• Nenhum resultado encontrado

2. A PEDRA - O REINO DE QUADERNA

2.3 CARNAVALIZAÇÃO NO SERTÃO

2.3.2. A estirpe de Quaderna – vida em meio à morte

Sobre a agonia e o renascimento do mundo, ou seja, o sentido ambivalente do grotesco, interpretaremos a cena em que a bisavó de Quaderna, Isabel, dá à luz: no momento da morte, e morte por degolação, nasce a criança que daria continuidade à família.

Degradar significa entrar em comunhão com a vida da parte inferior do corpo, a do ventre e dos órgãos genitais, e, portanto, com atos como o coito, a concepção, a gravidez, o parto, a absorção de alimentos e a satisfação de necessidades naturais. A degradação cava o túmulo corporal para dar lugar a um novo nascimento. E por isso não tem somente um valor destrutivo, negativo, mas também um positivo, regenerador: é ambivalente, ao mesmo tempo negação e afirmação. Precipita-se não apenas para baixo, para o nada, a destruição absoluta, mas também o baixo produtivo, no qual se realizam a concepção e o renascimento, e onde tudo cresce profusamente. O realismo grotesco não conhece outro baixo; o baixo é a terra que dá vida, e o seio corporal; o baixo é sempre o começo. (BAKHTIN, 2002, p. 19)

No plano histórico a cena retoma o ato reconhecidamente chocante desse reduto: a imolação dos adeptos por degola. Os registros históricos sempre chamam a atenção para esse pormenor que acaba por marcar a imagem de João Ferreira como louco, não como beato ou líder religioso. Esse mesmo discurso é repetido em obras como a de Araripe Junior e bastante ocultada em José Lins do Rego. A personagem de Ariano Suassuna, Quaderna, projeta a reconstrução dessa cena. Ressalta a grandeza desses atos e inclui, no plano ficcional, a presença de sua bisavó, Isabel, grávida. Nos relatos históricos há uma contribuição de Nina Rodrigues para esse acontecimento:

“Uma das cunhadas do rei é sacrificada; achava-se em tão adiantado estado de gravidez, que deu à luz no momento da execução.” (RODRIGUES, 2006, p. 93). Na narrativa do Romance da pedra do reino esse grotesco acontecimento é reinterpretado como grandioso primordial para Quaderna: a criança nasce em meio às agonias da mãe que sofrera o sacrifício. Resgatada, será criada por um padre e terá o nome Ferreira omitido para que possa viver sem perseguições. Do ato da morte, da loucura, da insanidade, dos corpos destroçados, do sangue que banha as pedras, Quaderna insere a vida: a criança que nasce no meio ao caos, ao grotesco da imagem terrível:

Isabel, irmã de Pedro Antônio e do primeiro rei, João Antônio, grávida do monstro, é designada para o sacrifício pelo Execrável João Ferreira-Quaderna, que respondia às suas súplicas e alegações de gravidez gritando para Carlos Vieira e José Vieira: —‘ Imolai-a assim mesmo, para ela não sofrer duas dores, a do parto e a do encantamento!’ Tão

adiantado era o estado de gravidez desta infeliz que, momentos depois de ter recebido o golpe na garganta, a criança rolava pela rampa da Pedra e estendia-se no chão.

(SUASSUNA, 1972, p. 44. itálicos do autor)

Ao organizar a história de seus ancestrais, Quaderna acrescenta suposições sobre o que poderia ter ocorrido, pois se no campo histórico sabe-se que a esposa de João Ferreira fora uma das sacrificadas, no discurso ficcional explora-se a terrível situação da gestante, a indiferença de João Ferreira perante o ato monstruoso e a sobrevivência do recém-nascido:

O estranho, porém, é que o menino sobrevivera e estava ali, perto do corpo de sua jovem Mãe. Como teria o recém-nascido escapado, assim? Não se sabe, e eu, como membro ilustre do nosso “Instituto Genealógico e Histórico do Cariri”, não avanço hipóteses, só digo o que posso provar. Mas vá ver que são mesmo corretas as versões, correntes aqui no Cariri, de que uma daquelas Onças era fêmea e teria amamentado o inocente naquele primeiro dia de vida, no que, aliás, teria somente seguido outros exemplos ilustres da História.

