CAPÍTULO V – DISCUSSÕES SOBRE OS RESULTADOS EM ANÁLISE
5.4 A espiritualidade e a finitude aos cem anos
Os dados obtidos permitiram a percepção da relação entre a finitude e a espiritualidade nas centenárias do estudo.
A espiritualidade está bem delineada em todas as colaboradoras, sendo as mesmas vinculadas ou não à uma prática religiosa. A expressividade da espiritualidade na vida delas é tão abrangente que pode ser comparada à uma força motivacional capaz de fornecer energia para o indivíduo encontrar-se na transcendência, conforme visto em Marques (2002).
As dificuldades vividas, ao longo dos cem anos, pelas colaboradoras, permitiu-nos perceber que há uma influência da crença no Divino como suporte para momentos de tantas dificuldades. A vivência da espiritualidade pode ser uma forma de compensar perdas, dores e sofrimentos que são inerentes à existência humana, que, por meio do sagrado, leva as centenárias a um instrumental emocional muito importante. Não se pode desprezar o acolhimento da família diante das situações difíceis enfrentadas pelas centenárias, além do apoio que elas encontram na espiritualidade.
Ambas questionavam o porquê delas ainda estarem vivas, enquanto outros irmãos e familiares mais novos já haviam morrido. Sentiam-se surpreendidas ao se autoquestionarem sobre tal situação, como algo no qual jamais encontrariam uma resposta, por se tratar de um “mistério” a ser pensado. Percebeu-se que os conflitos advindos desta forma de questionamento, eram revestidos pela suavidade da espiritualidade de cada uma delas, tornando a questão da finitude menos dolorosa e mais suportável aos olhos das colaboradoras. Deduziu-se que a vivência do tempo está intrinsecamente ligada à forma como elas vivenciam a possibilidade de finitude. Elas lidam com a perspectiva de morte não com temor, medo ou raiva, mas sim com uma certa expectativa, ao mesmo tempo que se mostram gratas pela extensão da vida, ainda que haja momentos permeados pela dor e sofrimento.
A vida vai sendo organizada pelas centenárias com uma preocupação voltada para o futuro, porém diante da perspectiva de finitude, esta preocupação cede lugar ao reconhecimento de que todos nós estamos em um processo de desenvolvimento da vida que se encaminha para a natural finalização. Percebeu-se entre elas, que há um questionamento sobre esta situação. Elas relatam que estão aguardando o tempo de Deus, se perguntando por que não são liberadas, uma vez que a cada dia, a vida vai ficando mais difícil para elas. Estão com mais dores físicas e sentindo que a dinâmica de funcionamento das famílias, nas quais estão inseridas, está em alterações por causa delas. Ambas acreditam que “Deus sabe o que deve fazer”, e desse modo, elas apresentam uma atitude de tranquilidade e aguardam por esse momento, ilustrando uma vivência sustentada aqui pelo paradigma da entrega, e não mais apenas pelo paradigma do controle, que caracteriza a racionalidade, a atividade, a autossuficiência. Não foi perceptível alguma atitude de repulsa à situação de finitude, e ainda que haja expectativa, há também um sentimento de confiança.
Este trabalho marca o quanto as centenárias aqui apresentadas demonstraram-se preparadas para o processo de finitude e que algumas ferramentas imprescindíveis para essa situação são a vivência da temporalidade ancorada na subjetividade e o papel da espiritualidade na vida de cada uma delas.
CONSIDERAÇÕES PARCIAIS
A pesquisa, apoiada nos objetivos iniciais, permitiu a investigação de como se dá a vivência do tempo pela pessoa centenária e o papel da espiritualidade diante da perspectiva de finitude. Buscou-se compreender como a espiritualidade se faz significativa frente às situações que exigem um maior enfrentamento: perdas de pessoas queridas, perda da capacidade de mobilidade física, bem como as demais perdas físicas oriundas do processo de envelhecer. Portanto, essa pesquisa se faz inédita causando a ampliação da compreensão do impacto da temporalidade na pessoa longeva.
