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Maria Catarina Chitolina Zanini Patrícia Rejane Froelich

A FEIRINHA DE CAMOBI: 7 ETNOGRAFANDO A FEIRA

A pesquisa etnográfica realizada pelas autoras na Feirinha de Camobi, como é conhecida, teve início no ano de 2011, quando se buscava, por meio de pes- quisa in loco, conhecer e compreender o papel das mulheres feirantes (e também camponesas) e suas dinâmicas de interação na feira e como o trabalho nesta havia impactado (ou não) suas existências enquanto mulheres trabalhadoras da terra. Ou seja, pretendíamos compreender e analisar as estruturas de significado ali circula- das e circulantes (Geertz, 1989), visando melhor compreender o trânsito entre o mundo do trabalho com a terra e o espaço urbano (da rua), em que o comércio se processava. A pesquisa se expandiu, agregou novos objetivos e também apontou para a rica situação ali cotidianamente invocada: a revitalização de sinais diacríti- cos (e dialógicos) das italianidades locais que circulavam do mundo rural, do qual provinham os feirantes, ao universo urbano, dos clientes.

Importante ressaltar que Camobi é um bairro que, nos últimos anos, tem crescido muito, em função da expansão das atividades da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), bem como devido às atividades da Base Aérea, que ali se realizam. Trata-se de um bairro que tem sido valorizado do ponto de vista imobili- ário, constituindo-se como bairro de classe média (baixa e média), com a presença

de importante contingente de servidores públicos federais. Essa população tem observado na feira também um espaço de aprendizado sobre o mundo rural. Nos dois anos de pesquisa etnográfica, as pesquisadoras puderam observar que, cada vez mais, os clientes trazem chimarrão8 para a feira, tomando-o enquanto transitam

entre as barracas. Esse passeio descomprometido entre as bancas, com uma cuia nas mãos, aponta para o espaço lúdico e de sociabilidade prazerosa em que a feira tem se convertido nos últimos anos.

A grande maioria dos feirantes é descendente de imigrantes italianos que colo- nizaram a região em finais do século XIX e início do século XX e habitam localidades rurais do município de Santa Maria e de municípios vizinhos. Aos sábados, a feira conta com cerca de quinze barracas, espalhadas horizontalmente ao longo da calça- da. Nas quartas-feiras há menos barracas, em torno de oito. São sempre os mesmos feirantes, que deram início a esta atividade há aproximadamente 13 anos. O projeto ainda está pesquisando as memórias de construção deste espaço de feira por meio das lembranças dos feirantes mais antigos. Nessas construções, há uma ampla valorização por parte dos feirantes acerca da conquista do ponto, pois no início a feira quase não tinha clientes e hoje é consolidada, possuindo uma clientela fiel e muito apreciadora de seus produtos. Não se trata de uma feira muito sonora, em contraponto às feiras apresentadas por Vedana (2004, 2008). É uma feira em que o processo interativo e de comunicação se processa do cliente para o feirante e não o contrário, quando o feirante, de forma jocosa, interpela os clientes (vide Vedana, 2004, 2008). Trata-se de uma feira quase silenciosa. Nas poucas vezes em que houve sonorização mecânica, essa não foi amplamente valorizada ou apreciada pelos feirantes.

O espaço da feira está situado na avenida Roraima, porta de entrada da UFSM, entre as estradas conhecidas como Faixa Velha (RS-509) e Faixa Nova (RST-287). Trata-se de espaço público, utilizado por meio de convênio da UFSM com a Sociedade Amigos de Camobi (SACA), que teria participado do início de suas atividades no bairro Camobi. Como o convênio somente foi formalizado por minuta em 2013, sempre houve uma tensão acerca das indefinições das relações dos feirantes com a UFSM e com a prefeitura municipal. Contudo, após as negociações e formalização, percebe-se uma maior tranquilidade quanto ao uso do espaço.

A feira é montada no espaço em frente à calçada de pedestres, na rua. Trata-se de uma feira aberta, em que cada feirante é responsável por montar e desmontar sua

8 Bebida elaborada com erva-mate. Bebe-se quente, num recipiente denominado cuia, em que se

assenta uma espécie de canudo de metal, a bomba. Os clientes trazem cuia e garrafa térmica com água quente para tomar o chimarrão.

barraca e deixar o espaço limpo após as vendas. Os feirantes costumam chegar entre 5 e 6 horas da manhã e permanecem até às 12 ou 13 horas. Por meio da pesquisa, temos observado que é o ritmo da feira e de suas demandas que tem orientado os cultivos nas propriedades dos feirantes (todos são pequenos produtores). Um exemplo é a alface que, independente do período do ano, está sempre presente na feira, pois vende bem. Além disso, as rotinas também são enquadradas nos espaços livres dos dias de feira.9

As pesquisadoras foram recebidas pelos feirantes após apresentarem a pesquisa, seus objetivos e finalidade, entregando uma cópia do projeto ao representante dos feirantes, em 2011. Desde o início puderam acompanhar as atividades da feira nos dois dias da semana em que ela acontece (quarta-feira e sábado). Nas quartas-feiras, costumamos “sentar”10 com uma das feirantes, observando os diálogos e o cotidiano

da feira. Nos sábados, sentamos com um casal de feirantes, em outro espaço da feira, localizado em uma das pontas, para, deste modo, interagir melhor com o espaço como um todo. Além disso, sempre nos preocupamos em não atrapalhar as atividades dos feirantes, pois em determinados momentos o fluxo de clientes é grande e sabemos que a venda de cada produto é de importância.