(SUASSUNA, 1972, p. 48.)

No espaço sertanejo é realizada a filiação mais emblemática desse caso: a história de Rômulo e Remo, os fundadores de Roma, que foram alimentados por uma loba. A substituição do animal – a loba pela onça – é um dos muitos exemplos da atuação de Quaderna que busca privilegiar o espaço sertanejo.

A vida que surge perante a morte marca a ambivalência do aspecto grotesco da cena:

Em Rabelais e nas fontes populares a que recorre, a morte é uma imagem ambivalente, e é por isso que ela pode ser alegre. A imagem da morte, embora focalize o corpo agonizante (individual), engloba ao mesmo tempo uma pequena parte de um outro corpo nascente, jovem, que, mesmo quando não é mostrado e designado nomeadamente, está implicitamente incluído na imagem da morte. Onde há morte, há também nascimento, alternância, renovação. (BAKHTIN, 2002, p. 359. itálicos do autor.)

O tema do nascimento de uma criança ante a morte da mãe ou em meio a uma situação grotesca é também trabalhada na obra de Bakhtin quando resgata cenas referentes aos nascimento de Gargantua e de Pantagruel. O nascimento de Gargantua está vinculado a ocasião de festejos agrícolas e ao abate de gado. A grandiosidade da festa, o número de bois abatidos (367.014), a comilança desproporcional, indicam a abundância, a alegria. É nesse ambiente que nasce Gargantua, ante a comilança da mãe que, como conseqüência, tem as entranhas rompidas, ou o intestino reto “escapado”, como registra o autor. A criança chega a ser confundida com o intestino que está fora do corpo, e finalmente nasce, não pelo lugar natural, mas pela orelha esquerda. O movimento (do baixo para o alto) preenche-se de significado e Bakhtin conclui:

Todas as imagens do episódio desenvolvem o tema da própria festa: a matança, o destripamento e o esquartejamento dos bois; depois de terem aparecido na descrição do festim (consumpção do corpo despedaçado), elas deslizam insensivelmente para a análise anatômica das entranhas da parturiente. Assim o autor cria com uma arte admirável a atmosfera excepcionalmente densa de corpo único e compacto no qual se apagam propositadamente todas as fronteiras entre os corpos dos animais e os dos homens, entre as tripas devoradoras e as devoradas. (BAKHTIN, 2002, p. 196)

O nascimento de Pantagruel, filho de Gargantua também está vinculado à idéia de morte: a mãe morre por doença de parto devido ao tamanho desproporcional do filho que paria. O sentido ambivalente da morte-nascimento é resgatado por Bakhtin:“O terceiro capítulo desenvolve o motivo ambivalente da morte-nascimento: Gargantua não sabe se ele deve chorar a morte da sua mulher ou rir a alegria pelo nascimento de seu filho; por turno, ele ri “como um bezerro” (jovem animal) ou chora “como uma vaca”

(que pôs o seu bezerro no mundo, próxima da morte).” (BAKHTIN, 2002, p. 289).

2.3.3. Linguagem

Bakhtin ao analisar a obra de Rabelais observa a presença de intermináveis séries de nomes e títulos para determinado objeto, coisa ou ação (BAKHTIN, p. 153). É assim que se enumeram os trezentos e três adjetivos para qualificar os órgãos genitais masculinos, ou o nome de centro e trinta e oito pratos em honra a um determinado deus.

