1.2 Reuven Feuerstein: pressupostos teóricos
1.2.3 A Experiência de Aprendizagem Mediada (EAM)
Relembrando o contexto em que as ideias de Feuerstein foram desenvolvidas, é possível perceber que se reafirma a sua oposição aos resultados dos testes de QI, os quais classificavam as crianças vítimas do Holocausto, privadas culturalmente, como deficientes mentais. Essa oposição se deu por acreditar que havia naquelas crianças e adolescentes um potencial não manifesto, imperceptível pelas avaliações de natureza estática. Nesse ponto é possível fazer uma aproximação das ideias de Vygotsky no que se refere ao conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), definida como a “distância entre o nível de desenvolvimento real que se costuma determinar através da solução independente problemas e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes” (VYGOTSKY, 1984, p. 97).
A partir daí, direciona-se o olhar para a compreensão de como o indivíduo pensa, elaborando sua ação sobre o ambiente e, não unicamente, para a resposta por meio da qual ele consegue exteriorizar seus pensamentos. Os métodos tradicionais da época – os testes psicométricos – voltavam-se para as respostas imediatas, desconsiderando os potenciais não observáveis que todo ser humano possui. Por isso, Feuerstein também elaborou um novo programa avaliativo chamado ‘Abordagem de Avaliação do Potencial de Aprendizagem’, que considera as tarefas realizadas com ajuda e instiga a investigação dos mecanismos envolvidos na
produção de mudanças cognitivas. O próprio Feuerstein esclarece seu modelo de avaliação no seguinte trecho evidenciado por Ortega (1998):
Nós propomos substituir o alvo estático do procedimento diagnóstico por um dinâmico, o qual, em vez de investigar as capacidades manifestas do indivíduo e de usar estas como base para se fazer inferências sobre o desenvolvimento futuro, procura medir o grau da modificabilidade do indivíduo através de determinadas experiências de aprendizagem. Nós podemos assim obter uma medida do potencial individual de aprendizagem, definido como a capacidade da pessoa de se modificar por meio de um processo de aprendizagem. (FEUERSTEIN, 1979, apud ORTEGA, 1998, p.56)
O potencial individual de aprendizagem apontado pelo autor é o eixo de aproximação entre as ideias de Feuerstein e de Vygotsky. Aquilo que o indivíduo consegue fazer quando recebe ajuda, e que vai além do que ele resolve sozinho, identifica-se com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). É sobre a ZDP que a teoria se debruça para mostrar como é possível aprender a aprender. Calcada nas potencialidades do ser humano, a Experiência de Aprendizagem Mediada exige a presença de um mediador, atuando como a peça chave para a prática pedagógica. O mediador é um indivíduo mais experiente que o aprendiz, no caso o aluno, que se interpõe entre este aprendiz e o mundo que o cerca. Isso não quer dizer que qualquer pessoa que apenas se posicione desta maneira seja um mediador, pois esta pessoa precisa estar intencionada, já que a mediação é um processo bastante complexo em sua definição. Trata-se de uma estratégia de intervenção que se caracteriza pela interferência humana na transformação, captação e filtragem dos estímulos, antes que cheguem ao indivíduo mediado.
Dessa forma, o mediador é aquele que se interpõe entre o organismo e o mundo, filtrando, organizando, selecionando e dando significado cultural aos estímulos e às experiências da vida, a fim de proporcionar o desenvolvimento adequado e aumentar o grau de modificabilidade e flexibilidade no processamento das informações (GOMES e ASSIS, 1998). Nota-se que o papel do mediador é de suma importância para o desenvolvimento do aluno. Sua interferência filtra, adapta, reforça ou elimina, modula e até transforma os estímulos, relacionando-os com o tempo e o espaço para que ao aluno mediado com a qualidade e a importância necessárias ao desenvolvimento cognitivo e à evolução da aprendizagem.