Investigou-se o entendimento de como o processo de envelhecimento entre pessoas longevas apresenta pontos de convergências e especificidades em relação à qualquer pessoa que passa pelo processo de envelhecimento e não consegue chegar à marca centenária. Para as colaboradoras da pesquisa, os aspectos da temporalidade dados por Merleau-Ponty (1999) e Eugène Minkowski (1973) e da espiritualidade (MARQUES, 2010) comunicaram expressões do vivido de forma autêntica e demonstraram algumas interferências na dinâmica de vida destas idosas. Assim como se percebeu que, para as centenárias dessa pesquisa, há uma relação entre a vivência da temporalidade, a espiritualidade e a finitude.
Nas reflexões sobre o assunto, puderam ser apontadas questões que são comuns ao processo de envelhecimento, como a compreensão de se completar cem anos pelo viés da fenomenologia que destitui o processo de envelhecimento da ideia comum marcada apenas pelas perdas sociais; e, ainda, as perdas físicas ocasionadas por um organismo, em mudanças, caracterizado pelo desconforto de um corpo que vai cada dia perdendo a autonomia. Chegar aos cem anos, é um processo distinto para cada pessoa, certamente porque o processo de envelhecer também é diferente para cada indivíduo. Envelhecer é um processo contínuo que não acontece pela metamorfose na qual um ser se transforma em outro completamente diferente (Beauvoir, 1990).
As investigações sobre o viver aos cem anos, com essas, colaboradoras, trouxeram uma nova imagem, que esbarra na percepção de como é o olhar do outro que delineia a passagem do tempo em um corpo envelhecido, porém com muitos desejos surpreendidos em ato, inclusive o da própria imortalidade – o trabalho, com suas fotos, seria um modo de fazê-las presentes no tempo futuro, mesmo depois da
morte. Diante da complexidade do fenômeno, este estudo permitiu um olhar diferenciado do tradicional em relação ao envelhecimento, devido os relatos e convivência com as colaboradoras durante o processo de pesquisa.
Reverter a imagem social negativa comum sobre o processo de envelhecimento implica investigar as especificidades dessa faixa etária, direcionando o olhar para os vários aspectos positivos que somente pela pesquisa fenomenológica nos foi possibilitado isso. A temática ainda incomoda, uma vez que estamos em uma sociedade que se estrutura em torno da ditadura da juventude eterna e as formas de subjetivação contemporâneas estão se rendendo cada vez mais aos padrões dos descartáveis; ou seja, não somente objetos são descartados, mas também as pessoas e as relações. E nesse modelo de sociedade, o velho ainda não possui um lugar totalmente demarcado e instituído.
As centenárias da pesquisa possuem as mesmas características dos idosos típicos do processo de envelhecimento. Elas apresentaram descontentamento frente às perdas do vigor físico e das diversas possibilidades de atividades laborais de outrora. Quando surpreendidas sobre essas questões, não demonstraram que haviam refletido sobre o quanto já praticaram de trabalho ao longo da vida.
Percebeu-se que, a relação da vivência da temporalidade, configurada na perspectiva de tempo vivido, em nuance com o tempo kairótico, não foi um processo percebido pelas centenárias, que se surpreendiam com a passagem do tempo para as outras pessoas. Particularmente quando essas outras pessoas eram mais novas que elas e estavam em um processo de envelhecimento mais avançado.
Conhecer o processo de envelhecimento, através da experiência vivencial de cada centenária, revelou que elas gostam muito de viver entre as pessoas da família, e que também cultivam um silenciamento interno, em postura de agradecimento pela extensão da vida. Ainda que elas necessitem de adaptação às novas condições de vida alcançadas pela velhice, destaca-se a facilidade de percorrer a atual trajetória encontrando um sentido para tal caminhada pelo forte sentimento de espiritualidade na vida delas. A referência utilizada por elas é Deus. Sentem vontade de atingir a finitude da vida, mas aguardam o tempo de Deus. Pensar no contrário é praticamente impossível, para ambas.
Após essas ponderações, vale reforçar que, durante as entrevistas, foi possível reconhecer situações nas quais há uma expectativa diante da possibilidade
de finitude, mas também se percebe que as centenárias encaram a possibilidade de morte como uma condição dada pela vida e se postam diante dessa situação de ruptura existencial. Ressignificando, assim, esse momento de espera pelos atributos da temporalidade e da espiritualidade que se encontra fortalecido nelas. A relação com o divino é cultivada em diversos momentos do dia, que configuram o exercício da espiritualidade não apenas pelas orações, mas também pela atitude contemplativa da vida e do vivido.
