principalmente pelo fato de o homem passar a ser visto como ser humano social, histórico e cultural que utiliza a linguagem como mediadora de suas relações. O homem, sujeito social entrelaçado na história, se constitui na relação com o outro, sendo “a cultura o meio de existência através do qual se constitui a natureza humana em toda a sua variedade” (FREITAS, 2005, p. 301).

De acordo com Vygotsky (2000), as raízes genéticas do pensamento e da fala têm origem diferente. A criança passa pelo estágio pré-linguístico do pensamento e pré- intelectual da fala, no primeiro momento, como se fossem duas linhas distintas. Posteriormente, mais ou menos aos dois anos de idade, as linhas se cruzam e criam uma conexão para iniciar uma nova forma de comportamento muito característico do homem. É o momento em que a fala ascende à intelectualidade, e o pensamento se torna verbal. Começa haver um processo de interdependência entre linguagem e pensamento, o qual se complexifica com o desenvolvimento do ser humano que passa a ter seu pensamento mediado pela linguagem.

O pensamento verbal, composto pelo pensamento e pela palavra, deve ser compreendido através do significado das palavras. Tal significado é um fenômeno da fala e do pensamento. O significado de cada palavra é uma generalização e um conceito no pensamento, e uma palavra sem significado é apenas um som vazio. Daí se dizer que a palavra mantém a relação dialética entre pensamento e linguagem (VYGOTSKY, 2007b).

Vygotsky (2007b), ao se referir ao processo de internalização da linguagem, integra o pensamento verbal constituído no engendramento semiótico da consciência e compreensível pela união de seus dois componentes: pensamento e palavra. Segundo ele, a linguagem não se limita a externar o pensamento, já que é por meio dela que ele acede à existência.

O significado da palavra não é imutável, ele evolui, uma vez que na evolução histórica da linguagem, a própria estrutura do significado se transforma também. “Os

significados das palavras passam a ser formações dinâmicas e não já estáticas, transformam-se à medida que as crianças se desenvolvem e alteram-se também com as várias formas como o pensamento funciona” (VYGOTSKY, 2007b, p. 126). Ainda que conserve a mesma referência objetal, a palavra adquire novas estruturas semânticas.

Freitas (2005) diz que a linguagem verbal, inicialmente, aparece na criança como um instrumento de comunicação e de interação; posteriormente, transforma-se em instrumento de organização psíquica interior. Vygotsky (2000) diferencia quatro tipos de linguagem: a egocêntrica, a interior, a falada e a escrita.

A linguagem egocêntrica inicia na criança lá pelos seus três anos. É a fala para si a serviço da orientação mental, ajudando-a a superar dificuldades. Essa fala vai se tornando progressivamente concisa com o tempo. Isso indica seu processo de evolução e transformação na linguagem interior.

A linguagem interior possui as mesmas funções da linguagem egocêntrica. Não se destina a comunicação com o outro por ser uma linguagem para si, mas não mais necessita de vocalização, já que pode ser realizada apenas com as palavras pensadas. É a tradução do pensamento em palavras, ou seja, é a interiorização da palavra em pensamento.

A linguagem falada é direcionada para o outro que se faz presente, realizada de modo imediato por meio de sons entonados e enriquecida por elementos extralinguísticos. Esses elementos facilitam a abreviação da linguagem falada.

A linguagem escrita, diferente das outras linguagens por sua estrutura e funcionamento, é desprovida de som, da presença de seu interlocutor e, por conseguinte, de elementos extralinguísticos, como comportamento, gestos e mímica72. Fatores estes que influenciam para a construção de texto em que a própria linguagem tem que suprir essas faltas.

O contato da criança com a escrita “começa muito antes da primeira vez que o professor coloca um lápis em sua mão e mostra como formar letras” (VYGOTSKY et al., 2010, p. 143). A criança já apresenta “técnicas primitivas com funções semelhantes às da escrita73 que, na verdade, irão se perder na escola, onde terá acesso a ‘sistemas de

                                                                                                                         

72 De acordo com Matencio (2007, p. 42), “[s]e na modalidade oral há a presença dos fatores constituintes

do contexto interacional, na escrita, a ausência do interlocutor e de elementos extralinguísticos implica na reconstrução do contexto interativo, tanto na produção de textos como na leitura: há uma imagem de interlocutor que se constrói aí”.

