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BREVE HISTÓRICO DA PSICOLOGIA HUMANISTA

A ESTRUTURA DA PERSONALIDADE SEGUNDO A AT

1o INSTRUMENTO DA AT

Em 1961, Berne concebeu uma maneira de representar a personalidade humana, através de um modelo original e simples, possível de ser diagramado. Denominou que as estruturas da personalidade formam um sistema coerente de sentimentos e pensamentos, que determinam os estados naturais de conduta. Essas estruturas correspondem a verdadeiras gravações, que representam como cada um de nós está constituído dentro da própria cabeça. As estruturas dialogam entre si, o que chamou de diálogos internos ou vozes-na-cabeça. Estes diálogos internos são efetuados entre as estruturas do ego, hoje denominadas de estruturas do eu por muitos psiquiatras, psicoterapeutas e psicólogos. (Ver Berne, 1961, pp.28-34)

O termo estados de ego como veremos em citações diversas, segundo o próprio Berne, tem a pretensão de “... tão-somente designar estados da mente e seus padrões afins de comportamento tal como estes ocorrem na natureza, e evita, num primeiro momento, o uso de conceitos como ‘instinto’, ‘cultura’, ‘superego’, ‘animus’, e assim por diante.”

Continua dizendo que: “A análise estrutural apenas admite que tais estados do ego podem ser classificados e esclarecidos [...]” (ibidem, p.28) Continuando, diz Berne:

Na busca de um quadro de referência para a classificação, descobriu-se que o material clínico evidenciou a hipótese de que os estados do ego infantis existem como relíquias no adulto e que, sob certas circunstâncias, eles podem ser revividos. [...] este fenômeno tem sido relatado repetidamente em conexão com sonhos, hipnose, psicose, intoxicantes farmacológicos e estimulação elétrica direta do córtex temporal. Mas a observação cuidadosa levou a hipótese um passo à frente, até a suposição de que tais relíquias podem exibir uma atividade espontânea também no estado normal de vigília. (Ibidem, p.28)

O neurocirurgião canadense Penfield com a estimulação seletiva de pontos específicos do cérebro no decurso de neurocirurgias, verificou que a estimulação com eletrodos em certas áreas cerebrais provoca no paciente a evocação de imagens tão nítidas como se constituíssem um vídeo-tape do passado. (Kertész, manual de AT da ALAT, 1977).

PERSONALIDADE E COMPORTAMENTO

"Todo homem tem três personalidades: a que exibe, a que possui e a que julga possuir." Alphonse Karr

Encontramos alguns conceitos importantes de personalidade em Kertész, (1987, p.23) que de forma resumida é “[...] o modo habitual pelo qual o indivíduo pensa, sente, fala e atua para satisfazer suas necessidades no meio físico e social.” A expressão “estados do ego” ou “estados do eu”, foi definida por Eric Berne como: “Um sistema de emoções e pensamentos, acompanhado de um conjunto afim de padrões de comportamento.” (Apud Kertész, 1987, p.23). Na introdução do livro de Berne, encontramos uma descrição fenomenológica sobre o estado de ego ou de eu:

[...] como um sistema coerente de sentimentos relacionados a um dado sujeito e operacionalmente como um conjunto de padrões coerentes de comportamento; ou, ainda, do ponto de vista pragmático, como um sistema de sentimentos que motiva um conjunto de padrões de comportamento [s] afins. (1961, p.17)

Comportamento segundo Sillamy é:

[...] a conduta de um indivíduo considerada em um meio e uma unidade de tempo dados. O comportamento, que depende tanto do indivíduo como do meio, sempre tem um sentido. Corresponde à busca de uma situação ou objeto suscetível de reduzir as tensões (C. L. Hull) e as necessidades do indivíduo. Desde o reflexo, que procura suprimir a excitação, até a neurose, concebida

como reação inadequada à angústia, todos os comportamentos possuem uma significação adaptativa. (1996, p.57)

A terapia comportamental ou terapia do comportamento tende à substituição de um sintoma neurótico, (fobias, tiques, e outros), considerado como um comportamento aprendido mas inadequado, por uma resposta mais adequada. Uma outra terapia do comportamento é a prática negativa, que se destina a repetir voluntariamente e intensivamente o comportamento que se quer fazer desaparecer. “Outras técnicas apelam ao desgosto e à aversão, ao medo e à ansiedade ou ainda ao reforço positivo (recompensa).” (Ver: Sillamy, 1996, pp. 56-57 e Imersão, terapia por, p.126).

