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4 EM BUSCA DE CONCEITOS

5.2 A Faculdade de Direito do Recife: sua trajetória

Até o ano de 1827 era da Universidade de Coimbra em Portugal que saía a maioria dos Bacharéis em Direito no Brasil. E assim ocorreu durante o período colonial no nosso país. As colônias espanholas, diferentemente, já possuíam em seu território algumas universidades, as primeiras da América Latina. Olivio (2000, p.54) afirma que: “Em 1553 foi inaugurada a Universidade do México, com as Faculdades de Filosofia, Cânones/Direito, Teologia. Depois surgiram as Universidades de São Marcos (Peru), de São Felipe (Chile) e Córdoba (Argentina)”.

As primeiras incursões no ensino superior no Brasil foram feitas pelos jesuítas. “Por sua vez, ministravam-se nos conventos dos jesuítas carmelitas e franciscanos, aulas de nível universitário, para uso exclusivo dos padres e seminaristas”. (BOVE, 2006, p119). Não é estranho o fato de que o primeiro curso jurídico no Brasil tenha sido instalado em terreno católico.

Bove (2006) nos diz que de forma transversa e irônica devemos a incursão do Brasil no ensino superior a Napoleão. Segundo o autor, se não

houvesse a invasão das tropas de Napoleão em Portugal, a Família Real não teria vindo se refugiar no Brasil e a história tomaria outro rumo. De fato, o que sabemos é que com a chegada da família Real houve, de certa forma, progresso em diversos setores como, por exemplo, a impressão régia. Bove (2006,p. 120) nos aponta que instituições foram impulsionadas pela chegada da família real ao Brasil: “foram criadas as médicas-cirúrgicas na Bahia e no Rio de Janeiro, respectivamente, em 18 de fevereiro de 1808 e 02 de abril do mesmo ano.”11

No entanto, em relação aos cursos jurídicos, ainda era na Universidade de Coimbra onde se formava a elite intelectual brasileira.

Em Coimbra, a formação em Direito era um processo de socialização destinado a criar um senso de lealdade e obediência ao rei. É bastante significativo que, durante os trezentos anos em que o Brasil foi colônia de Portugal, Coimbra fosse a única Faculdade de Direito dentro do

11 É importante ressaltar que ainda neste período não se pode considera as duas Escolas de cirurgia como uma Faculdade genuinamente brasileira, pois os diplomas ainda eram emitidos de Lisboa. “De posse do certificado, o aluno era submetido ao exame e caso fosse aprovado, os documentos eram encaminhados a Lisboa, que expedia o diploma mediante o pagamento dos emolumentos.”Disponível

em:<http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/P/verbetes/es cirba.htm>

império português. Todos os magistrados do império, tivesse ele nascido nas colônias ou no continente, passavam pelo currículo daquela escola e bebiam seu conhecimento em Direito e na arte de governar naquela fonte. (OLIVIO,2006, p.56)

Com a constituição de 1824, outorgada por Dom Pedro I, a qual assegurava a criação de “colégios e universidades”, o que não veio a ocorrer, nos casos dos cursos jurídicos. Apenas em 11 de agosto de 1827 foram criados os primeiros cursos jurídicos do Brasil, por decreto da Assembléia Nacional, sancionada pelo imperador Dom Pedro l. Após muitos empates políticos, ficou acertado que duas escolas cobririam todo o território brasileiro. Uma em Olinda, que atenderia a população do norte do país e, a outra em São Paulo que atenderia a população do sul.

O Curso de Sciencias juridicas e sociaes entrou em funcionamento em 15 de maio de 1828 no mosteiro de São Bento, Olinda. Em 1854 a sede do curso foi transferida para o Recife. De acordo com o Decreto de número 1386 de 18 de abril de 1854, que assim previa em seu artigo primeiro: “os actuaes Cursos Jurídicos serão constituídos em Faculdades de Direito; designando-se cada huma pelo nome da cidade, em que tem, ou possa ter assento.” Dessa forma, o Curso de Sciencias juridicas e sociaes passa a

ser denominado Faculdade de Direito do Recife. “É só a partir de então que se pode pensar em uma produção original e na existência de um verdadeiro centro criador de ideias e aglutinador de intelectuais engajados com os problemas de seu tempo e de seu país” (SCHWARCZ, 2005, p.146).

No Recife, agora já denominada Faculdade de Direito do Recife (FDR), a faculdade foi instalada em um casarão em estado de ruína no Largo do Hospício, apelidado de “pardieiro” pelos alunos da instituição, de acordo com Veiga (1981, p.230).

FIGURA 2 – fotografia da Faculdade de Direito do Recife

no Largo do Hospício em 1854, atual Hospital do Exército. Fonte: Acervo de fotografia da Fundação Joaquim Nabuco. O atual prédio da Faculdade do Recife, um suntuoso palácio situado na Praça Adolfo Cirne, foi inaugurado em 1912. O prédio, cujo projeto arquitetônico foi assinado pelo arquiteto Frances Gustave Varin, tem 3.600 metros quadrados e uma área amplamente jardinada.

Reconhecendo o valor cultural e artístico da Faculdade de Direito do Recife, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN realizou em 06 de agosto de 1980, o tombamento do prédio.

A FDR foi um centro de inovação intelectual e diversos movimentos e ideias surgiram daquele centro jurídico. Um desses movimentos, internacionalmente conhecido, foi a Escola do Recife. Movimento científico, literário e filosófico que tinha como figuras centrais Tobias Barreto e Sílvio Romero. Wilson Martins em História da Inteligência Brasileira refere-se à Escola do Recife: “O certo é que a Escola do Recife estava claramente inaugurando uma nova idade no pensamento brasileiro”. Bevilaqua (1927), sucintamente descreve o que foi a este movimento:

Escola do Recife o brilhante movimento intellectual, que teve por theatro a cidade do Recife, que foi, primeiramente, poético, depois, critico e philosofico, e, por fim, jurídico, sendo em todos elles, figura prepoderante Tobias Barreto, razão pela qual Espencer Vampré se inclinaria, attendendo, particularmente, á ultima phase, a preferir a denominação de Escola de Tobias.

Ferreira nos conta que a FDR “é um micromodelo das tensões sociais, consciente, sofrida como a própria macrossociedade”. O autor alerta que a Faculdade “nunca deve ficar impassível, porém integrada nas aspirações do desenvolvimento cultural do país”. (1994, p.151).

5.3 Guardando memórias: a Biblioteca da