A evolução da Economia Solidária no contexto atual brasileiro

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE ITAJUBÁ PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DA ENERGIA (páginas 46-52)

Capitulo 3 – Economia Solidária

3.2 A evolução da Economia Solidária no contexto atual brasileiro

A questão da organização empresarial cooperativista enquanto alternativa para a empresa capitalista não é recente. Surge no início do século XIX na Europa com características ideológicas e filosóficas de autogestão, democracia interna e autonomia. No entanto, muitas perderam esses valores essenciais ao longo do tempo tornando-se semelhantes às empresas capitalistas onde a subordinação das relações de trabalho é uma característica marcante e a cultura é fortemente enraizada na relação de subalternidade. A partir da década de 80, verifica-se no Brasil a retomada do cooperativismo com uma nova conotação, dentro do conceito de Empreendimento Econômico Solidário e da Economia Solidária (EID et. al. 2004).

Historicamente, experiências da economia popular sempre estiveram presentes no contexto socioeconômico brasileiro, embora, encontrassem dispersas e fragmentadas. Analisando a Economia Solidária em uma perspectiva histórica, Singer (2002) afirma que suas origens estão nas reações aos efeitos da primeira Revolução Industrial entre 1780 e 1880, no que tocante às relações de trabalho.

Os primeiros vestígios da Economia Solidária aparecem no Brasil no início da década 80, como efeito da grande crise de 1981/83, quando muitas

indústrias, inclusive de grande porte, pedem concordata e entram em processo falimentar. Segundo Betanho et. al., (2005), provavelmente, a difusão da Economia Solidária no contexto brasileiro deu-se em função da quebra das forças produtivas nacionais, quando da abrupta abertura dos mercados internos, gerando níveis alarmantes de desemprego. Nas cidades, empresas modernizadas fecharam milhões de postos de trabalho, enquanto que no campo, a mecanização do processo de produção e a dependência de insumos químicos redundaram na falência crescente e acelerada da pequena propriedade rural e da agricultura familiar, resultando na exacerbação do êxodo rural, talvez sem precedentes na história da agricultura brasileira.

Considerando o ano de início das atividades, constata-se que o fenômeno da Economia Solidária é bastante recente no Brasil. A grande maioria dos empreendimentos solidários teve seu início na década de 90 com gradativa expansão no século atual. Quanto à forma de organização, percebe-se que os grupos informais aprepercebe-sentaram uma maior taxa de crescimento após a metade da década de 90, enquanto as associações apresentaram uma redução da sua expansão e o número de novas cooperativas se mantém relativamente estável (ATLAS DA ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL, 2005).

O gráfico 3.1, mostra a entrada dos empreendimentos solidários no mercado.

0 1500 3000 4500 6000 7500 9000

Até 1979

de 80 a 84

de 85 a 89

de 90 a 94

de 95 a 99

de 2000 a 2005 Ano de Início Nº de EES

Grupo Informal Associação Cooperativa Total

Fonte: Atlas da Economia Solidária no Brasil, 2005.

Gráfico 3.1: Entrada dos empreendimentos solidários no mercado.

Desde então, o termo se fixou de tal forma, que em nível federal, a medida da atenção que o tema passou a merecer pode ser dada pela recente criação em 2004 da Secretaria Nacional de Economia Solidária - SNAES, vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego – MTE. Segundo Taulie e Rodrigues (2005), embora tenha um cunho mais amplo, essa iniciativa do Governo Federal gerou grandes expectativas quanto à realização do potencial nela contido, em especial o de estimular a difusão de cooperativas autogestionárias.

Atualmente, em todo o país, os empreendimentos estão se articulando por meio de redes e fóruns regionais, estaduais e nacionais. Foi instituído, também, o Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária - SIES por meio da Portaria nº. 30 de 03/06. Esses fatos evidenciam a emergência do tema e nos mostram que a Economia Solidária tem ganho sua devida importância e mérito. A figura 3.1, reflete a abrangência da Economia Solidária no Brasil, oferecendo uma amostra de sua dimensão e potencialidade de expansão contínua nos próximos anos.