Grande parte dos feirantes vende somente artigos produzidos por eles próprios ou por outros agricultores da região, principalmente de suas vizinhanças. Contudo, há feirantes que vendem produtos vindos de fora. Essas distinções geram tensões no interior da feira, pois a proposta inicial era de que ela fosse uma feira de produtores locais que ali buscassem a venda direta, sem atravessadores. Sempre procuramos respeitar a individualidade de cada feirante e salientar que, do ponto de vista técnico agrícola, não tínhamos condições e nem conhecimentos para nos manifestar e/ou propor alternativas. Estávamos ali pesquisando a feira noutra perspectiva, a das relações humanas e sociais e suas dinâmicas.

A pesquisadora e a bolsista foram sempre muito bem recebidas, podendo aplicar questionários,11 fazer anotações, tirar fotografias e participar de conversas

9 Para Gell (1982, p. 480), “Markets are symbols of the social order because they are its product. Along

with battles, ceremonies and political assemblies, they fall into the class of necessarily rather than contingently public occasions. They demand the renunciation of individual autonomy for the sake of ends (the exchange of goods and information) which can only be achieved collectively. Because of their logistic, co-ordinating, functions markets exert a profound influence over concepts of time and space in peasant societies and peasant states”.

10 Habitualmente, leva-se cadeira, água e material de pesquisa.

11 Três questionários distintos foram aplicados: o primeiro de caracterização das famílias dos feirantes; o

segundo, destinado às mulheres; e um terceiro visando conhecer o uso de tecnologias, de maquinários e insumos nas propriedades rurais.

durante a feira. Se no início pensavam que poderíamos ser da vigilância sanitária, aos poucos foram percebendo que nossas preocupações e perguntas eram outras. Quando permanecíamos algum tempo sem comparecer, os comentários giravam em torno de nossa ausência, sentida como uma falta, o que nos deixava altamente motivadas a continuar o processo de pesquisa. Por vezes nos questionamos acerca do longo trabalho de campo, pois estamos neste coletivo desde 2011, contudo a sazonalidade da produção, as dificuldades enfrentadas pelos agricultores e a própria consolidação da feira como um espaço de mercado no urbano nos apontavam que havia muito ainda para se conhecer. Também conhecemos algumas propriedades rurais e realizamos entrevistas em casas de agricultores, o que nos trouxe uma po- tencialidade analítica mais refinada.

A rotina da feira começa no dia anterior, quando preparam os produtos para vender na cidade. De madrugada, entre quatro e cinco horas da manhã, deslocam-se para Santa Maria. Ao chegarem, montam as barracas e dispõem os produtos. Conforme nossas observações – uma vez que não aplicamos questionários junto aos frequentadores da feira –, a clientela é composta pela população do próprio bairro e por pessoas que vão até a UFSM e à Base Aérea trabalhar e/ou estudar e aproveitam para fazer a feira, especialmente nas quartas-feiras. Nos sábados, observa-se uma circulação maior de pessoas, de todas as idades e grupos étnicos diversos. São, em quase sua totalidade, moradores do bairro e dos arredores. Há, entre eles, tanto descendentes de italianos quanto aqueles que não possuem ascendência italiana alguma. Trata-se de uma feira aberta e que atrai a população do bairro todo.

Os produtos mais procurados na feira são as saladas verdes (radici, alface lisa, alface mimosa, alface crespa, chicória, alface americana, entre outras espécies e va- riedades sazonais). Comercializam-se também ovos (de galinha, de marreco, ganso e codorna) frangos considerados coloniais (provenientes da colônia), carne de porco, torresmo, cucas,12 pães, bolachas, capelettis, massas prontas, canudinhos,13 bolos,

doces, compotas, temperos, leguminosas diversas, erva-mate, mel, sabão caseiro, salames, queijos, a morcilia,14 batata-doce assada (também muito apreciada), frutas,

vinho colonial, vinagre, graspa, entre outros produtos que são sazonalmente expos-

12 A cuca mais vendida na feira é um pão doce com cobertura de açúcar com manteiga. Contudo, há

também, nos sábados, a cuca alemã, com menos massa e recheio de frutas e cremes.

13 Canudinho é uma massa no formato de um pequeno cone. É vendida já frita e pronta para que nela

seja colocado o recheio, que pode ser doce ou salgado. Em todo o Rio Grande do Sul os canudinhos são muito apreciados.

14 Trata-se de embutido feito com miúdos de porco. É muito apreciado na culinária dos imigrantes

tos. O feijão da feira é muito valorizado, tendo uma clientela fixa. Os produtores vendem feijão preto (de várias qualidades), feijão cavalo, carioquinha e outros. Há clientes que, ao abordar as feirantes, perguntam: “É este o feijão do caldo grosso?”. Há também, no sábado, barraca de artesanato (crochê e tricô) e de flores (Figura 1).

A COLONIZAÇÃO ITALIANA NA REGIÃO CENTRAL