O comportamento, portanto, envolve o que sentimos, pensamos, dizemos e fazemos. O que se sente e pensa é o comportamento subjetivo (interior, privado, ‘dentro da cabeça’). O que se diz e faz é o comportamento objetivo (exterior, público, observável, registrável mediante gravações e filmes). Kertész, (1987, p.23). Ver esquema elaborado pela autora a seguir:

Através do pensamento e da palavra formulamos a ideia. Portanto, o pensamento é uma expressão do espirito criador do ser humano. O pensar, como pensar e o que pensar, se torna relevante no processo de ensino e aprendizado da dança, desde que a criação, ou o ato de criar surge, não somente do insight, como do desenvolvimento do pensamento. Segundo Carlos Pecotche, encontramos o seguinte:

Na maioria das pessoas, não há disposição para pensar; isto é causa de que se escute, em geral, com indiferença. Se a palavra não promove no que a escuta, um ato de verdadeira atividade mental, no qual se veja obrigado a pensar, esta se perde no labirinto de pensamentos e ideias que estão dentro de sua mente. (No

artigo da internet: http//www.logosofia.org.br/temashst9.htm, “Vida Vivida e por Viver”)

Segundo muitos psicólogos e psicoterapeutas, os nossos pensamentos negativos atuam movidos por uma força cega que, inconscientemente, cumprem uma missão devastadora em nossas mentes, nos fazendo viver, muitas vezes, angustiados. Vejamos:

Desde que o homem começa a pensar por si mesmo, já dignifica sua espécie, se afasta da irracionalidade que constituiu e constitui a animalidade, sente o influxo das forças criadoras por efeito de sua mente, o que o comove frente ao próprio ato de pensar, que é filho da própria mente, da própria inteligência que o fecundou. [...]. O ensinamento [...] tende, justamente, a promover na mente o ato de pensar; pensar, que é [...] também observar, meditar, refletir e selecionar. (Ibidem, internet)

Interessa-nos estudar a incongruência que acontece “[...] quando algum ou alguns sinais de conduta não concordam, levando duas ou mais mensagens diferentes entre si [...]”

(Kertész, 1985 p.44) observada no comportamento, tanto de professores quanto de alunos, durante a prática de ensino e do aprendizado da dança. Pressupomos que os maiores problemas encontrados com a linguagem da dança, e consequentemente com a comunicação, tanto intrapessoal como interpessoal ou grupal, estejam diretamente ligados a esta incongruência. Segundo a AT, ao observarmos que todos os sinais de conduta (sentir, pensar, dizer e fazer) estão de acordo, ou seja: transmitem a mesma mensagem, chamamos de congruência.

Sentimos que, geralmente, não há um acordo entre o comportamento dos alunos e seus objetivos profissionais. Quando, através da análise, temos acesso a nosso comportamento subjetivo, e tomamos consciência dele, a nossa responsabilidade, quanto à escolha do mesmo, passa a ser maior, porque também passamos a possuir a opção da mudança ou não, para melhor ou para pior. Ainda em Kertész, (ibidem, p.44) que explica que a incongruência pode ser adequada, quando se conta, por exemplo, uma piada com a expressão facial séria, para ficar mais engraçada, embora, geralmente, a incongruência seja um comportamento inadequado. Podemos ver isso também na dança, quando o dançarino, mesmo sério, expressa algo engraçado, provocando risos na plateia. Além disso, a incongruência às vezes pode estar contida nas próprias palavras, sem precisar de outro sinal, como explica e exemplifica Kertész com as frases: “O dia em que você casar, morro tranquilo.” Qual seria a mensagem oculta? “Se você se casar, vai me matar! (Risos)” (ibidem, p.44). Por mais engraçado que pareça, as mensagens bruxas, como a do exemplo acima, segundo os analistas transacionais podem provocar a transformação da vida de uma

pessoa, principalmente aquelas que não possuem conhecimento suficiente para percebê-las, e sendo assim, rejeitá-las.

ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DA PERSONALIDADE,

UMA PSICOLOGIA INDIVIDUAL

A partir da consciência e compreensão dos nossos comportamentos é que podemos melhorar nossa qualidade de vida, reformulando posturas e aprendendo novas formas de pensar, sentir e agir. Por outro lado, o gênio palpitante de Berne tirou fantásticas deduções de observações clínicas e até mesmo de intuições bem aproveitadas, permitindo-lhe concluir por três estados do Eu que os denominou de Pai, Adulto e Criança. Observando a expressão corporal, o vocabulário e o tom de voz de uma pessoa, podemos identificar o estado do eu que ela está usando. Em James e Jongeward, temos:

De acordo com Dr. Berne, suas teorias se desenvolveram enquanto observava as mudanças de comportamento ocorridas no paciente quando um novo estímulo, como uma palavra, gesto, ou som, passava a ser focalizado. Estas mudanças envolviam expressões faciais, entonação de palavras, estrutura da frase, movimentos do corpo, gestos, tics, postura e atitude. Era como se existissem várias pessoas diferentes dentro do indivíduo. Algumas vezes, uma ou outra dessas pessoas interiores diferentes parecia ter o controle de toda a personalidade do seu paciente. (1975, p.26)

Os estados do Eu, segundo Berne, são três partes diferentes da personalidade, que, juntas, formam o Eu. Cada um de nós é a combinação de três personalidades distintas. Um Pai, um Adulto, e uma Criança, os quais podem ser usados de forma adequada ou não. São escritos com inicial maiúscula para não confundir no texto com os substantivos comuns, pai, adulto, criança. Vejamos o que Berne nos diz sobre os primeiros instrumentos descobertos na AT em suas pesquisas sobre intuição:

Embora a exposição teórica seja mais complexa, a aplicação das análises estrutural e transacional exige um vocabulário esotérico de apenas seis palavras. [Exteropsique, neopsique e arqueopsique, Pai, Adulto e Criança] Exteropsique, neopsique e arqueopsique são vistos como órgãos psíquicos que se manifestam fenomenologicamente como estados do ego exteropsíquico (identificativo), neopsíquico (de processamento de dados) e arqueopsíquico (ex. regressivo). Na linguagem coloquial, referimo-nos a estes tipos de estados do ego como Pai,

Adulto e Criança, respectivamente. Estes três substantivos formam a

terminologia da análise estrutural [da personalidade. Os três estados do eu]. (1961, p.23)

Observando a figura 3 abaixo, podemos saber como Berne chegou à diagramação das estruturas do eu: (ibidem, p.29) Estas serão explicadas mais adiante, nos itens

intitulados Estrutura e Funcionamento da Personalidade, e no Diagrama Estrutural de Primeira Ordem. (a) Órgãos psíquicos (b) Estados do Eu na AT

Exteropsique Pai

Neopsique Adulto

Figura 3.

Arqueopsique Criança

Certos conjuntos de manobras sociais parecem combinar tanto as funções defensivas quanto as gratificantes [...] que são os passatempos e jogos que fazem parte do instrumento da AT, estruturação do tempo. Outras operações mais complexas baseiam-se num extensivo plano de vida inconsciente que se chama argumento, como evocação dos argumentos teatrais, que são derivativos intuitivos desses dramas psicológicos. [...] Pai, Adulto e Criança não são conceitos como Superego, Ego e Id, ou como os constructors Junguianos, mas realidades fenomenológicas; enquanto passatempos, jogos e argumentos não são abstrações, mas realidades sociais operacionais. Uma vez compreendidos os significados operacionais psicológico, social e clínico desses seis termos, o analista transacional, seja ele médico, psicólogo, cientista social ou assistente social, estará em condições de usá-los como instrumentos terapêuticos de pesquisa ou clínicos, de acordo com suas oportunidades e qualificações. (Ibidem, p.23)

A forma de operação dos estados do EU de cada ser humano é o que vem caracterizar e intensificar a escolha, inconsciente ou não, do tipo de comunicação que se deseja. Possuindo certa prática na observação das comunicações sociais, sejam elas interpessoais ou grupais, tomando como base as realidades fenomenológicas (Pai, Adulto e Criança) simplificadas por Berne, podemos nos dar conta da “realidade social operacional” (revelada através dos instrumentos da AT) em que vivemos e da nossa adequação à essa realidade. Vejamos, no esquema a seguir, de que forma estes estados do EU agem e reagem: (Ver Berne, 1961, no capítulo 3, A Função da Personalidade, p.35).