73 Na concepção Vygotskiana, a linguagem escrita passa por diferentes momentos. O gesto é o primeiro

signo visual que contém a futura escrita da criança. As brincadeiras de faz-de-conta em que alguns objetos podem denotar outros, por exemplo, uma vassoura se transforma em um cavalo, possibilita

signos padronizados e econômicos’, culturalmente elaborados” (MATENCIO, 2007, p. 36). A importância de se valorizar na escola esse conhecimento trazido pela criança reside no (re)conhecimento do estágio em que ela se encontra para, só então, partir de suas necessidades reais em um processo significativo.

Na produção do discurso escrito, por faltarem os apoios situacionais (não verbais e fonético-verbais), recorre-se a recursos exclusivos das palavras e de suas combinações. Daí o emprego de rascunhos. Para Vygotsky (2007b, p. 143), “a evolução dos rascunhos para a versão final reproduz o nosso processo mental”. Quando se fala a si próprio o que se vai escrever ou dizer, também se está fazendo uso de rascunho, ainda “que em pensamento. Esse rascunho é denominado de linguagem interior e tal linguagem é uma função individual e autônoma de reflexão pela qual passa a linguagem escrita para ser melhor desenvolvida.

Ao escrever, os alunos utilizam a linguagem escrita que, segundo Vygotsky (2007b), é um instrumento que possibilita transformar o pensamento em processo consciente concreto em um determinado suporte. Visto dessa maneira, o contato com o texto escrito, resultado desse discurso interior, pode levar o interlocutor a um maior entendimento da mensagem e do pensamento do produtor.

O autor do texto é o primeiro leitor e deve estar atento aos efeitos conseguidos diante dos recursos expressivos historicamente construídos na língua74. Isso, no entanto, só é possível se o autor utilizar a escrita de modo reflexivo, associando-a diretamente aos procedimentos metacognitivos, os quais se referem ao controle da dedução cognitiva, ou seja, vinculam-se às ações deliberadas do aluno sobre suas próprias ações intelectuais. A metacognição é o que Vygotsky denomina de autorregulação. Exemplos de estratégias metacognitivas são o aluno centrar em sua aprendizagem, organizar e planejar todo o processo, monitorar o seu progresso e avaliá-lo (OXFORD, 1990).

Nesse caso, penso que as estratégias metacognitivas orientam o uso de outras estratégias com o objetivo de melhor desenvolver a atividade. As estratégias são as ações a serem utilizadas pelo aluno durante o próprio processo de aprendizagem da língua.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

geração de símbolos. O desenho gera símbolo em estágios diferenciados. Primeiro como forma de identificação, depois como forma de representar. Em período escolar, a criança passa de uma escrita pictográfica para uma escrita ideográfica ou alfabética.

74 Como exemplos de recursos expressivos próprios da linguagem escrita há a pontuação, figuras de

linguagem, caixa alta, negrito, itálico, caracteres especiais, fontes coloridas etc. usados na construção de argumentos; na produção de efeitos de humor ou ironia; na manifestação de emoções e sentimentos etc.

A escrita abre caminho para a formação de conhecimento científico de forma consciente (VYGOTSKY, 2007a). “As vozes de fora vão se internalizando para poderem, depois, se externar, num processo complexo e vital, dinâmico” (MARTINS, 2003). É um processo de construção e reconstrução do conhecimento que ocorre mediado pela linguagem, que neste trabalho se detém à modalidade escrita, e por outros instrumentos além dela capazes de levar o sujeito ao nível de amadurecimento das funções elementares superiores. Não se trata, portanto, de apenas representar signos, mas de um movimento complexo, em espiral, realizado reflexivamente.

O escritor não escreve do nada. Parte de conhecimentos que possui por conta de suas experiências pessoais e das dos outros que com ele foram compartilhadas nas relações sociais. São suas leituras de vida e de outros textos interpretadas, selecionadas, organizadas, transformadas, reelaboradas. O cérebro é o responsável por trabalhar essas informações a ponto de poderem ser externalizadas através de uma escrita que comprove sua efetiva aprendizagem.

Dando prosseguimento à revisão teórica sobre escrita, abordo, na seção 3.5, a realização da escrita em ambiente virtual de aprendizagem, essencial para delinear o contexto de estudo desta pesquisa.

No documento Ambiente virtual de aprendizagem no contexto presencial do ensino médio: indícios de autonomia na escrita via estratégias de aprendizagem (páginas 93-96)