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2. REVISÃO DA LITERATURA

2.1 A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO NO SETOR OFFSHORE

Assim como as demais indústrias, a indústria do petróleo também está inserida no sistema capitalista, onde termos como lucro, força de trabalho, mais-valia, subsistência e exploração estão marcadamente presentes. Particularmente no tecnológico setor petrolífero, então, todos estes aparecem de forma gritante, uma vez que as cifras envolvendo este mercado são mais do que bilionárias. Karl Marx foi um dos pensadores que se dedicou a produzir obras que versavam, entre outros temas, sobre as relações de trabalho neste sistema. Sobre a motivação dos trabalhadores para buscarem o setor offshore, Marx explica-nos que o indivíduo não detentor do capital necessita vender sua força de trabalho para a própria subsistência, condição que engloba a grande maioria das pessoas, já que não são donas de meios de produção.

Vimos que o trabalhador, durante uma parte do processo de trabalho, produz apenas o valor de sua força de trabalho, isto é, o valor dos meios necessários à sua subsistência. Produzindo sob condições baseadas na divisão social do trabalho, ele produz seus meios de subsistência não diretamente, mas sob a forma de uma mercadoria particular, por exemplo, do fio, um valor igual ao valor de seus meios de subsistência, ou ao dinheiro com o qual ele os compra. A parte de sua jornada de trabalho que ele precisa para isso pode ser maior ou menor a depender do valor de seus meios de subsistência diários médios ou, o que é o mesmo, do tempo médio de trabalho diário requerido para sua produção (Marx, 2013, p. 292).

Ora, este é um processo legítimo, mas a que ponto o reconhecimento pela força de trabalho desprendida é suficiente? A atratividade causada pela indústria do petróleo reside justamente nos elevados salários. Apesar disto, os trabalhadores offshore continuam apresentando, ao longo das décadas, diversas críticas relacionadas às suas condições de trabalho, o que nos sinaliza que apenas uma remuneração razoável não serve como fator único de garantia de satisfação e reconhecimento. Tomamos aqui como exemplo a fala de uma de nossas entrevistadas, que, quando indagada se ainda trabalha embarcada, respondeu “graças a Deus, não”. E ainda outro entrevistado, que afirma que “você, infelizmente, se acostuma. Gostar, ninguém gosta. Não existe ninguém que goste de ficar lá embarcado”.

Marx também difere os termos “tempo de trabalho necessário” e “tempo de trabalho excedente”. O primeiro representa o período no qual o trabalhador atua apenas para compensar o valor gasto pelo capitalista (empresas, corporações). Já o segundo é aquele que não cria nenhum valor para o trabalhador, mas para o próprio capitalista. Trata-se do conceito de mais-valia, que, no setor petrolífero, é facilmente identificável. Os salários sedutores que atraem muitas pessoas são uma porcentagem mínima de um mercado que movimenta valores exorbitantes. Nessa direção, diante de equipamentos e processos custosos, não haveria nenhum exagero em dizer que a “peça” mais barata (e menos reconhecida) na indústria do petróleo é o trabalhador. Isso quer dizer que o esforço deste gera um retorno incontáveis vezes superior ao seu salário para o capitalista. Ao citar o reconhecimento, não devemos nos ater a uma questão meramente financeira, mas ir além desta, envolvendo toda uma preocupação com a segurança e qualidade de vida do indivíduo dentro e fora do ambiente de trabalho. Embora existam demandas patronais e do mercado a serem atendidas, e a pressão para atendimento das mesmas não seja pequena, a performance do trabalhador deve ser realizada com um custo humano aceitável (DANIELLOU, F.; SIMARD, M.; BOISSIÈRES, I., 2010), numa confluência entre capacidade produtiva e sentir-se bem/seguro (tanto no sentido psicológico quanto físico).

Mas como na parte de sua jornada de trabalho em que produz o valor diário da força de trabalho, digamos, 3 xelins, o trabalhador produz apenas um equivalente ao valor já pago pelo capitalista – e, desse modo, apenas repõe, por meio do novo valor criado, o valor do capital variável adiantado – essa produção de valor aparece como mera reprodução. Portanto, denomino ‘tempo de trabalho necessário’ a parte da jornada de trabalho em que se dá essa reprodução, e ‘trabalho necessário’ o trabalho despendido durante esse tempo. Ele é necessário ao trabalhador, porquanto é independente da forma social de seu trabalho, e é necessário ao capital e seu mundo, porquanto a existência contínua do trabalhador forma sua base.

O segundo período do processo de trabalho, em que o trabalhador trabalha além dos limites do trabalho necessário, custa-lhe, de certo, trabalho, dispêndio de força de trabalho, porém não cria valor algum para o próprio trabalhador. Ela gera mais- valor, que, para o capitalista, tem todo o charme de uma criação do nada. A essa parte da jornada de trabalho denomino tempo de trabalho excedente [Surplusarbeitszeit], e ao trabalho nela despendido denomino mais-trabalho [Mehrarbeit] (surplus labour) (Marx, 2013, p. 292/293).

Em outras palavras, trazendo Marx para os dias atuais, este trecho nos indica que o tempo de trabalho excedente é largamente superior ao tempo de trabalho necessário na indústria do petróleo (FIGUEIREDO & ALVAREZ, 2011). E não só nessa indústria, pois “toda empresa de produção de mercadorias torna-se, ao mesmo tempo, empresa de exploração da força de trabalho” (MARX, 2014, p. 119).

Contudo, no modo capitalista de produção, “os trabalhadores e os meios de produção permanecem sempre como seus fatores constitutivos” (MARX, 2014, p. 119). Portanto, trata- se de uma relação de interdependência, que, embora venha sendo pautada pela superexploração dos detentores dos meios de produção sobre os trabalhadores, nunca poderá prescindir destes – e nisto reside sua força.

Se a força de trabalho só é mercadoria nas mãos de seu vendedor, do trabalhador assalariado, ela só se torna capital, ao contrário, nas mãos de seu comprador, o capitalista, a quem cabe seu uso temporário. Os próprios meios de produção só se convertem em formas objetivas do capital produtivo, ou capital produtivo, a partir do momento em que neles pode ser incorporada a força de trabalho, como forma de existência pessoal desse capital. Portanto, os meios de produção não são capital por natureza, e tampouco o é a força de trabalho humana. Eles só assumem tal caráter social específico sob condições determinadas, historicamente desenvolvidas, assim como é apenas sob essas condições que o metal precioso assume o caráter de dinheiro, ou o dinheiro o caráter de capital monetário (Marx, 2014, p. 119/120).

2.2 CONTRIBUTOS DA ERGONOMIA PARA A SAÚDE E SEGURANÇA DO