Essas ações têm como meta promover o fortalecimento e a divulgação da Economia Solidária, mediante políticas integradas, visando à geração de trabalho e renda, a inclusão social e a promoção do desenvolvimento justo e solidário. Segundo Cruz (2004), o Governo Federal vem apoiando a formação de Centros Públicos de Economia Solidária, a organização de Feiras Populares Estaduais para pequenos empreendedores e a recuperação de empresas pelos trabalhadores em autogestão.

Legenda

Fonte: Atlas da Economia Solidária no Brasil, 2005.

Figura 3.1: Estrutura organizacional da Economia Solidária no Brasil.

ADS/CUT - Agência de Desenvolvimento Solidário/

Central Única dos Trabalhadores.

ANCOSOL - Associação Nacional do Cooperativismo de Crédito de Economia Familiar e Solidária

ANTEAG - Associação Nacional de Trabalhadores e Empresas de Autogestão.

COCRAB/MST - Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil/ Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

FACES - Fórum de Articulação para o Comércio Ético e Solidário do Brasil.

FASE, IBASE, PACS, IMS - Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional, Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, Instituto Marista de Solidariedade.

FEES - Fórum Estadual de Economia Solidária.

FBS - Fórum Brasileiro de Economia Solidária.

MTE/SENAES - Ministério do Trabalho e Emprego / Secretaria Nacional de Economia Solidária.

UNICAFES - União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária.

UNISOL- Universidade Solidária.

Dados do Atlas da Economia Solidária no Brasil (2005) estimam que exista, atualmente, em torno de 14.954 empreendimentos solidários distribuídos por todo o Brasil. O gráfico 3.2 abaixo apresenta os empreendimentos solidários porforma de organização1.

33%

11% 2%

54%

Grupo Informal Associação Cooperativa Outra

Fonte: Atlas da Economia Solidária no Brasil, 2005.

Gráfico 3.2:Empreendimentos solidários por forma de organização.

Além disso, os empreendimentos solidários estão presentes em 2.274 municípios no Brasil (o que corresponde a 41% dos municípios brasileiros). Considerando a distribuição territorial, há uma maior concentração na região nordeste, com 44%. Os restantes 56% estão distribuídos nas demais regiões: 13% na região norte, 14% na região sudeste, 12% na região centro-oeste e 17% na região sul, conforme mostra o gráfico 3.3.

Em diversas regiões do país, de acordo com Eid (2001), algumas com maior intensidade, vêm se desenvolvendo, principalmente nos últimos quinze anos, experiências de geração de trabalho e renda, de forma solidária e associativa. Iniciativas isoladas deram lugar a uma realidade que se expande e se dinamiza, motivando a ação de entidades de classe e políticas públicas no campo popular, orientadas para uma economia que está em processo de gestação.

1 Os empreendimentos apresentados possuem, em graus diferenciados, as características de que, a princípio, qualificam um empreendimento solidário.

12% 13%

17%

44%

Norte Sul Nordeste Centro-oeste

Fonte: Atlas da Economia Solidária no Brasil, 2005.

Gráfico 3.3: Concentração de empreendimentos solidários presentes em municípios no Brasil.

Nesse contexto, ainda segundo o Atlas, atualmente estão associados nos empreendimentos solidários mais de 1 milhão e 250 mil homens e mulheres, resultando em uma média de 84 participantes por empreendimentos solidários. A este conjunto agrega-se mais 25 mil trabalhadores e trabalhadoras participantes que, embora não-sócios, possuem algum vínculo com os empreendimentos solidários. O gráfico 3.4 apresenta o número de associados e a zona onde estão localizados os empreendimentos solidários.

268.911

498.918 482.872

Rural Urbano Rural e Urbano

Fonte: Atlas da Economia Solidária no Brasil, 2005.

Gráfico 3.4: Número de associados e a zona onde estão localizados os empreendimentos solidários.

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