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CAPÍTULO II: O Ensino de Filosofia e Ética nos cursos de Administração de

1.1. A Filosofia

1.1.1. A Filosofia da Praxis e o conhecimento humano

O conhecimento, considerado em si mesmo, é um fato e não um problema. Tornar- se-ia problema se se realizasse no real um corte absurdo, separando o que é efetivamente ligado, ou seja: sujeito e objeto.

Enquanto fato, o conhecimento possui determinações próprias, características gerais: ele é prático, social e histórico.

Porque o conhecimento humano é prático?

A atitude primeira do Homem diante da realidade não é de um distante sujeito cognoscente, examinando especulativamente esta mesma realidade. Mas, envolve um contato experimental, prático, de um ser que age sobre as coisas, explora-as, penetra-as, experimenta-

as e é também por elas transformado na medida em que elas resistem ou cedem à sua ação, obrigando-o a se modificar nesta interação contínua.

“No trato prático-utilitário com as coisas – em que a realidade se revela como mundo dos meios, fins, instrumentos, exigências e esforços para satisfazer a estas – o indivíduo, em situação, cria suas próprias representações das coisas e elabora todo um sistema correlativo de noções que capta e fixa o aspecto fenomênico da realidade”50

Porque o conhecimento humano é social?

No ato de conhecer, o Homem percebe outros seres semelhantes a si mesmo. Seres com os quais e sobre os quais ele age e sofre ação, numa interação diferente daquela prático- utilitária do seu primeiro contato com as coisas. Estes seres, por possuírem a mesma capacidade de reação, exigem deste sujeito uma nova dimensão, estabelecendo-se entre eles e com eles relações cada vez mais complexas e mais ricas de determinações. Desenvolve-se cada vez mais a vida individual juntamente com a social, pois este contato entre seres que conhecem e se conhecem é condição de transmissão de um saber já adquirido e de criação de novos saberes.

Porque o conhecimento humano é histórico?

A verdade não é dada previamente, não é revelada integralmente num momento predestinado. Todo conhecimento foi adquirido e conquistado na, com e pela História.

“O que é verdadeiro para o indivíduo é igualmente verdadeiro para a humanidade inteira: o imenso labor do pensamento humano consiste num esforço secular para passar da ignorância ao conhecimento” 51

50 Karel KOSIK. Dialética do Concreto. p.10

Esta passagem da ignorância (entendida como um simples reproduzir mental das formas fenomênicas percebidas na realidade, uma postura ingênua fundada no senso comum) para o conhecimento (entendido como consciência, como uma real compreensão das coisas e da realidade, em suas leis e estruturas, determinando a existência de um conceito realmente correspondente à essência da coisa em sua concreticidade e não em sua aparência) se dá através da ação transformadora dos Homens, na e pela História, de forma dialeticamente metódica.

Entendido assim, o fato do conhecimento envolve Sujeito e Objeto em um movimento, em um dinamismo que é próprio de toda a realidade, inclusive da realidade do pensamento.

O real possui uma interdependência ativa de todas as suas partes – todos os fenômenos do real são ligados entre si e se condicionam reciprocamente, num dever contínuo e, por isto mesmo, em criação constante de coisas novas.

Estas coisas novas possuem, da mesma forma que as coisas antigas que superaram num processo de síntese, contradições intrínsecas entre aspectos que são “a luta entre o antigo

e o moderno, entre o que morre e o que nasce, entre o que se corrompe e o que se desenvolve, um lado negativo e um lado positivo, um passado e um futuro”52, e é desta contradição das

coisas e do pensamento, e da instabilidade dela derivada, que podemos determinar o caráter provisório e histórico da verdade.

O conhecimento, portanto, é um fato que se dá através da ação transformadora dos homens, na, com e pela História.

O conhecimento assim entendido tem as características de fato: prático, social e histórico não como uma simples tautologia e sim como expressão de uma nova realidade em que os aspectos teórico-práticos se interam numa praxis transformadora e unificadora.

Uma realidade em movimento só poderá ser compreendida em e pelo movimento do próprio pensamento o qual, por sua vez, terá maior ou menor validade concreta na proporção em que mais encerrar esta mesma realidade em movimento.

“Não é possível compreender imediatamente a estrutura da coisa ou a coisa em si mediante a contemplação ou mera reflexão, mas sim mediante uma determinada atividade. Não é possível responder o que é a coisa em si sem a análise da atividade mediante a qual ela é compreendida, ao mesmo tempo esta análise deve incluir também o problema da criação da atividade que estabelece o acesso à coisa em si. Estas atividades são os vários modos da apropriação do mundo pelos Homens. O conhecimento representa um dos modos de apropriação do mundo pelos homens. Os dois elementos constitutivos de cada modo humano de apropriação do mundo são o sentido subjetivo e o sentido objetivo. Qual o sentido que o Homem deve desenvolver, como deve preparar-se para compreender e descobrir o sentido da coisa? É possível, portanto, compreender o sentido da coisa se o Homem criar para si mesmo um sentido correspondente. Estes mesmos sentidos, por meio dos quais o Homem descobre a realidade e o sentido dela, são um produto histórico-social”53

Portanto, só através de um método que não reduza a realidade a um único de seus aspectos, mas que seja um método do desenvolvimento e da explicitação dos fenômenos culturais partindo da atividade prática objetiva do Homem-histórico, não dissociando o indissociável, ou seja: Homem/Mundo, Objetividade/Subjetividade, Reflexão/Ação, Teoria/Prática, Ciência/Técnica e todas as outras aparentes dicotomias que, na realidade, são aspectos de contradição de um todo é que se conseguirá explicar melhor o real. Para isto, torna-se necessário o entendimento do que seja praxis como categoria analítica essencial.