As centenárias apresentaram a consciência da finitude. Elas demonstraram valorizar a mobilização familiar, diante das exigências cotidianas da vida, permitindo-lhes que encontrem um tempo nas suas vidas para estarem com elas. A vida de cada uma delas é entrecortada pela presença do suporte social constituído apenas pelas relações familiares às quais lhes permitem que se sintam protegidas e acolhidas evidenciando uma confiança maior diante das adversidades e do medo das perdas que ainda podem lhes acontecer.
Diante do exposto, é de suma importância reconhecer que o conhecimento ora produzido nesse estudo está longe de esgotar sobre o tema. A originalidade desse estudo se constitui por ser uma pesquisa inédita, ainda que exploratória, com idosas centenárias e a compreensão das mesmas acerca da temporalidade e da espiritualidade. Ressaltando que outros estudos podem dar força ao movimento de desvelar o caminho percorrido por pessoas centenárias e o tempo. Outras questões se abrem para a continuação das pesquisas nessa área sobre a possibilidade de estudar centenários institucionalizados. O processo de aperfeiçoamento deve continuar com outras pesquisas, comparando o número de idosos centenários que vivem em grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, que são capitais com peculiaridades de vida completamente diferente de Goiânia. Certamente poderá se vislumbrar aspectos novos sobre a relação da temporalidade e da espiritualidade em pessoas centenárias.
Desse modo, o conhecimento adquirido por meio dessa pesquisa contribui para algumas implicações sobre a atuação do psicólogo junto à pessoa idosa frente aos impactos sofridos pelo envelhecimento e as demais perdas naturais do processo, permitindo que se abra espaço para amplas reflexões sobre as pessoas que chegam ou ultrapassam a marca centenária.
Sobre a temporalidade, é imprescindível lembrar que, antes de nosso nascimento, já estamos inseridos nas tramas do tempo, e, ainda com nossa morte, ele nos representa pelo que foi vivido.
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APÊNDICE A
ROTEIRO DE ENTREVISTA SEMIESTRUTURADO
Em conformidade com a postura fenomenológica, as entrevistas ocorrerão em torno de temas eixos, com as seguintes questões disparadoras:
Tema eixo: Acolhimento
1 – Como está sua vida hoje? Fale-me sobre sua vida atual.
Tema eixo: Ser centenária – Vivência do tempo
1 – Como é ser uma pessoa centenária?
2 – Como é ter cem anos entre pessoas de outras idades?
3 – Você vive hoje com pessoas de outras idades bem diferente da sua. Como é isso?
4 – Fale-me sobre a sua infância. Como era? O que você se lembra?
Tema eixo : Espiritualidade
Tema eixo: Finitude
1 – Como você lida com a possibilidade de finitude? Fale-me sobre este assunto.
APÊNDICE B
TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS DE UMA DAS CENTENÁRIAS
LENINHA – 1ª ENTREVISTA
Quando cheguei e fui cumprimentá-la ela me perguntou sobre a minha escola, dizendo que ela tinha estudado pouco pois o pai dela não deixava os filhos estudarem. Ele trabalhava na roça, e quando ele viajava a mãe levava os filhos para a escola. Assim que ele chegava de viagem, os filhos tinham que parar de frequentar as aulas.
D. Leninha, quando cheguei a senhora falava sobre infância. Disse-me que seu pai não permitia que os filhos estudassem. A senhora pode me explicar mais sobre isso?
Ele não gostava. Ih, eu alembro toda coisa disso. Minha mãe punha nóis na escola e meu pai ia lá e tirava. Ele viajava, ela corria e punha nóis na escola e quando ele chegava: “Cadê os menino ?” A mãe respondia: “Eu vou buscar.” E ela punha nóis na frente dela e trazia. Ele disse que é pra nóis num ranjá namorado [risos]. E num adiantou nada, né! [risos]
E onde era? Que lugar era ?
Era em Planaltina. Eu era pequenininha... E nesse lugar que eu falei agora, qual é que é?
Planaltina?
É nóis foi criado em Planaltina. Mas eu sou nascida no Sítio D’Abadia e dispois nóis foi pra lá. Em Planaltina. E lá nóis cresceu, ficou, crio, ficou toda vida por ali. Meu pai