4. SÍNTESE DA INFLUÊNCIA DE CESARE BECCARIA NO
4.5. A finalidade da pena como forma de prevenção
Sem rebuço de dúvida, a finalidade precípua da pena não é o de atormentar, angustiar ou afligir o indivíduo, o homem, para que atingindo-o psicologicamente o iniba a praticar ilícitos. Igualmente, a pena não busca o desfazimento do mal já cometido. Impossível é pensar que a aplicação da sanção irá fazer com que seja recuperado o status quo anterior, ou que os efeitos daquela prática delituosa serão apagados, esquecidos ou remediados. (No entanto, vale a lembrança de que, hodiernamente o Direito Penal tem se inclinado para o fito da reparação do dano causado, ou a minimização de suas conseqüências.).
Não é possível se imaginar que o Estado, enquanto órgão político máximo, fundamente a aplicação de suas sanções em critérios emocionais ou passionais, onde o tormento causado nos indivíduos seria a escopo original do ato estatal de sancionar.
Entende BECCARIA que “o fim da pena, pois, é apenas o de impedir que o réu cause novos danos ao seus concidadãos e demover os outros de agir desse modo.”20 O fito mor da pena, portanto, é a prevenção. Tanto no sentindo de desestimular o cometimento de mais atos ofensivos aos interesses coletivos, aos bens sociais, bem
19 BATISTA, Nilo, Introdução crítica ao Direito Penal Brasileiro, Rio, Ed. Revan, Rio de Janeiro, 1990.p 32.
20 BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. 2ª edição. Editora Revista do Tribunais, São Paulo, 1997:52
como prevenindo para que outros indivíduos se sintam desinteressados a praticarem ilícitos face a possibilidade real e concreta da sanção.
O rico ensinamento de BECCARIA diz que “o lugar da pena é o lugar do delito, porque aí somente, e não em outro lugar, os homens são obrigados a ofender um particular para prevenir a ofensa pública.21” Em suma, as penas devem ser proporcionais aos delito não só quanto a sua medida, mas também quanto ao seu modo de aplicação, isto é, em que condições o apenado irá cumprir sua sanção, tanto no que diz respeito ao local físico quanto espacial.
Muito mais útil a sociedade é a prevenção do que a própria punição, pois por mais que essa tenha essencialmente caráter preventivo, para ser aplicada pressupõe situação criminosa antecedente, isto é, já houve um mal praticado contra a sociedade.
O fim maior do Estado é a promoção do bem comum, isto é, a garantia da paz social. Para isto dispõe o ente estatal de todo um sistema jurídico, onde pode dispor de regras de conduta e repressão, entretanto muito mais proveitoso a esta sociedade é que existam condições que previnam a ocorrência de fatos ofensivos ao interesses sociais máximos22.
Há que se considerar que de forma alguma, proibindo um grande número de condutas ou limitando de forma brutal a liberdade humana, se prevenirá a ocorrência de crimes, mas ao contrário pela própria natureza humana a incidência desses crescerá. Múltiplos são os aspectos a serem compreendidos, defendidos e aplicados para que efetivamente haja prevenção da ocorrência de atos ofensivos à paz social, aos direitos individuais e coletivos.
Primeiramente as leis, as regras normativas de conduta e sanção devem ser claras, simples e objetivas para proporcionarem rápido e eficiente entendimento. E, ainda mais relevante do que isto, o Estado deve aplicar as leis de forma direta, pois como já exaustivamente exposto, a certeza de que a todo delito corresponde uma pena
21 BECCARIA, Cesare, “Dos delitos e das penas”, trad. De Torrieri Guimarães, Rio de Janeiro, Ed. Hermus, 1994, p.113.
imposta pelo ente estatal é fundamental para que a mesma atinja sua finalidade última, a prevenção, a apresentação de exemplos aos indivíduos para que os desistimulem a praticar crimes.
Os homens devem temer as leis, entretanto de forma saudável e normal. É esse temor, ou melhor, esse respeito pela autoridade normativa do Estado que irá conduzir a regulação eficaz das relações sociais. Nada salutar, até mesmo bastante prejudicial é o medo dos homens pelos próprios homens, pois de nenhuma forma, dentro da moderna estrutura social deve um indivíduo temer ou se subordinar ilimitadamente a outro, pois esse nível de submissão não deve existirem mesmo em relação ao órgão estatal maior23.
Outro importante instrumento preventivo é o conhecimento, entendido aqui da forma mais ampla possível. A luz trazida a uma sociedade pelo esclarecimento é tamanha que impede ou dificulta a prática de delitos. Quanto mais conhecimento detiver o grupo social maior será a resistência oferecida à prática de atos ilícitos, quer pela oposição direta, quer por mais facilmente e melhor auxiliar na apuração dos mesmos.
A existência de um corpo técnico-jurídico estatal capaz e preparado, e acima de tudo comprometido como a causa da promoção de justiça e promoção da paz social, é indispensável para a prevenção da ocorrência de delitos e infrações. Tal fato faz com que, em última análise o próprio Estado esteja mais atento e preparado para lidar com as situações perturbadoras do equilíbrio social, tendo portanto uma resposta mais rápida e eficiente.
Para alguns a premiação, ou sanção premial, constitui útil instrumento na prevenção das infrações, pois estimulará os indivíduos a cometer atitudes boas e dignas, e em alguns casos de forma objetiva, compensando o possível bem conseguido com a prática delituosa24.
22 ANDREUCCI, Ricardo Antunes & Dotti, René Ariel; Reale Jr., Miguel; Pitombo, Ségio M. de Moraes, Penas e Medidas de Segurança no novo Código, Rio, Forense, 1985.
23 CATÃO, Yolanda . Direitos dos presos. Rio de Janeiro, Forense, 1980.
24 ANDRADE, Manoel Costa, Consentimento e Acordo em Direitos Penal, Coimbra, Coimbra Editora, 1991.
Entretanto, mesmo considerando os instrumento preventivos retro- mencionados, o mais eficiente, útil e importante desses é, iniludivelmente, a educação dos indivíduos, e consequentemente de todo o grupo social. Educar uma sociedade é o mesmo que autopreveni-la da forma mais completa e profunda da criminalidade, pois se atinge o mais íntimo do homem, fazendo-o, desde logo, trilhar o caminho da luz e da virtude25.
25 MENDES, Nelson Pizzotti. Tratamento penitenciário nos estabelecimentos penais especializados. Justitia 59/83-110.
5. DAS TEORIAS ACERCA DA NECESSIDADE DA PENA - CENSURAS