Há uma explicação gráfica utilizada pelos autores que abordam a teoria de Feuerstein, que se mostra bastante ilustrativa a respeito da intervenção do mediador nos estímulos e reações que chegam ao indivíduo mediado, como se mostra a seguir:
Figura 1
Modelo gráfico do conceito de Mediação de Feuerstein
Fonte: ‘Feuerstein e a construção mediada do conhecimento (GOMES, 20002, p. 80)
A Experiência de Aprendizagem Mediada pode estar presente em qualquer cultura, desde a mais primitiva até a mais avançada tecnologicamente. Seu único e fundamental instrumento é a relação dialética entre o amadurecimento biológico natural da estrutura cognitiva e a relação social que tem o poder de ativar o amadurecimento cognitivo do indivíduo, quando carregada de interações mediadas. Todas as culturas são caracterizadas por essa dialética, por isso o indivíduo privado de sua cultura apresenta dificuldade para aprender e se adaptar às situações. A ausência de mediação na cultura nativa causa ao indivíduo a rigidez do pensamento e a limitação da capacidade de estender suas experiências além dos acontecimentos imediatos. Isso impede sua adaptação e, num grau mais elevado, sua capacidade de absorver por si só o conhecimento que as experiências oferecem nas situações de exposição direta aos objetos, dificultando a tarefa de aprender a aprender. Reforçando essa ideia, acompanha-se a seguinte citação:
Feuerstein acredita que a aprendizagem mediada seja o fator chave para que a criança fique mais receptiva à exposição direta, beneficiando-se mais dela. Isso ocorre porque a mediação é o tipo de interação que desenvolve as atitudes e competências básicas para a aprendizagem autodirigida. (GOULART e GUHUR, 2003, p. 15)
Já foi citado que não é qualquer tipo de interação que se caracteriza como mediação. Para que se estabeleça a mediação efetiva, alguns critérios foram determinados com o intuito de esclarecer os aspectos intrínsecos a esse processo. Três deles são imprescindíveis: ‘intencionalidade e reciprocidade’, ‘transcendência’ e ‘significado’.
Intencionalidade e reciprocidade: são características indissociáveis, pois o mediador seleciona, filtra, interpreta, oferece intencionalmente os estímulos para o indivíduo mediado e espera – e de certa forma exige – uma resposta para que se
estabeleça uma relação recíproca, já que não há a possibilidade de uma interação unilateral.
Transcendência: o aprendizado adquirido por meio de uma situação de mediação não ocorre simplesmente com o intuito de esclarecer a experiência imediata, mas também para que haja uma mudança cognitiva estrutural capaz de facilitar a compreensão e a organização de uma resposta a uma nova experiência ou demanda, pela qual o indivíduo passará no futuro. Por isso não se refere a conteúdos quando se fala em um modelo de aprendizagem mediada, podendo ser utilizado independente do tipo de cultura vivenciada pelo indivíduo.
Significado: atribuição de valor e sentido à experiência vivenciada, permitindo que seus objetivos tornem-se compreensíveis e válidos para o indivíduo. Refere-se a aspectos sociais e éticos, sendo impossível que o mediador assuma uma postura neutra nessa situação. Implica uma transmissão de conhecimentos, valores e crenças de geração para geração dentro de uma mesma cultura.
Além desses critérios essenciais, outros estão presentes quando se tem um processo efetivo de mediação e vão sendo agregados com a finalidade de enriquecer e complementar o processo, ainda que não sejam determinantes, estruturantes ou obrigatórios.
Competência: gerada quando o mediador constrói possibilidades positivas para o mediado e, também, quando oferece como ponto de partida aquilo que ele já sabe, fazendo com que se altere a visão que tem de si mesmo.
Regulação e controle do comportamento: metacognição que favorece e encoraja o mediado a pensar sobre sua ação e a se responsabilizar por sua aprendizagem. Compartilhamento: ‘colocar-se no lugar do outro’ estimulando a busca pela
socialização.
Individualização e diferenciação psicológica: ressalta a identidade do mediado diante do meio ao qual pertence, estimulando a autonomia e a independência. Busca de objetivos e metas: o objetivo remete à existência de um pensamento
Desafio: busca motivação e visão otimista frente ao novo, favorecendo a modificação, pois desafio é uma possibilidade de transformação que implica risco. Automodificação: implica imprevisibilidade e aceitação de que a mudança ocorre
de dentro para fora, o que converge na possibilidade de se modificar sempre. Otimismo: significa crer na possibilidade de superar dificuldades e obstáculos, o
que proporciona a busca de soluções por meio de uma visão mais ampla.
Pertencimento: ideia de inclusão que considera o indivíduo como parte de um grupo cultural e o fato de saber disso lhe causa prazer, tornando possível a construção de sua própria história.
Diante do exposto, pretende-se contribuir para que seja possível perceber o quanto a Experiência de Aprendizagem Mediada pode colaborar para o desenvolvimento de um aluno com necessidades educacionais especiais. O papel do mediador, desempenhado de forma consistente, torna-se imprescindível para o enriquecimento da interação entre o aluno e seu meio. Um professor consciente de seu trabalho e da importância de suas ações sobre a aprendizagem de seus alunos tem a chance de potencializar as capacidades que todos os seres humanos possuem, mas que, por diversos motivos, os alunos da Educação Especial deparam-se com obstáculos que podem ser vencidos por meio da mediação.
Com base na Modificabilidade Cognitiva Estrutural ativada principalmente pelo procedimento de mediação, a pesquisa segue em seus procedimentos metodológicos para que se possa identificar as estratégias pedagógicas utilizadas por professores da Educação Especial.
CAPÍTULO 2
MÉTODO
2.1. Caracterização do atendimento em educação especial e inclusão no Município de