Com fins laudatórios ou injuriosos também esse registro carrega sua característica ambígua. Mais adiante (BAKHTIN, p. 366), para exemplificar o tipo de enumeração laudatória, cita o trecho da obra de Rabelais em que o personagem Panurge precisa de um conselho do padre Jean e para consegui-lo, elogia os colhões do padre. São cento e cinqüenta e três epítetos elogiosos, de caráter positivo. A fonte dessas nomenclaturas está nas ruas, nas praças, nas feiras. Não são registrados em obras escritas. Sobre esse aspecto, Bakhtin retoma a idéia da consciência verbal de Rabelais ao “perder tempo”

registrando uma infinidade de palavras que são sinônimas: “Ele tomou de fontes orais o número considerável de elementos da sua linguagem: trata-se de palavras virgens que saídas pela primeira vez das profundezas da vida popular, da língua falada, entraram para o sistema da linguagem escrita e impressa.” (BAKHTIN, 2002, p. 402)

O uso do exagero pela enumeração também está presente na narrativa do Romance da pedra do reino com um propósito bastante significativo no nosso entender.

A cena mostra a situação em que Clemente, Samuel e Quaderna discutem sobre o cargo de “Gênio da Raça Brasileira” e sobre quem seria o candidato possível para tal cargo.

Ironicamente, demonstram a capacidade intelectual de Ruy Barbosa pela façanha de registrar um grande número de sinônimos para a palavra prostituta. Quaderna percebe que pode superar o mestre:

— É verdade! — falou Clemente, com ar grave. — Realmente chegaram a falar nisso, por ter Ruy Barbosa praticado a façanha de, num artigo só, o Pornéia, ter usado, sem repetir nenhum, vinte e oito sinônimos da palavra prostituta!

— Vá saber Português, assim, no inferno, porra! — comentei. — Mas, como vocês sabem, sou dono de uma casa-de-recursos. Além disso, parte da mina formação literária foi feita na zona suspeita de nossa Vila, o “Rói-Couro”, de modo que dessas coisas de raparigagem e fudelhança eu entendo um bocado”! Se um de vocês dois quiser se candidatar a “Gênio da Raça”, é só pedir minha ajuda: eu garanto fornecer a vocês pelo menos quarenta sinônimos de puta, nenhum deles usado por Ruy Barbosa! (SUASSUNA, 1972, p. 141. itálicos do autor)

O reconhecido jurista, político, escritor e orador brasileiro, recebe um elogio inesperado. No entanto, esse elogio formata-se de maneira ambígua: então seria a capacidade de registrar os sinônimos para prostituta que faria de um escritor candidato à Academia Brasileira de Letras, ou, o que é muito maior no entendimento de Quaderna, o de Gênio da Raça Brasileira? Verificamos que a obra citada por Clemente e atribuída a Ruy Barbosa é uma ironia à seriedade desse escritor. Pornéia é uma palavra que remete ao termo pornografia e, na Antiguidade, designava o crime da prática de homossexualidade. Seguindo a análise do trecho aqui destacado, percebemos que Quaderna associa a capacidade de saber e registrar sinônimos de uma determinada palavra à infinita sabedoria de um homem e de seu próprio idioma. Mais uma vez, forma-se uma constatação contrária à formalidade do conhecimento erudito. Segue-se o registro de Quaderna com vocábulos chulos para designar a prostituição e o ato sexual.

O tema ao mesmo tempo entroniza e apresenta de forma grotesca a capacidade intelectual:

Fenômenos tais como as grosserias, os juramentos e as obscenidades são os elementos não oficiais da linguagem. Eles são, e assim eram considerados, uma violação flagrante das regras normais da linguagem, como uma deliberada recusa de curvar-se às convenções verbais: etiqueta cortesia, piedade, consideração, respeito da hierarquia, etc. Se os elementos desse gênero existem em quantidade suficiente e sob uma forma deliberada, exercem uma influência poderosa sobre todo o contexto, sobre toda a linguagem: transpõem-na para um plano diferente, fazem-na escapar a todas as convenções verbais. (BAKHTIN, 2002, p. 162)